morte

Visita

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– Oi! Cheguei numa hora ruim? – perguntou a garota esgueirando a cabeça pela fresta da porta.

– Nunca é uma boa hora, né. Mas entra aí… – Disse o rapaz enquanto continuava a ler o livro gigantesco, que relatava todas histórias de um mundo de fantasia.

Fechou o livro, girou a cadeira e viu a sua frente a garota. Jovem adulta, de cabelos longos e negros, olhos de mesma cor e pele escura. Sua roupa discreta contrastava com a maquiagem carregada no lápis de olho.

– Você sabe quem eu sou, não? – ela novamente.

– Acho que sei, sim. Já é a hora então?  – o rapaz estica as costas, notavelmente com uma dor na cervical, escondendo o nervosismo aterrador.

– Ainda não, mas vim aqui conversar contigo. Sair do “mundo dos sussurros”, sabe? Ainda mais por que a última vez que conversamos faz o quê? Doze anos? Dezesseis?

“Quase dezoito mês que vem”, ele corrigiu. E disse:

– Acho que por conta de tanto tempo com esses “sussurros”, que sempre tive tanto pânico em te encontrar. – sem ser grosseiro, mas ainda decidido a ir direto ao assunto, solicitou – O que você quer?

– Eu nunca quero nada, você sabe. Eu simplesmente existo. Vim aqui porque algo está acontecendo aí dentro de você. Eu sei disso e eu sei que é em relação à mim. – sorriu, parecendo simpática.

– É…é verdade. Não é fácil ficar assim tão próximo de você, mas… eu sei que essa conversa vai ser definitiva um dia. É hoje? – mais uma vez, ele extremamente nervoso.

– Não – ela sorriu; ele não -, mas eu preciso fazer as pazes com você, eu…

– Impossível. – ele interrompeu – Cada vez mais é impossível te entender e te aceitar na minha vida, mesmo que distante. Você parece estar sempre perto. Demais. E quando eu acho que está tudo bem, você está num quadro, na internet, na porta da minha casa, toda vez que eu fecho os olhos para dormir. Como fazer as pazes com algo que me perturba a todo momento, que me faz querer chorar e pensar que, invariavelmente do que eu fizer, uma hora eu vou… – a boca contorceu-se e os olhos ficaram úmidos.

– Me desculpe. Eu achei que eu era uma motivação para que tu aproveitasse tudo com mais intensidade, mais felicidade. Não é minha culpa se existo, mas precisamos conversar. Dessa forma, cada contato que tivermos vai ser, pelo menos, indiferente. É um passo, não? Quem sabe eu não consigo te tirar um sorriso um dia?

A conversa foi interrompida quando a mãe do rapaz entrou no quarto, percebendo o filho sozinho, aparentemente pensativo. Na realidade, ele estava observando a garota pela janela, distanciando-se. Mas nunca o suficiente.

Cavalos Brancos

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Nos dias que me entristeço

Por minha condição

Sempre penso que não mereço.

A razão esvai e me afogo em emoção.

 

Não só me tirou a motricidade,

Levou embora minha capacidade.

Meu corpo suplica um movimento.

Qualquer um seria um alento.

 

Mal sabem que em mim há liberdade:

Os cavalos brancos me levam ao relento.

Onde existe a minha verdade

Que estou livre em pensamento.