Incólume

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Diante dessa plataforma de trem eu me encontro reparando nas pessoas em volta de mim. Todos parecem mais estranhos do que de costume: as vozes soam abafadas e ininteligíveis, a imagem fica turva quando miro em seus rostos, e todos parecem aumentar sua altura a medida em que saem do meu campo de visão. Em qualquer outro momento da vida, acharia que estava me passando mal, mas sei que não. É algo pior, mais confuso e enebriante.

Nunca o mundo havia sido muito normal para mim, mas após aquela primeira palavra que escutei sair de sua boca, um sorriso bobo foi pregado em minha face e tudo tornou-se pesado como o ar polinizado. A realidade mudou conforme um fogo cresceu no peito, mais precisamente do lado esquerdo. Com tudo distorcido, não sei mais qual trem pegar. Entro no primeiro, mais florido. Parece me levar em segurança em direção ao amor.

Do submundo

09.Night

Em pé no trapiche eu observo o mar, esperando que ela volte de suas profundezas. Já derramei meu próprio sangue, rasguei meus joelhos e para trazê-la, mas me parece que todo os deuses me deram as costas. Menos Ele. Toda noite Ele aparece em meus sonhos e acalenta minha alma fazendo-me senti-la novamente; seu perfume, sua pele macia e a delicadeza de seu toque. O pouco tempo que Ele a traz nunca parece ser suficiente, e, em troca, quer sempre mais.

Suas pequenas criaturas já são alimentadas pelos corpos putrefatos dos órfãos que capturo; as mulheres acorrentadas em meu porão sofrem com a inanição há alguns dias e o cheiro tornou-se quase insuportável. Mas é Seu desejo; Sua demanda. E eu atendo a cada uma delas com presteza fanática.

Hoje eu aqui estou em frente ao lar Dele, meu Pai Eterno:

Eu sou o filho de Sam.

 

 

Uma última noite

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Apagou o cigarro no parapeito da janela, e ficou observando o movimento da cidade grande às dezoito e trinta. Virou para trás e viu a bela garota dormindo. Sorriu com um canto da boca e apertou o pescoço, massageando-o com as mãos. Foi até a geladeira e abriu uma lata de cerveja, algo que sempre fazia quando acordava tarde no meio da semana. Ela, então, acordou com o barulho e sentou-se na cama enquanto vestia o sutiã. As marcas do travesseiro ainda estavam em seu rosto, avermelhando sua pele clara.

– Bom dia, amor. – disse.

– Boa noite, você quer dizer – a garota esticou os braços – Que horas são? Está na hora já?

– Sim, está chegando a hora…mas eu não consegui te acordar. Estava descansando tão profundamente.

– Estou muito cansada da última noite, mas queria que tivesse me acordado. Fique mais um pouco, por favor…

– Você sabe que eu preciso voltar. Não faça ser mais difícil do que já é.

A garota abaixou a cabeça, agarrou o lençol com força e mordeu o lábio sem que ele percebesse e respondeu.

– Sei sim…Mas você…vai vir de novo?

– Prometo que vou tentar. Você sabe que eu sou a única exceção de lá, não é? Não posso abusar muito da boa vontade dele. De qualquer maneira essa não vai ser a última vez que vamos ficar juntos, você precisa tocar sua vida independente de mim, já faz… tanto tempo.

– Não seria mais fácil se eu já fosse com você?

–  Já te falei, se você for não conseguiremos ficar juntos. Eu até poderia pedir, mas seria uma exceção da exceção. Muito improvável.

A garota não conseguiu segurar as lágrimas e, como todas as outras vezes, chorou.

Ele repousou as mãos em seus ombros e beijou-lhe a testa.

– Calma. Basta termos paciência. Ele nos deu esse tempo por algum motivo.

Abraçaram-se forte, e gradualmente ela foi sentindo o corpo do rapaz esvair-se, até que finalmente desapareceu por completo em seus braços. Chorou como a primeira vez que havia chorado por ele, no entanto, dessa vez não havia um velório, mas a esperança de que a morte a levasse o quanto antes.

Agridoce – Ebook Gratuito

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Olá pessoal!

Este conto eu fiz para uma antologia que fiz com meu amigo Albert, o “Antologia Medo e Delírio” (link do kindle).

Ele foi abertamente inspirado no RPG Changeling e em um conto chamado “Toca das Fadas” (link) e foi um dos conto que mais gostei de fazer por tocar em temas sobre os quais eu nunca havia escrito.

Enfim, espero que gostem. =)

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O Criadouro de Peixes

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José era um velho pescador do sul da ilha de Florianópolis. Jucimar lhe devia dinheiro e o velho Zézin – como era chamado – não podia deixar barato. Com sua fala rápida, mesclando as palavras, iniciou a conversa:

– Ju…Ju…Jucimar, tu podes me dizer como é que eu tu me deves há tanto tempo e eu nem pra te cobrar?  – chiava o final das palavras terminadas em “s”. – Visse quantos peixe eu tenho cá im casa? Faço criação dessa manta de peixe já faz algum tempo, sabes?

Cortou a carne com um facão, enchendo o deque de sangue.

– Eles me resolvem todos meus problemas, visse? – usou a faca com mais agressividade – Dos grandes e dos pequenos como tu! – apontou a faca entre os olhos de Jucimar.

Zézin riu expondo o vazio que tinha nos dentes molares enquanto retirava parte da buchada.

– Não precisas ficar com medo, Jucimar. Agora que tais aqui em casa não precisa ficar com medo não. – começou a cortar carne novamente. – Ninguém vai poder nos aporrinhar. Tamo sem ninguém em volta aqui. E agora tu vais ver como é que meus peixe me ajudam na vida, Jucimar.

Zézin então pegou somente o que restava da cabeça de Jucimar e começou a destrinchar. O resto já havia jogado de comida para os peixes, que há anos comem o mesmo tipo de carne.

O que ele mais queria

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Estava feito: Clarice acabara de dar a última estocada no pescoço de Joanna, espalhando mais sangue sobre o cadáver fresco do marido. Ela sabia do caso e decidiu chamar ambos para uma noite na mansão, para que parecesse refinada o bastante para encarar com sobriedade a traição do marido. Afinal ele sustentava todos seus caprichos desde que casaram há cinco anos, e, no mínimo, ela devia obediência a ele. Pelo menos era o que a sociedade imaginava naquele tempo. Era o que Edmund pensava.

A esposa havia dispensado os criados, ordenando-os para que não voltassem pois seriam realocados para outra das propriedades do casal. Para os dois desleais, mais uma manobra de quem deseja ocultar da sociedade a vergonha e manter as aparências.

No entanto estava feito, e na isolada mansão na montanha Edmund teve sua garganta cortada de um lado a outro enquanto dormia. A moça estava tão irada que após ter finalizado a degola, pegou as margens norte e sul da ferida e esticou-as para arrancar a cabeça com as próprias mãos. Desistiu – Edmund estava morto – e chamou Joanna com falso horror, como se o marido tivesse causado a ferida em si mesmo. Aproveitou-se do desespero da garota e cravou a lâmina no pescoço.

Ao som do corpo da menina se debatendo, Clarice viu em seu peito um pingente espelhado. “Bem o tipo de presente que esse canalha daria.”, pensou. Arrancou a joia peculiar do corpo e pôs em si, limpando o sangue com o polegar, para que refletisse no ornamento a luz das velas.

– Satisfeito agora, meu amor?! – virou-se, sacudindo o vestido branco que usava para dormir, agora quase que completamente escarlate. – Queria as duas? Agora não tem nenhuma seu desgraçado! – foi em direção ao corpo do marido e começou a estocar o peito mais algumas vezes – Me amava…mas…queria…outra?! – mudou a direção da faca, agora a rasgar – Queria… mais…do…que…todo o meu…amor?! – desatou a chorar e largou a faca ao lado, permanecendo montada no marido. Feliz e triste ao mesmo tempo, a posição levemente sexual a deixou excitada.

Era aproximadamente duas da manhã, e havia se passado algumas horas da carnificina. Clarice estava na sacada observando a lua minguante, o que deixava a floresta que cercava a mansão ainda mais escura. Fumava um charuto do marido enquanto pensava no que conversaram no quarto pouco antes de irem deitar-se:

“Minha querida, eu sei que é difícil para você essa situação, mas você tem que entender que a minha é igualmente complicada”, havia dito Edmund com certa ternura, e continuou:”Você é meu amor mas Joanna é a minha carne. Você sabe das nossas dificuldades desde nossa lua-de-mel.”

Clarice lembrou-se de sua bela dissimulação, quando convenceu o marido de que o compreendia. “Claro, meu amor. Eu sei que é culpa minha você não ter mais desejo por mim, e aceito sua decisão.”.

Ao lembrar, bateu várias vezes no parapeito até sangrar o punho. Esvaziou seus pulmões em um grito para o infinito das montanhas e árvores que a cercavam. Não havia mais carroça ou charrete. Morreria lá e estava feliz com isso: ir embora seria um alívio perfeito para sua frustração.

Acordou ao lado dos corpos pela manhã. Foi até a cozinha e preparou um chá com a lenha que havia já no forno. Quando pegou o bule notou que os cortes que havia feito ao bater contra a pedra na sacada haviam cicatrizado mas com um tom de pele bem mais escuro do que o dela. Passou em frente a um espelho e ajeitou seu penteado – já que não haviam criadas para fazer isso por ela. Tateou o couro cabeludo e sentiu um pequeno corte ainda aberto. Continuou com a ponta dos dedos e sentiu um aperto no peito quando a ferida fechou e abriu-se rapidamente, como uma piscadela. Correu até o espelho para olhar de perto e estava tão preocupada com aquela coisa que não percebeu o princípio de um dente surgindo em seu olho esquerdo.

Não conseguiu mexer muito na ferida por conta da ardência e o local não favorecia que ela fizesse uma melhor avaliação. “Já que vou morrer que seja por esse corte. Mais rápido do que a inanição.” Tentou sobrepujar seu instinto primal de sobrevivência, mas suava frio com tamanho nervosismo. Decidiu repousar no quarto de hóspedes por algumas horas, mas acabou adotando-o como quarto ao anoitecer – ao contrário do que planejara em seu momento de fúria: observar os corpos dos infiéis apodrecerem.

Era quase nove da noite e Clarice acordou de um longo cochilo ao som de uivos e corujares vindos da floresta. Pegou o lampião e desceu as escadarias atrás de um copo d’água: sua sede aumentara enormemente nas últimas horas; já havia tomado cerca de três litros de água e ainda sentia-se insaciada. Também estava com dores terríveis na pelve, e sentia uma protuberância ao toque na região da bexiga. “O que está acontecendo comigo?!”, pensou enquanto cambaleava pela escada. Um passo em falso foi suficiente para que rolasse vários degraus até bater com violência com a cabeça quando atingiu o chão, desfalecendo.

– Hmmrh…Hmmmrh… – não era Clarice fazendo o murmúrio, mas ele a acordou.

– Qu…quem está aí?! – gritou logo que abriu os olhos. – Ó meu Deus!!

Gritou quando viu sua perna direita torcida de uma maneira que parecia impossível, revelando seu fêmur e pedaços de músculo como resultado. Olhou a sua volta para encontrar quem havia murmurado, mas não conseguia direcionar a atenção a qualquer coisa senão as inúmeras dores pelo corpo. Tentou virar-se para pelo menos se arrastar, mas continuou de barriga para cima. Levou a mão direita à cabeça para limpar o sangue e viu claramente em sua palma um outro corte, mas este era bastante distinto, pois era uma vulva completamente formada. Gritou e tomou coragem para virar de bruços.

– Hmrmmmmmrr…Hmmrmmm… – mais uma vez ecoava pelo salão principal o lamento.

– Quem está aí?! Me ajude!! – urrou a plenos pulmões.

Fez tanta força que seus olhos arderam subitamente e nada mais conseguiu enxergar; os esfregou e sentiu na parte de baixo de ambos olhos uma arcada superior completa de dentes, enfileirados de maneira torpe.

– Meu Deus, meu Deus, o que é isso?! – gritou antes de um pular da órbita. Começou a sentir algo em suas costas, mas jamais poderia imaginar que suas costelas estavam quebrando e virando para o lado contrário. No escuro, Clarice somente sentia dores.

E ouvia. Ouvia o estalar de juntas, o quebrar de ossos e rompimento de tendões e órgãos; e aquele murmúrio incessante, que quase conseguia formar algumas palavras.

– Hmmmrmrmr…elee….hmmmele…. – saíam de uma boca rasgada – hmmele…qu….hrmquis… – era tarde para Clarice entender alguma coisa: passava por algo tão terrível que o corpo quase desligou-se. Quase, pois algo a impedia de morrer.

A última coisa que conseguiu agarrar antes de descobrir uma boca sem dentes se rasgando em sua nuca foi o pingente que havia tirado do corpo de Joanna, e lembrou-se da última frase que Edmund falara durante aquela conversa. Uma breve frase antes do silêncio encerrou sua última noite: “Eu queria que vocês fossem uma só pessoa.”

Barulho

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Começou numa segunda-feira. Edson estava conversando com seus colegas de trabalho acerca de uma reunião que teriam com os fornecedores. Estavam entre sete pessoas, mas divididos em aproximadamente três grupos discutindo ao mesmo tempo, gerando ruídos e até mesmo interpretações erradas.

Em meio ao burburinho, Edson ouviu um barulho ao longe, indescritível.

– Vocês ouviram isso? – perguntou a seu grupo, em que todos os membros balançaram a cabeça negativamente.

Julgando uma percepção errônea, continuou a conversar sobre a possibilidade de trocar de fornecedor de bases de metal por um de bases em acrílico, o que acarretaria um novo projeto da equipe de produção para adequar-se ao novo material.

Mais uma vez, ouviu o som ao longe, mas dessa vez quase discerniu uma voz, mesmo que soado distorcida.

– Porra, vocês ouviram isso agora? – mais uma vez perguntou, mas agora os colegas olharam com certo deboche.

– Tá maluco, Black? – Jonathan, seu melhor amigo, o chamara por seu apelido. Havia outro funcionário de mesmo nome na empresa, e como Edson era negro, a distinção, que não lhe ofendia em nada, acabou pegando. – Colocou cachaça no café? – riram.

– Estou dizendo para vocês, ouvi um barulho lá fora. – não se irritou, mas não crera que somente ele havia escutado um barulho tão estranho.

– Cara, mesmo que a gente trabalhe num lugar mais afastado, toda hora passa carro. Vai ver um freou bruscamente, sei lá. – Jonathan voltou os olhos para os papéis – Deixa pra lá e olha essa diferença de prazo: com a versão acrílica, até o custo de envio fica mais barato. Eu não queria quebrar o contrato com Metalerc, mas tá ficando muito caro.

Após uma hora a reunião findou e já passava das dezoito. Edson organizou sua pasta e tomou um susto com o ruído da impressora sendo ativada por outro colega. Ao voltar seus olhos para valise, ouviu novamente aquele distinto barulho, mas desta vez parecia mais perto e nítido. Breve mas de volume alto, vindo de uma direção incompreensível. Arregalou os olhos, pegou a pasta e saiu rapidamente da sala.

Como sempre, Edson e Jonathan foram juntos de ônibus até a estação de metrô. Como o assunto dos fornecedores já havia saturado e eram amigos mais íntimos, conversaram sobre a esposa de Edson.

– Cara, ela parece estar me escondendo alguma coisa. Anda distante, até mesmo quando levei uma flor de surpresa na semana passada. – coçou a barba.  – Tentei abrir o jogo, sabe…mas ela me diz que está cansada ou está de TPM.

Black, eu acho que ela tá triste com alguma coisa, e não te enganando. – apoiou a mão no ombro do amigo – A Mariza jamais te colocaria um chifre. Será que ela não tá grávida?

Antes que Edson pudesse responder, chegara a hora de descerem do coletivo. Chegaram à estação e ficaram atrás da linha amarela aguardando o trem.

– Mesmo que você que ache que não, Black, ela pode estar com medo de te contar que está grávida porque já estão pagando o custo de já terem outros dois, sabe? – Jonathan esgueirou metade do corpo para dentro do túnel, verificando se o trem chegava. – Mas eu acho importante você descobrir de uma vez porque nunca se sabe… vai que… que ela.. – atrapalhou-se quando veio em sua cabeça a imagem da esposa de Edson nua. Quinta-feira da semana anterior, quando todos pensaram que ele havia ido ao médico, estava na cama com Mariza. Agora esta situação o confundia e o excitava.

– Que ela tire o bebê, você quer dizer… – completou Edson – Eu saquei agora quando você me fez pensar na possibilidade. Não acho que a Mariza fosse capaz, não sem conversarmos sobre isso. Se for um filho será por acidente, a gente toma todas as precauções, entende?

Mais uma vez Jonathan esgueirou seu corpo para frente, ficando da cintura pra cima no túnel e da cintura para baixo na plataforma. Estava ansioso para que o trem chegasse de uma vez. Não queria perder a partida de futebol.

– Para com isso, Jonathan, quer cair na porra do trilho, meu?

– O trem nem chegou ainda, Black. Se eu cair eu volto para a plataforma num piscar de olhos – vangloriou-se do físico conquistado com as horas na academia- . Mas… estranho… acabei de ter um deja vu. 

– Deja vu com o que?

– Essa situação de você me dizendo pra não me esgueirar. Parece que isso já aconteceu antes.

– Sim, isso é um deja vu, parabéns. – Edson revirou os olhos, sem perceber que o rosto do amigo subitamente transformou-se, abrindo a boca em proporções inumanas por milésimos de segundo – Mas como eu estava dizendo, é óbvio que…

O barulho soou mais perto do que nunca. Edson levou um susto e viu o amigo esgueirando-se novamente em câmera lenta. O trem subitamente parecia estar perto da estação. Puxou o amigo, que virou o rosto em sua direção.

Edson arregalou os olhos e levou a mão à boca, estático, quando viu o semblante do colega: a boca escancarada como se o maxilar estivesse quebrado nos eixos, descendo o queixo solto até o meio do pescoço. Não enxergava dentes ou língua, somente um buraco escuro. Os olhos revirados para o alto, mas as orbitas ainda fitavam Edson como se o encarasse.

Ninguém a não ser ele parecia enxergar a cena surreal, e Edson sentiu a uma pressão nas costas e desmaiou.

Acordou sentindo os trilhos e ouvindo um barulho familiar, o mesmo que andava escutando. Agora ele era real e muito, muito próximo dele. Edson percebeu que eram os gritos de desespero do amigo, vindos do alto da plataforma, juntando-se ao ruído de morte que fazia o trem se aproximando.