Romance

Rainha do Caribe

The_Carenage,_St_George's,_Grenada

O menino empinava pipa ao por-do-sol, perto das águas do porto de Santa Lucia, em Castries, uma das ilhas do arquipélago caribenho. No entanto, parou para admirar o gigante e belo navio que aparecera no horizonte, ficando mais impressionado a medida em que ele se aproximava do porto. Diferente das demais embarcações, era imponentemente ornamentado como uma carruagem real. De fato poderia ser, já que carregava no casco o seu nome: Rainha do Caribe.

Cortava as águas com suavidade peculiar às naus de mesmo porte, aproximando-se do porto sutilmente, enchendo os olhos do pequeno garoto, que quase deixou seu brinquedo tomar os céus. Ao descerem os poucos passageiros, estava entre eles uma garota de mesma idade de pele escura, contrastando com as joias que usava, apesar da pouca idade. O garoto agarrou-se na grade de contenção – que era o obstáculo mais fácil que ele enfrentaria na vida – e admirou-a sem saber muito bem o porquê. O fio da pipa escorregou, mas pegou no último segundo. Sabia que o pai não gastaria mais dinheiro para comprar outra. No entanto, queria ver os olhos esguios, pintados com uma forte maquiagem escura.

O menino anda não entendia como a vida funcionava, mas em seu coração a paixão o atingiu e deixou um amargo na boca, uma dor no peito que seria o prenúncio da decepção de que jamais conseguiria sequer chegar perto da garota. Enxergou-a por cinco minutos para nunca mais voltar a vê-la. No entanto, antes da menina entrar para o saguão do aeroporto ela o enxergou e deu-lhe um sorriso de presente.

Uma pipa sem dono cruzou o céu naquele dia em que o impossível pareceu real por um instante infinito.

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Incólume

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Diante dessa plataforma de trem eu me encontro reparando nas pessoas em volta de mim. Todos parecem mais estranhos do que de costume: as vozes soam abafadas e ininteligíveis, a imagem fica turva quando miro em seus rostos, e todos parecem aumentar sua altura a medida em que saem do meu campo de visão. Em qualquer outro momento da vida, acharia que estava me passando mal, mas sei que não. É algo pior, mais confuso e enebriante.

Nunca o mundo havia sido muito normal para mim, mas após aquela primeira palavra que escutei sair de sua boca, um sorriso bobo foi pregado em minha face e tudo tornou-se pesado como o ar polinizado. A realidade mudou conforme um fogo cresceu no peito, mais precisamente do lado esquerdo. Com tudo distorcido, não sei mais qual trem pegar. Entro no primeiro, mais florido. Parece me levar em segurança em direção ao amor.

Corte

Blackrain

A luz forte parecia cortar as frases ditas entre os amantes sob chuva. Ele se lembra daquela fatídica noite: havia bebido demais, brigado com alguém e a levado para sua casa. Acordara com um revólver na mão e a camisa suja de sangue. Ela não se lembra do que aconteceu por seu estado igualmente ébrio mas ouvira um estalo de um tiro que chegou a ensurdecê-la. Fugindo do possível homicídio, pegaram o carro,  trôpegos pelas ruas de Londres. Porque chovia muito, derraparam e capotaram quatro vezes. Pó, tinta, batom e fluídos transformaram o rosto do homem em frangalhos, demonstrando a força do acidente. Sua amante sobrevivera por pouco, e naquela noite acabaram por tomar diferentes rumos, dificultando o trabalho da polícia.

Após essa breve memória – que ambos demonstraram recordar ao mesmo tempo, através da troca de olhares – se beijaram na chuva, felizes pelo reencontro. De súbito, outro estalo: um tiro foi disparado. Quando a expressão de espanto se formou no rosto de ambos, o diretor cortou a cena.

Arco-íris

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– Acho que vai chover – disse Cecille, olhando para o céu cinza, sentada na mureta, onde se apoiava com as delicadas mãos.

– Sim, hoje é sexta-feira. Por aqui sempre chove às sextas. – respondeu Maurice, que observava de pé a bela mulher de cabelos curtíssimos.

– Ah, como se fosse possível que o clima tivesse alguma preferência por dias – sorriu Cecille – De onde você tirou isso? É tão frequente assim que chova sexta?

– É. Não falha faz alguns anos. Muita coisa mudou desde aquele dia.

– Eu percebi. E não é só a chuva: eu vi a cara que sua mãe fez quando me reconheceu. Pareceu ter visto uma assombração. – torceu o rosto, engrossando os lábios ornados com um batom escarlate.

– Depois de tanto tempo, realmente podia ser uma assombração mesmo. – respondeu o rapaz, e retirou uma das mãos do rosto para coçar a barba por fazer.

– Não exagera! Parece que cometi algum pecado. Precisava descobrir as coisas por mim, oras. Ainda mais nova do jeito que eu era.

– E precisou de tudo isso para retornar pra cá? Não podíamos ter feito tudo juntos? – Maurice franziu o rosto, ofuscado com o sol que apareceu por alguns segundos. Olhos claros geralmente são mais sensíveis.

– Que absurdo… você acha que eu voltei a mesma que saí? Não acha que muito mudou na minha vida depois de tudo que passei andando por aí? E pior: você acha que eu voltei para ficar. – sentiu-se ligeiramente ofendida pelo desdém com que o rapaz havia falado.

– E não? Então pra que veio se tinha tanto asco daqui?

A garota deu um salto, aterrissando no chão sutilmente, limpando as calças com tapinhas. Ajeitou seu jeans e blusa, e com uma expressão estúpida disse:

– Vim ver se aquele garoto tão amável e sonhador que um dia foi meu amor de infância havia se tornado um quinto do homem que eu imaginei que ele seria. Enquanto você é a chuva da sexta-feira, eu já sou o arco-iris surpreende quando chega.

A garota caminhou para longe, e Maurice ficou calado observando-a ir embora mais uma vez enquanto as primeiras gotas começavam a cair, como ele sabia que cairiam.

O Drinque

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Sentada do outro lado do salão escurecido, por entre inúmeros casais que dançavam no meio da pista eu conseguia ver seus olhos cuidadosamente ressaltados por uma luz intrusa, vinda da lâmpada quente do bar a seu lado. Ela tomava um drinque refinado e vez ou outra chupava a cereja cravada num palito de dente submerso na bebida rosada. Seus cabelos negros destacavam um semblante pálido, onde um batom cor-de-sangue destacava seus lábios carnudos. Os olhos entreabertos deixavam oculto o mistério contido naquelas íris azuis-claras, como se estivessem seduzindo a todos, homens ou mulheres.

Toda noite de festa ela vinha para cá mas nunca dançava ou conversava com alguém. Somente bebia o mesmo drinque e ficava observando os arredores. Talvez por medo, os homens nunca se dirigiam a ela, mesmo que fosse extremamente bela e charmosa. Eu? Bem, eu era só o garçom daquele bar, e me era proibido falar com clientes a menos que expressamente necessário. Quem sabe o Papai Noel não me desse de presente uma chance com aquela bela moça? Era quase final de ano, e esperava que em 1936 eu já estivesse trabalhando na gerência ou conseguisse um emprego que pagasse melhor. Se fosse ainda ao lado de uma mulher como aquela, com certeza eu estaria no paraíso. 

Decidi então criar a situação “expressamente necessária” mentindo sobre um admirador secreto que havia lhe enviado um drinque. Peguei um dos melhores com o barman e fui em direção à moça.

– Com licença, madame, um senhor alto, de cabelos castanhos e aproximadamente uns vinte e seis anos – dei minhas descrições – lhe mandou de presente este drinque, mas não quis se identificar.

Ela deu um breve sorriso e sinalizou com um olhar para eu repousar o copo sobre a mesa. O fiz devolvendo o sorriso, e em seguida, fui atender outros clientes, sempre observando sua reação. Ela não tocava no copo, mas não parecia ofendida ou desconfiada, mas começara a observar com mais atenção as pessoas à sua volta, até que virei para atender a um casal e percebi que o drinque havia desaparecido. Será que havia devolvido ou dado para alguém? Por mais que fosse presente de um desconhecido, o drinque era caro. Paguei quase cinco dólares por ele! Mas enfim, decidi encerrar aquela tentativa estúpida.

Na noite seguinte lá estava ela, mas havia algo diferente em seu olhar: fitou-me pelo menos duas vezes mas não me dirigiu a palavra. Será que queria perguntar sobre o admirador secreto ou ela desconfia que era eu? Por via das dúvidas, decidi forçar um pouco mais e entreguei-lhe outro drinque sob a mesma desculpa. Sua reação foi a mesma da noite anterior, mas o sorriso foi mais incisivo. Talvez se eu insistisse na descrição óbvia de mim mesmo e fizesse alguns sinais discretos para que ela suavemente soubesse que era eu o admirador. E foi o que fiz durante um bom tempo.

Hoje, ainda sirvo aquela senhora o mesmo drinque e ela me retorna o mesmo sorriso. Alguns me chamam de maluco, que eu deveria acordar para a vida. Mas não me importo que o bar esteja fechado há anos e me digam que ela não existe. Eu tenho certeza de que ela me ama.

Não se esqueça de mim

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Leonel não era de todo triste: conseguia se dar bem com as mulheres nas noitadas do final-de-semana, tinha uma vida social agitada e um trabalho que lhe garantia uma renda confortável. No entanto, faltava-lhe um amor em sua vida. Das inúmeras parceiras que teve até seus vinte e seis anos, nenhuma mereceu mais do que trezentos dias de namorico. Nenhuma havia despertado um sentimento mais forte, mesmo que se sentisse novo para um relacionamento sério. Então, preocupava-se pouco quanto a isso, por mais que às vezes refletisse deitado em sua cama em dias de insônia.

Foi então que numa quarta-feira pegou no sono enquanto assistia a um clássico dos anos oitenta nas sessões da madrugada. Começou a sonhar com seu dia-a-dia comum: levantar para trabalhar, almoçar com os colegas, voltar para casa e assistir a um filme ou conversar com alguém no skype. De súbito estava em uma rua deserta em um clima que, pela cor das folhas, parecia outonal e, ao longe, uma menina com seus vinte e três anos, cabelos castanho-claros, suaves sardas e olhos de um marrom-avermelhado único que o enfeitiçaram a medida em que se cruzavam com os seus. Ela passou por ele junto com o vento e pequenos torvelinhos de folhas, misturando o perfume dos seus cabelos ao cheiro refrescante das árvores, e por seus lábios ela assoviava uma canção familiar. Mesmo aturdido, ele estendeu a mão para tocar o braço da moça, que começou a parecer progressivamente mais longe. Quanto mais ele corria, mais a imagem da garota se distanciava, e ele conseguia ver em seu rosto uma certa aflição. Quando ele conseguiu aproximar-se, ela estendeu o braço para segurar-se nele, que estendeu da mesma forma. Segundos antes dele acordar do sonho, ele vê em câmera lenta o lábio da moça falando uma frase que, mesmo que não tenha saído som algum, ele entendeu: “Não se esqueça de mim”.

O rapaz percebeu que já era o dia seguinte e tinha que ir trabalhar. Ficou a manhã toda pensando em seu sonho, mas à medida que o meio-dia chegava ele ia esquecendo-se cada vez mais dos detalhes, até que somente sobrou a lembrança de ter sonhado com uma menina e nada mais. Deitou-se ao final do dia e dormiu rapidamente devido ao cansaço. Em seu sonho, novamente estava naquela rua, mas dessa vez era primavera pois todas as flores desabrochavam e o pólen cercava o ambiente, formando uma cortina quando atingido pelo sol, por onde a menina novamente surgiu vindo em direção a Leonel, que suavemente a pegou pela mão e colocou-a contra seu corpo, sentindo o macio e tenro abraço. Os dois se entreolharam por alguns segundos, até que os lábios selaram um beijo tomado de um estranho sentimento de felicidade e realização. O vento soprou e por entre os cabelos esvoaçantes ele a viu sorrir um pouco antes de começar a distanciar-se como na noite anterior. Ambos ficaram aflitos em a realidade distorcer-se para distanciá-los, mas, como Leonel começava a compreender, era o processo de acordar do sono. Antes de despertar, ele ouviu a voz dela sussurrar “Não…esqueça…de…mim”.

Durante algumas semanas ele sonhou com ela, sempre na mesma rua e alternando as estações do ano, e esquecia de seus traços a medida que o dia seguinte passava. Apesar dele nunca ter ouvido sequer sua voz, ela sempre sussurrava a mesma frase no final de cada noite em que trocavam carícias, beijos e abraços: “Não se esqueça de mim”. Leonel começou a ficar ansioso para dormir e sua insônia se intensificou, momento em que ficava pensando o que faria ou o que falaria.  E naquela noite de sexta-feira ele a encontrou sorridente. Veio em direção à ele e jogou-se em seus braços, enquanto assoviava a mesma melodia do primeiro dia em que se viram. Acariciou o rosto de Leonel e falou um feliz e sereno “adeus”.

Leonel acordou de súbito, suando agarrado ao lençol. Era meio da madrugada e passava mais um filme dos anos oitenta na televisão. Conseguiu dormir mais algumas vezes mas não conseguia sequer sonhar alguma coisa. E o pior: sabia que a imagem da menina sumiria conforme o dia seguinte passasse, e precisava fazer alguma coisa para não esquecê-la. Então pegou um papel e esboçou o rosto que tinha visto, já que tinha  habilidades artísticas invejáveis. Também escreveu tudo o que conseguia lembrar dela antes de sair para o trabalho, e a medida que as horas passavam as lembranças sumiram como lágrimas na chuva. Até o momento em que foi almoçar com seus colegas já havia esquecido de tudo que vivera na noite anterior – “a última noite”, pensou ele. Levou consigo o desenho até o restaurante pois não queria separar-se da única memória que tinha de tudo. Foi quando o deixou em cima da mesa enquanto servia-se no buffet que viu uma mulher parada em frente ao desenho, olhando-o com um grande espanto. Leonel largou o prato e foi perguntar à moça – que em nada parecia com a com que sonhara – o que estava acontecendo.

– Você conheceu a minha irmã? – perguntou ela, mesclando surpresa e emoção.

– Não, essa é… Bem, é só um desenho que fiz. – mentiu Leonel para não parecer ridículo.

– Nossa, ela parece muito com a minha irmã. Infelizmente ela faleceu faz uns três anos, se importa de ler o que você escreveu em volta do desenho? – perguntou ela, curiosa com as palavras e frases soltas que permeavam o desenho.

Ele assentiu, nervoso por talvez expor uma intimidade desse tipo e por realmente estar percebendo traços em comum no rosto da moça com quem falava.

– Desculpa a intransigência, meu nome é Sofia. Se importa se eu sentar com você? Eu vim para meu médico e encontrei esse restaurante para almoçar. Você está acompanhado? – perguntou ela sem malícia, mostrando interesse no desenho.

Leonel sinalizou para seus amigos sentarem em outro lugar, disse-lhe seu nome e sentou-se em sua frente, ansioso para saber o que ela falaria de tudo aquilo. Parecia loucura toda a sequência de eventos, principalmente a possibilidade de ele ter entrado em contato com um espírito ou algo assim.

– É impressionante tudo isso que você escreveu…- disse ela, enquanto segurava o desenho com uma mão e o queixo com a outra, suavemente entrelaçando seus dedos.

– É…É muito parecido com…com a sua irmã, é? – perguntou Leonel, gaguejando.

– O desenho sim, mas as descrições…sou eu. Parece que eu estou lendo meu jeito de agir, de olhar, tudo… Eu não sei se fico assustada ou impressionada – brincou, sorrindo com ternura.

Desde então, começaram a almoçar com frequência cada vez maior, evoluindo para jantares divertidos, baladas engraçadíssimas e sessões de cinema onde trocaram os primeiros beijos. Em um desses encontros ela deu uma carona para Leonel até a casa dele.

– Me diz Leo, fora aquelas bobagens que a gente dança na balada, que música você gosta de ouvir? Conhece a banda “Simple Minds”? Eles foram muito bons, fizeram sucesso nos anos oitenta. Deixa eu colocar uma música deles aqui. – disse Sofia, enquanto apertava os botões do aparelho de som do carro.

Foi quando a melodia iniciou que Leonel começou a assoviá-la, como se a conhecesse. E então o cantor começou a cantar “Don’t you forget about me”.

 

 

 

Debaixo das flores rosadas

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Era o ponto de encontro do casal desde que se conheceram, ainda pequeninos o suficiente para contar a idade com a palma de uma só mão. Brincadeiras, risos e gracinhas se tornaram toques, sorrisos e gracejos, sob a testemunha velada e confiável daquela esguia e bela árvore.

Assim como as flores rosáceas que resistem ao inverno, a menina esperou seu amor até tornar-se mulher, quando finalmente a guerra findou. Olhou profundamente nos olhos do homem que o menino havia se tornado, e observou sua imagem turva em lágrimas derramadas não somente pela emoção do reencontro, mas pelo horror vivido naqueles anos de juventude, perdidos em fétidos campos de batalha.

Floresceram juntos em uma linda família, onde os dois filhos revezavam qual levaria o pai na cadeira de rodas durante o tradicional passeio aos domingos, quando se reuniam em volta daquela velha cerejeira e escutavam as histórias boas e ruins vividas pelos pais.

Para a árvore havia passado um fragmento de sua longa vida, e como o ciclo sazonal de suas belas flores rosadas, o casal chegou em seu outono, quando a flor do menino se soltou do galho, seguido de alguns meses pela da menina, ambos deixando de existir para que novas flores lutassem durante o inverno e desabrochassem na primavera. Mesmo que por um breve tempo.