Drama

Desconstrução

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Dois amigos andam lado a lado por uma rua. Mãos nos bolsos, mesmo com luvas de lã. Um deles, Márcio, havia acabado um longo relacionamento há pouco tempo e perdido o emprego ao qual havia dedicado parte da vida.

– Então, o que mais que ela disse? – o ar quente saía da boca de Osmar em forma de fumaça branca, contrastando com sua cor de pele.

– Nada. Ela só me enviou aquela mensagem no whatsapp. E só. – sacudiu a cabeça – Como que seis anos da vida do cara podem virar, tipo, duas frases?

– Bem, pode ser que ela esteja conf… – como sempre, fora interrompido por Márcio.

– Ela nem pra dizer um “tchau” ou “vai se foder”! – falou alto, ecoando através das casinhas geminadas que cercavam a rua. – Eu tenho certeza de que ela arranjou outro marmanjo pra deixar ela quentinha agora no inverno.

– Calma, calma. Pelo que conheço da Camilla ela deve ter um bom motivo pra ter feito dessa forma. – repousou a mão no ombro do amigo – A gente não tem o que merece, mas o que precisamos.

– É mesmo? Você vive falando isso, né? Mas então me responde: por que eu precisaria disso? Pra amadurecer? Pra entender como a decepção pode estar em qualquer imbecil que me cerca? Isso eu já sei, oras. – fechou a cara.

Diante da resposta acalorada do amigo, Osmar suspirou e tentou discorrer.

– De repente essa sensação que você tem agora no seu coração te leve adiante. Talvez vocês dois estivessem estagnados e precisassem repensar na vid…

– Que estagnado o quê, rapaz, nunca tive tão determinado e centrado pra fazer tudo o que eu tava sonhando. E a Camilla fazia parte disso, você sabe… vai me dizer agora que eu precisava tomar esse tufo pra aprender o que eu já sei? Não senhor. E sobre meu emprego, hem? Uma parte da vida me dedicando àqueles babacas pra ser demitido por conta de uma fofoca.

Foram atravessar a rua com cuidado: o gelo na pista podia fazer com que os carros derrapassem ou demorassem a frear repentinamente. No entanto, continuaram conversando.

– Desculpa, cara, mas eu vejo de outra forma. Nada que nos acontece é por acaso, tem um se… – disse Osmar.

– Não teria função nenhuma a vida simplesmente me tirar as coisas assim, certo? Não tenta me arranjar um sentido pra algo que não parece ter. Eu tenho que me focar é na causa dessas merdas todas, e não na possibilidade do acaso.

Osmar sentiu-se mal por talvez ter parecido proselitista, mas repensou que estava somente querendo ajudar. Márcio percebeu isso também, e desculpou-se:

– Me desculpe, eu sei que estou um pouco estressado por conta de tudo isso, é foda. Mas como é que eu vou…

Márcio que fora interrompido desta vez, mas não pela voz grave do amigo, mas por um forte barulho de metal e vidro estourando. Por menos de dois segundos, observou atônito o corpo do amigo batendo contra o capô e o para-brisa de um carro em alta velocidade, para, então, ser lançado ao ar por vários metros, terminando o trajeto aéreo com um estalo de ossos quebrando-se ao encontrar o chão violentamente.

Correu até o corpo imóvel do amigo enquanto ligava para a emergência. Estava vivo, apesar dos ferimentos graves, aparentemente na coluna vertebral. As botas de Márcio se tornaram uma ilha envolta no líquido vermelho que crescia rapidamente. Neste momento, percebeu que as coisas que aconteciam em sua vida nada tinham a ver com necessidade, merecimento ou acaso.

Era tudo obra da consequência das ações; ou de um leve empurrão. Márcio sabia que o amigo havia lhe roubado a esposa e o emprego.

 

 

Faminto

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“É dito por sobreviventes de naufrágios que somente conhecemos alguém
quando esta pessoa estiver faminta. Eu só não sabia que essa fome, que transforma pessoas aparentemente serenas em animais, poderia se revelar através de qualquer coisa: da falta de comida, amor, sensações,  sentimentos e até mesmo de orgulho.

Você me deixou faminto.

Senti os impulsos mais primordiais da alma enrijecerem os músculos do meu coração quando você me deixou. Achei que te faria uma surpresa no restaurante chinês que sempre almoçamos, mas você sequer compareceu. A ligação veio logo em seguida, e não consegui conter as lágrimas em público. Sequer lembro como paguei a conta. Minha última lembrança daquele dia foi a de estar sentado na cama, um uísque no copo e as luzes do nosso apartamento completamente apagadas. Os relâmpagos iluminavam um marinheiro inexperiente diante de uma tempestade invencível de sentimentos.

Eu ainda imaginei que encontraria uma salvação ao ligar para seu telefone àquela hora da madrugada, mas eu estava enganado. Tudo pareceu confuso e eu não sabia mais como velejar em águas que por onde há muito tempo não visitava. Naufraguei.

Você me deu algo que há muito eu não sentia, e me perdi no mar revolto. Acordei com o líquido expulso pela boca, numa cama arenosa que parecia estéril o suficiente para despertar a fome de um amor que eu sei que nunca será meu, e, assim como um estômago que não cessa em roncar, meu coração irá arder para sempre. Eu sei como passar essa dor. Espero que você me desculpe por ter entendido errado tuas palavras e ações.

Me desculpe pelo que vou fazer agora.”

Estava escrito no bilhete que caiu da mão do corpo suspenso no ar por uma corda. O náufrago havia tomado a decisão mais comum entre os sobreviventes à deriva. E foi seu maior erro.

A fome estava extinta junto com o amor.

 

 

 

Corte

Blackrain

A luz forte parecia cortar as frases ditas entre os amantes sob chuva. Ele se lembra daquela fatídica noite: havia bebido demais, brigado com alguém e a levado para sua casa. Acordara com um revólver na mão e a camisa suja de sangue. Ela não se lembra do que aconteceu por seu estado igualmente ébrio mas ouvira um estalo de um tiro que chegou a ensurdecê-la. Fugindo do possível homicídio, pegaram o carro,  trôpegos pelas ruas de Londres. Porque chovia muito, derraparam e capotaram quatro vezes. Pó, tinta, batom e fluídos transformaram o rosto do homem em frangalhos, demonstrando a força do acidente. Sua amante sobrevivera por pouco, e naquela noite acabaram por tomar diferentes rumos, dificultando o trabalho da polícia.

Após essa breve memória – que ambos demonstraram recordar ao mesmo tempo, através da troca de olhares – se beijaram na chuva, felizes pelo reencontro. De súbito, outro estalo: um tiro foi disparado. Quando a expressão de espanto se formou no rosto de ambos, o diretor cortou a cena.

O quadro de Jacques-Louis

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– Clément! Traga minha vasilha com vinho, e rápido! – ordenou o homem magro e narigudo submerso na água, cobrindo suas escarras que o atavam à banheira.

O empregado trouxe com presteza rígida, apressando o passo. “Aqui está, Monsieur”, disse sem ouvir agradecimento. Enquanto isso, outro empregado adentrava o recinto anunciando a chegada de uma formosa dama:

– Mademoiselle Corday, Monsieur!

– Deixe-a entrar, Valentin. – respondeu o homem emerso.

Charlotte Corday era uma moça bela de aparência inocente. Vestida com os trajes da baixa burguesia, ela adentrou a sala que, por mais que tivesse uma banheira, era o escritório do dono da casa. Trazia entre seus suaves dedos alguns papéis contendo listas de nomes.

– Olá, minha querida… Espero que não se decepcione ao conhecer o dono “Amigo do Povo” – comentou o homem, acomodando-se na banheira. -. Infelizmente minha condição me impede de ficar fora d’água por muito tempo, então tenho que recebê-la assim mesmo. Está contigo a lista dos traidores?

Ela estendeu os papéis e manteve uma das mãos levemente ocultas sob o volumoso vestido.

– Aqui está, monsieur. Caen está ansiosa para que a guilhotina desça como nunca nos pescoços Gerondinos. – completou Charlotte.

– Com certeza, mon cher, com certeza serão todos guilhotinados – expressou com satisfação o homem, evitando o contato das folhas com a água. Já ouvia os tambores rufando, a população jogando tomates enquanto o incessante subir e descer da guilhotina fervia os corações. Pensou nas canções escritas sobre seus feitos, a serem cantadas ao som de cravo e violino.

Analisando os papéis, imerso na banheira que sempre fora sua única poltrona, o homem se chamava Jean-Paul Marat, e subitamente sentiu o frio da lâmina adentrando seu peito, vertendo o rubro líquido que se misturava ao amarelado das ervas que compunham seu banho medicinal.

Inclinou-se para fora, buscando ajuda da garota, mas era tarde demais: morreu com parte do corpo para fora, e como um messias nos braços da liberdade foi eternizado.

Arco-íris

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– Acho que vai chover – disse Cecille, olhando para o céu cinza, sentada na mureta, onde se apoiava com as delicadas mãos.

– Sim, hoje é sexta-feira. Por aqui sempre chove às sextas. – respondeu Maurice, que observava de pé a bela mulher de cabelos curtíssimos.

– Ah, como se fosse possível que o clima tivesse alguma preferência por dias – sorriu Cecille – De onde você tirou isso? É tão frequente assim que chova sexta?

– É. Não falha faz alguns anos. Muita coisa mudou desde aquele dia.

– Eu percebi. E não é só a chuva: eu vi a cara que sua mãe fez quando me reconheceu. Pareceu ter visto uma assombração. – torceu o rosto, engrossando os lábios ornados com um batom escarlate.

– Depois de tanto tempo, realmente podia ser uma assombração mesmo. – respondeu o rapaz, e retirou uma das mãos do rosto para coçar a barba por fazer.

– Não exagera! Parece que cometi algum pecado. Precisava descobrir as coisas por mim, oras. Ainda mais nova do jeito que eu era.

– E precisou de tudo isso para retornar pra cá? Não podíamos ter feito tudo juntos? – Maurice franziu o rosto, ofuscado com o sol que apareceu por alguns segundos. Olhos claros geralmente são mais sensíveis.

– Que absurdo… você acha que eu voltei a mesma que saí? Não acha que muito mudou na minha vida depois de tudo que passei andando por aí? E pior: você acha que eu voltei para ficar. – sentiu-se ligeiramente ofendida pelo desdém com que o rapaz havia falado.

– E não? Então pra que veio se tinha tanto asco daqui?

A garota deu um salto, aterrissando no chão sutilmente, limpando as calças com tapinhas. Ajeitou seu jeans e blusa, e com uma expressão estúpida disse:

– Vim ver se aquele garoto tão amável e sonhador que um dia foi meu amor de infância havia se tornado um quinto do homem que eu imaginei que ele seria. Enquanto você é a chuva da sexta-feira, eu já sou o arco-iris surpreende quando chega.

A garota caminhou para longe, e Maurice ficou calado observando-a ir embora mais uma vez enquanto as primeiras gotas começavam a cair, como ele sabia que cairiam.