Reflexão

Carta Intimista

Essa postagem é para você. Sim, pra você mesmo. Talvez faça algum tempo que tu não receba uma carta pessoal que não seja alguém pedindo alguma coisa ou uma má notícia. Bom, sinto desapontá-lo mas pode ser que esta seja boa ou ruim: Quem escolherá isso é você.

Nos conhecemos há um bom tempo né? E por mais que as coisas em nossa relação tivessem seus altos e baixos, uma coisa sempre acontece queiramos ou não: Mudamos. Parece que tudo sempre será como foi ontem ou há vinte anos atrás, mas não, nunca mais. Já disse um poeta “tudo muda o tempo todo no mundo”, e como tal nossa relação mudou bem como meus anseios, minhas crenças, convicções e até a maneira como penso que a vida deveria ser vivida.

Infelizmente não adianta pensar que tudo que ríamos no passado poderemos rir no presente e quiçá então, no futuro. Temos nossos pontos em comum, claro, e não seriam importantes se não fossem exatamente o elo que mantém viva nossa convivência – jamais pense que eu não levo isso em consideração. É hora seguir em frente, criatura, e pensar como essa nova fase admite inúmeras e improváveis possibilidades positivas para ambos.

É isso que faz das escolhas a melhor parte da vida. Agora me dê cá um abraço.

Peter não queria entrar para a NASA

The_Impossible_Astronaut

Enquanto Peter terminava sua série de exercícios rotineiros, os inúmeros médicos avaliavam cada traço ascendente e descendente dos eletrocardiograma, eletroencefalograma, mapeamento cerebral, resistência e esforço, buscando algum empecilho para que rapaz não fosse apto a ser um cosmonauta. Parte do problema não estava naqueles papéis e telas mas na consciência de Peter, que tinha sérias dúvidas sobre seu sonho. A outra parte é o fato de que ele não sabia disso.

Quando pequeno ele olhava para o céu procurando as estrelas que contou no dia anterior, e não só as reencontrava como percebia algumas ainda maiores e mais brilhantes para anotar em seu caderninho. Especulava em sua inocência criativa as possibilidades que cada planeta oferecia, ouvindo seu pai descrevê-los antes de dormir. Seus sonhos eram permeados por viagens interplanetárias onde Peter conhecia diversas espécies de flora e fauna por todo o Sistema Solar, fugindo de tempestades e coletando plantas e pequenos animais.

Durante a dura adolescência, sua fascinação pelos astros fora alvo de chacota e opressão no momento em que os valentões o instigavam que seu sonho seria impossível e infantil. Diversas vezes ele corria ao banheiro para chorar sua frustração em ter uma ambição tão distante dele. Olhava para o céu e para suas anotações com olhar de desprezo, fomentado pelos gritos e vozes de seus colegas humilhando-o. Por um bom tempo foi um jovem deprimido e desmotivado que seguiu sua vida olhando para frente, como a maioria das pessoas.

Hoje estava fazendo o último teste para embarcar no foguete em direção à Estação Especial Internacional, e tinha certeza de que seria bem sucedido: Os últimos três anos foram de treinamento pesado com alimentação restrita, horários precisos e acompanhamento psicológico. O resultado positivo foi anunciado, e Peter o recebeu com um misto de felicidade e perplexidade: finalmente estava indo ao espaço.

Já dentro do módulo de tripulação, sentado fixamente à poltrona ele fita a sua frente a pequena janela mostrando as nuvens ao longe. Após a checagem geral inicia-se a contagem: Cinco, e Peter apertou os dedos em ansiedade; Quatro, lembrou-se de tudo que sofrera por acreditar em algo tão improvável; Três e ouviu a voz de seu falecido pai falando a palavra “estrelas”; Dois, e lembrou que estava com seu caderninho de infância para dar sorte; Um, e pensou em si mesmo quando pequeno observando as estrelas, pensando que fora sua fascinação pelo espaço que o manteve olhando para cima, tirando-o do conformismo. Zero, ouvindo a explosão do combustível, lançou uma lágrima no ar ao perceber a única dúvida que tinha em seu coração: percebeu que o que importava talvez  não fosse realizar seu sonho, mas ter trilhado o caminho até ele.

O Primeiro Ano

Isso não é um conto, mas sim  algumas declarações sobre esse ano dificilmente maravilhoso que foi 2013.

Findado 2012, as rasas oportunidades de Porto Alegre, bem como uma ótima oportunidade de mudar a vida, nos levou a migrar para a Ilha da Magia. Num esquema meio Lost, sobrevivemos a dificuldades de toda sorte. Os planos que tínhamos em mente foram modificados bruscamente, mas perseveramos com louvor. Num verão majestoso de tantas praias, elas eram a única maneira de fazer algo fora do comum, já que não custavam muito mas proporcionavam aventuras e muita diversão. Vida de reis pobres: Nobreza destituída, mas vontade de reinar absurda. Alguns projetos começaram com bastante vontade, como a Bulldozer ou mesmo esse blog de contos, mas a minha ambição de ir além profissionalmente e ter uma renda estável fizeram com que tais planos fossem adiados (mesmo sendo um preguiçoso do carvalho).

Um ano que pode ser definido como o Ano do Coração Valente, já que decidimos urrar para tudo e todos um grito de liberdade. Agora estamos nós por nós. A Família, que é o nosso mais importante valor absoluto, começou a transformar seu próprio conceito quando viemos sozinhos para começar a nossa própria.

Um Feliz 2014 para todos que me cercam, mesmo que não fisicamente, para que coloquem pra fora seus gritos de liberdade, seja através de um projeto, de um passo além, ou de uma simples mudança de pensamento.

=)

O Vento

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Michel não tinha nada de mais além de um isqueiro e o último cigarro daquele dia da semana. Não tinha mais casa, nem carro, tampouco roupas ou sequer sapatos, os quais teve que vender junto com sua esperança. Vagava pela rua como um fantasma que podia ser visto, mas não sentido. Através das ruas imundas do centro urbano, ele lembrava de sua gaita e de sua doce voz, bem como das vezes que chegou a apresentar-se frente a uma centena de pessoas, que alimentavam seu sonho de ser um cantor famoso, e expressar para o mundo tudo aquilo que gostaria de dizer com suas melodias e letras. Murmurou algo por entre a espessa barba: “Dá aqui isso aí”, e o outro mendigo alcançou-lhe o pequeno cachimbo.

Sentou-se com o corpo para o lado, enquanto baforava, observando aquela fumaça, que dançava como as nuvens, onde podia enxergar um anel, um coelho, uma bola, que se esvaiam com o vento, por entre as folhas das poucas árvores que cresciam nos espaços das calçadas. Uma destas pequenas folhas desgarrou-se de seu galho, e caiu em frente ao rapaz, que, em sua alteração mental, soltou uma risada. Pegou a folha, encostou à boca, como fazia com sua gaita, e soprou. E, apesar de não exalar nenhuma fumaça no ar, as notas musicais saíram por entre o vento, como um sonho que nunca se esvai.

Viagem às estrelas

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Sinto as pernas flutuarem como num nado sublime nas mais claras águas desse universo, levadas para cima e para baixo, no ritmo da música das estrelas; eu nado no cosmo, repleto de escuridão e paz. Os braços se movem, mergulhando por entre os mais longínquos anéis de asteroides, seguindo barulho surdo dos pulsares.

Eu sinto a leveza no corpo que nunca tive em minha mente, que sempre foi tomada por explosões e atrito. Agora, somente o vácuo me sopra, me fazendo dançar por entre as luzes das galáxias.

Estou indo de encontro a um lugar calmo, a uma forte energia que me atrai, me preenchendo de paz e tranquilidade. Em meio a minha viagem às estrelas, vagando por entre luzes e sombras, encontrei o que sempre procurei, e agora, vou-me embora em paz.

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http://www.youtube.com/watch?v=VTXOP8wAqyc

Em um dia tranquilo

No conforto de casa,  ele deita Todas preocupações do dia se esvaem no travesseiro e no colchão macio. Olha para a própria mão. Pressente que os movimentos não corresponde aos que está tentando realizar. Ela parece estranha ao que vê. A presença de si mesmo começa a se tornar algo ilusório.

Sacode a mão e crava o rosto no travesseiro. Na cabeça, pensamentos diversos: Estaria passando mal? Por que somente a mão esquerda ele sente isso?

Abre os olhos; Observa ambas a mãos. A relação entre esquerdo e direito lhe dá uma fisgada de tensão. Agarra o colchão com a mão direita, bem forte. Tenta mexer a mão esquerda, sacudindo-a. Tudo parece tão leve, as mãos e os braços se movimentam como que automaticas e em um ar espesso, levando a uma sensação de lentidão.

Tenta se agarrar nos travesseiros em volta, tentando forçar algum movimento, alguma sensação forte aos braços e mãos. O coração dispara e a pupila contrai. Sua frio e começa a sentir o mesmo com as pernas.

De súbito levanta da cama, sacudindo os braços para senti-los. O coração dispara ainda mais. Mão ao peito. Será que vou ter um ataque cardíaco? E uma arritmia? Lava o rosto e se olha no espelho. Vê a própria mão no espelho e tudo lhe causa estranheza.

Não consegue parar de observar cada movimento de seu corpo, e pensar no porque isso tudo está acontecendo.  Deita-se novamente, soluçando para que a agonia acabe de uma vez por todas. Quando solta os punhos cerrados, eles parecem inexistentes. Sensação incontrolável, indescritível quase.

Tenta manter-se centrado e pensa no óbvio: não há nada de errado com ele. Porém, as sensações falam mais alto, e, novamente, se prende ao edredon e aos travesseiros. Parecia estar à beira de uma doença terrível,  de um derrame que poderia vir no futuro, de um aneurisma que um dia pode vir a ter, de uma doença súbita e terrível como uma vez já tivera. Estava, na verdade, sofrendo com um profundo

Pânico.

Nos Pampas

O ano era 1837. Antônio e Constância eram um casal idoso cujos filhos estavam longe há muito tempo. Residiam nos Pampas do Rio Grande do Sul, criando gado e plantação de trigo durante 40 anos. Antônio leva o leite ordenhado pela manhã para o café da tarde, enquanto Constância tomava um chimarrão. Com a guerra, presenciavam inúmeras tropas indo e vindo, ameaçando e pedindo. A todos, o casal cedeu suprimentos, moradia e todo tipo de auxílio, pois acreditavam nesta terra e, principalmente, no ser humano.

Com a seca, vieram os problemas. Além de uma produção escassa, Antônio e Constância sofriam com a fome e os embargos no momento em que vendiam seus bens.

Chegando em casa, ambos ficaram em silêncio, após uma amarga sensação de que não seria possível continuar a guerra da vida. Ficaram sentados, com lágrimas deslizando os olhos, assim como as nuvens que começavam a chegar. E no primeiro trovão, anunciando esperança, Antônio disse:

– Mostremos valor, Constância, nesta ímpia e injusta guerra. Que sirvam nossas façanhas de modelo a toda Terra.

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Uma singela homenagem ao 20 de setembro, data em que não se deve comemorar a guerra, mas a perseverança.