Faminto

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“É dito por sobreviventes de naufrágios que somente conhecemos alguém
quando esta pessoa estiver faminta. Eu só não sabia que essa fome, que transforma pessoas aparentemente serenas em animais, poderia se revelar através de qualquer coisa: da falta de comida, amor, sensações,  sentimentos e até mesmo de orgulho.

Você me deixou faminto.

Senti os impulsos mais primordiais da alma enrijecerem os músculos do meu coração quando você me deixou. Achei que te faria uma surpresa no restaurante chinês que sempre almoçamos, mas você sequer compareceu. A ligação veio logo em seguida, e não consegui conter as lágrimas em público. Sequer lembro como paguei a conta. Minha última lembrança daquele dia foi a de estar sentado na cama, um uísque no copo e as luzes do nosso apartamento completamente apagadas. Os relâmpagos iluminavam um marinheiro inexperiente diante de uma tempestade invencível de sentimentos.

Eu ainda imaginei que encontraria uma salvação ao ligar para seu telefone àquela hora da madrugada, mas eu estava enganado. Tudo pareceu confuso e eu não sabia mais como velejar em águas que por onde há muito tempo não visitava. Naufraguei.

Você me deu algo que há muito eu não sentia, e me perdi no mar revolto. Acordei com o líquido expulso pela boca, numa cama arenosa que parecia estéril o suficiente para despertar a fome de um amor que eu sei que nunca será meu, e, assim como um estômago que não cessa em roncar, meu coração irá arder para sempre. Eu sei como passar essa dor. Espero que você me desculpe por ter entendido errado tuas palavras e ações.

Me desculpe pelo que vou fazer agora.”

Estava escrito no bilhete que caiu da mão do corpo suspenso no ar por uma corda. O náufrago havia tomado a decisão mais comum entre os sobreviventes à deriva. E foi seu maior erro.

A fome estava extinta junto com o amor.

 

 

 

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Rainha do Caribe

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O menino empinava pipa ao por-do-sol, perto das águas do porto de Santa Lucia, em Castries, uma das ilhas do arquipélago caribenho. No entanto, parou para admirar o gigante e belo navio que aparecera no horizonte, ficando mais impressionado a medida em que ele se aproximava do porto. Diferente das demais embarcações, era imponentemente ornamentado como uma carruagem real. De fato poderia ser, já que carregava no casco o seu nome: Rainha do Caribe.

Cortava as águas com suavidade peculiar às naus de mesmo porte, aproximando-se do porto sutilmente, enchendo os olhos do pequeno garoto, que quase deixou seu brinquedo tomar os céus. Ao descerem os poucos passageiros, estava entre eles uma garota de mesma idade de pele escura, contrastando com as joias que usava, apesar da pouca idade. O garoto agarrou-se na grade de contenção – que era o obstáculo mais fácil que ele enfrentaria na vida – e admirou-a sem saber muito bem o porquê. O fio da pipa escorregou, mas pegou no último segundo. Sabia que o pai não gastaria mais dinheiro para comprar outra. No entanto, queria ver os olhos esguios, pintados com uma forte maquiagem escura.

O menino anda não entendia como a vida funcionava, mas em seu coração a paixão o atingiu e deixou um amargo na boca, uma dor no peito que seria o prenúncio da decepção de que jamais conseguiria sequer chegar perto da garota. Enxergou-a por cinco minutos para nunca mais voltar a vê-la. No entanto, antes da menina entrar para o saguão do aeroporto ela o enxergou e deu-lhe um sorriso de presente.

Uma pipa sem dono cruzou o céu naquele dia em que o impossível pareceu real por um instante infinito.

Incólume

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Diante dessa plataforma de trem eu me encontro reparando nas pessoas em volta de mim. Todos parecem mais estranhos do que de costume: as vozes soam abafadas e ininteligíveis, a imagem fica turva quando miro em seus rostos, e todos parecem aumentar sua altura a medida em que saem do meu campo de visão. Em qualquer outro momento da vida, acharia que estava me passando mal, mas sei que não. É algo pior, mais confuso e enebriante.

Nunca o mundo havia sido muito normal para mim, mas após aquela primeira palavra que escutei sair de sua boca, um sorriso bobo foi pregado em minha face e tudo tornou-se pesado como o ar polinizado. A realidade mudou conforme um fogo cresceu no peito, mais precisamente do lado esquerdo. Com tudo distorcido, não sei mais qual trem pegar. Entro no primeiro, mais florido. Parece me levar em segurança em direção ao amor.

Do submundo

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Em pé no trapiche eu observo o mar, esperando que ela volte de suas profundezas. Já derramei meu próprio sangue, rasguei meus joelhos e para trazê-la, mas me parece que todo os deuses me deram as costas. Menos Ele. Toda noite Ele aparece em meus sonhos e acalenta minha alma fazendo-me senti-la novamente; seu perfume, sua pele macia e a delicadeza de seu toque. O pouco tempo que Ele a traz nunca parece ser suficiente, e, em troca, quer sempre mais.

Suas pequenas criaturas já são alimentadas pelos corpos putrefatos dos órfãos que capturo; as mulheres acorrentadas em meu porão sofrem com a inanição há alguns dias e o cheiro tornou-se quase insuportável. Mas é Seu desejo; Sua demanda. E eu atendo a cada uma delas com presteza fanática.

Hoje eu aqui estou em frente ao lar Dele, meu Pai Eterno:

Eu sou o filho de Sam.

 

 

Uma última noite

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Apagou o cigarro no parapeito da janela, e ficou observando o movimento da cidade grande às dezoito e trinta. Virou para trás e viu a bela garota dormindo. Sorriu com um canto da boca e apertou o pescoço, massageando-o com as mãos. Foi até a geladeira e abriu uma lata de cerveja, algo que sempre fazia quando acordava tarde no meio da semana. Ela, então, acordou com o barulho e sentou-se na cama enquanto vestia o sutiã. As marcas do travesseiro ainda estavam em seu rosto, avermelhando sua pele clara.

– Bom dia, amor. – disse.

– Boa noite, você quer dizer – a garota esticou os braços – Que horas são? Está na hora já?

– Sim, está chegando a hora…mas eu não consegui te acordar. Estava descansando tão profundamente.

– Estou muito cansada da última noite, mas queria que tivesse me acordado. Fique mais um pouco, por favor…

– Você sabe que eu preciso voltar. Não faça ser mais difícil do que já é.

A garota abaixou a cabeça, agarrou o lençol com força e mordeu o lábio sem que ele percebesse e respondeu.

– Sei sim…Mas você…vai vir de novo?

– Prometo que vou tentar. Você sabe que eu sou a única exceção de lá, não é? Não posso abusar muito da boa vontade dele. De qualquer maneira essa não vai ser a última vez que vamos ficar juntos, você precisa tocar sua vida independente de mim, já faz… tanto tempo.

– Não seria mais fácil se eu já fosse com você?

–  Já te falei, se você for não conseguiremos ficar juntos. Eu até poderia pedir, mas seria uma exceção da exceção. Muito improvável.

A garota não conseguiu segurar as lágrimas e, como todas as outras vezes, chorou.

Ele repousou as mãos em seus ombros e beijou-lhe a testa.

– Calma. Basta termos paciência. Ele nos deu esse tempo por algum motivo.

Abraçaram-se forte, e gradualmente ela foi sentindo o corpo do rapaz esvair-se, até que finalmente desapareceu por completo em seus braços. Chorou como a primeira vez que havia chorado por ele, no entanto, dessa vez não havia um velório, mas a esperança de que a morte a levasse o quanto antes.

Agridoce – Ebook Gratuito

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Olá pessoal!

Este conto eu fiz para uma antologia que fiz com meu amigo Albert, o “Antologia Medo e Delírio” (link do kindle).

Ele foi abertamente inspirado no RPG Changeling e em um conto chamado “Toca das Fadas” (link) e foi um dos conto que mais gostei de fazer por tocar em temas sobre os quais eu nunca havia escrito.

Enfim, espero que gostem. =)

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O Criadouro de Peixes

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José era um velho pescador do sul da ilha de Florianópolis. Jucimar lhe devia dinheiro e o velho Zézin – como era chamado – não podia deixar barato. Com sua fala rápida, mesclando as palavras, iniciou a conversa:

– Ju…Ju…Jucimar, tu podes me dizer como é que eu tu me deves há tanto tempo e eu nem pra te cobrar?  – chiava o final das palavras terminadas em “s”. – Visse quantos peixe eu tenho cá im casa? Faço criação dessa manta de peixe já faz algum tempo, sabes?

Cortou a carne com um facão, enchendo o deque de sangue.

– Eles me resolvem todos meus problemas, visse? – usou a faca com mais agressividade – Dos grandes e dos pequenos como tu! – apontou a faca entre os olhos de Jucimar.

Zézin riu expondo o vazio que tinha nos dentes molares enquanto retirava parte da buchada.

– Não precisas ficar com medo, Jucimar. Agora que tais aqui em casa não precisa ficar com medo não. – começou a cortar carne novamente. – Ninguém vai poder nos aporrinhar. Tamo sem ninguém em volta aqui. E agora tu vais ver como é que meus peixe me ajudam na vida, Jucimar.

Zézin então pegou somente o que restava da cabeça de Jucimar e começou a destrinchar. O resto já havia jogado de comida para os peixes, que há anos comem o mesmo tipo de carne.