Humor

Foco

gota-de-suor

Não estou suando, mas sinto minha pele quente. Um pouco úmida, talvez eu esteja suando um pouco enquanto eu olho pra tela do computador pensando no que poderia estar fazendo além de calcular todos esses números. Roendo a unha, cuspo o pedaço que retirei para um canto da mesa, não consigo parar de olhar esse outlook com mensagens novas e lixo eletrônico insistindo pra eu dar o número da minha conta. Número? Ah sim, vou voltar a calcular os números sob o som do setor vizinho que ligou o ar condicionado no máximo. Com esse calor deve estar numa boa enquanto me satisfaço com esse ventilador furreca da contabilidade. Minha camisa faz coçar na costura e é um saco nesse calor que além de ter que me contorcer para me coçar, a região está um pouco úmida do suor e gelada quando bate o ventilador. Preciso de um banho urgente, esse dia não passa nunca e…Rá! Muito bom esse vídeo do cara  errando uma frase simples envolvendo jardineiro e nozes. Bom, essa planilha está toda errada, como é que eu calculei isso ontem? Eu tava drogado? Rá rá rá, se estivesse talvez acertasse esse mundaréu de números. Vou pegar um café – ah, esqueci de pegar água.

Muito bom esse café, mesmo já sendo o terceiro do dia, o gosto já parece de tinta – o que é bom, na verdade. Não que eu tenha já tomado tinta, mas sentir esse gosto artificial contrasta com o sabor à vida. Onde eu estava, a sim, os números da planilha… dezessete mil sob quinze porcento de juros ao ano dá exatamente…vontade de estar na praia, nossa. E essa camisa não para de coçar, que saco… Pra melhorar derrubei café em cima da calculadora, vou lá pegar uns guardanapos.

Interessante esse texto sobre a Guerra do Contestado, nunca imaginei que tinha sido tão importante. Vamos ver então meus emails… três cobrando as planilhas, um da Luiza – ah, aquela gatinha do compras. Vou responder pra ela que é prioridade… opa, já são dezoito horas, Bora ir pra casa arrumar toda aquela bagunça, mas não antes de tomar aquela cerveja pra afastar o calor, claro. A faculdade que se dane, hoje é só véspera de sexta.

Agora que levantei que percebi que sim, estou suando. Muito.

O Crime do Café

Mais um dia de trabalho se inicia: chego com a cara de sono, cumprimento os colegas com um murmúrio enquanto guardo minha marmita na geladeira. Chego no posto de trabalho, ligo o computador, e aproveito o tempo em que ele inicializa para dar uma arrumada na mesa e ir pegar um cafezinho na mesa do setor. É justamente nessa hora que presencio a cena mais insólita possível: meu chefe estatelado no chão, inerte, com uma mancha de café no peito, de onde escorre um rio do líquido marrom-escuro, formando uma poça.

Rapidamente o ajudei a levantar, mas estava aturdido, com a fala confusa e soluçava entre um muxoxo e outra. Pensei na hipótese de derrame, mas pelo cheiro forte de vodca, presumi que a noite de quinta-feira havia sido forte. Perguntei se ele lembrava-se de quem o havia abatido: “Eu só vi que a pessoa tinha mãos de mulher…tinha um anel dourado…”, repetia o pobre homem. Deixei-o repousando em sua mesa, e iniciei minha procura passando por entre as mesas, observando minhas colegas que digitavam com seus dedos ágeis alguma proposta comercial ou recusa de cantada. Anel de noivado prata, anel de compromisso prata, nenhum anel…Hm, vou ter que conferir a funcionária da copa.

E lá estava ela, produzindo mais café para distribuir pela empresa, e, em seu dedo da mão esquerda, um anel dourado. Tudo fazia sentido: ela talvez estivesse a recém servindo o café para nosso setor e meu chefe avançou-se na direção do ouro marrom. A copeira, assustada, teria selvagemente atacado com um espirro certeiro da térmica entreaberta. Ou melhor: talvez a intenção fosse afastar o atrevido homem embriagado, baseada em alguma rusga anteriormente estabelecida. Não eram poucas as vezes que meu chefe elogiava publicamente as ancas da copeira.

Simulando ignorância sobre o assunto, perguntei à moça, tentando ler seus sentimentos:

– Bom dia! A Srta. sabe se temos café no setor da administração?

– Sim, senhor, levei a térmica para lá hoje de manhã… – respondeu, e fazendo, em seguida, uma reveladora declaração – Pouco antes de você e seu chefe chegarem.

Droga! A menos que a moça estivesse mentindo descaradamente, era inocente até as ancas E o pior, ela não mostrava quaisquer sinais de nervosismo ou apreensão: se estivesse mentindo, era tão profissional nisso que poderia ser considerada uma sociopata. Tinha que investigar um pouco mais, e indaguei:

– A srta. viu alguém saindo com pressa da sala da administração? Talvez demonstrando uma culpa, arrependimento ou ansiedade exacerbada?

– Eu vi o Vanderlei saindo porta afora, faz pouquinho. Pela cara dele, parecia que tinha visto o medonho. – revelou a singela moça baixinha de ancas sinceras.

Voei porta afora, e encontro o rapaz com um sorriso nervoso no rosto, e pareceu tomar um belo susto ao me avistar. Foi então que me lembrei que Vanderlei tinha dedos finos como os de uma mulher, o que poderia ter confundido de quem foi algoz.

– Diga-me: Onde você estava nos últimos trinta minutos?! – perguntei, intimidando-o.

– E…Eu…Eu estava…Lá… – titubeou, declaradamente culpado.

– Cale-se, rapaz! Eu já sei tudo: foi você que agrediu brutalmente nosso chefe, dando-lhe uma golfada de café no peito. Admita! – Eu sei, fui cruel e arrisquei errar em virtude da certeza.

– Claro que não, meu! Eu tava…Bem, eu tava no banheiro, né! Quase atropelei o chefe e o Jurandir pra chegar na privada…Mas por desespero, mesmo…Acordei ruim de ontem, eu admito. Acarajé é foda, me destrói o estômago… – respondeu Vanderlei, para minha surpresa.

– Intestino, rapaz. Se está indo ao banheiro, é por causa do intestino. – corrigi, colocando as mãos na cintura e fazendo cara de preocupação, como se isso adiantasse para pensar melhor no caso.

Pedi desculpas a meu nobre colega e desejei melhoras intestinais, não antes de ter refletido sobre as valorosas informações que lhe escaparam da boca solta: Para dirigir-se ao trono, observou Jurandir junto à vítima. Pobre homem, jamais faria mal a uma mosca, mas era segurança da empresa, e deveria ter acesso às câmeras de segurança. Bingo!

Ao chegar lá, consegui assistir ao momento exato do acontecimento, e, perturbado com o que vira naquele vídeo, os deletei imediatamente e fui revelar o culpado. Desci as escadas, fui até a cozinha e servi uma xícara grande de café, uma para mim e outra para meu chefe. Ele precisaria quando eu contasse tudo. Segui em passos inseguros, pensando de que maneira revelaria o grande segredo a meu abalado superior, talvez mudasse a percepção de como tudo funciona na vida em sociedade.

– Chefe, eu descobri quem fez isso com o senhor – iniciei, com palavras firmes e assertivas -, e tenho certeza de que será uma grande surpresa para o senhor também.

– Pois bem…Fale… – respondeu, atordoado pobre homem.

Peguei sua mão direita e constatei:  exibia um anel dourado cintilante, ainda manchado pelo café. Mostrei a ele com convicção as provas, e sua queixo resvalou de surpresa, eu acho.

– O senhor mesmo acabou se alvejando, senhor! Visualizei claramente nas câmeras o senhor pegando o frágil copo plástico, e, com todo o calor que dele era emitido, seus dedos acabaram queimando, o que levou o senhor a impulsionar o copo em total descontrole. Foi uma cena aterrorizante, mas felizmente o senhor está melhor. No entanto, eu recomendo fortemente que o senhor volte para casa e repouse. O trauma foi demasiado forte.

E então, ele saiu para casa, perplexo com a própria burrice, enquanto eu, munido de uma extrema preguiça com que acordei, regozijei meu dia sem chefe, colocando novamente meu anel de casamento em meu fino dedo anelar, orgulhoso do crime perfeito.

Digníssima falácia

Kovo

– O senhor me daria a honra de dizer-lhe quantas notas socialmente aceitas como papel moeda, foram subtraídas do bornal antes repousado no acolchoado comunitário? – indagou a mulher, com dedo em riste.

– A senhorita deveria repensar todas as vezes em que, cada vez que o social era integrado ao nosso convívio, em centros populares de compras, minhas demandas não eram atendidas, mesmo sob protesto veemente, beirando a reações físicas, frente ao produto de meu agrado, e de todos que me apoiam e mal visto pelos que me cerceiam, inclusive…. – fora interrompido pela mulher, que rosnou e aumentou o tom de voz.

– Isso não justifica os seus atos, se o senhor não tinha autorização para tal, que obtivesse um aval superior, e não ultrapassasse qualquer autoridade presente, mesmo que sob revolta. Da mesma forma que de lá a quantia fora retirada, para lá ela retornará imediatamente!

– Mas a senhora deve levar em conta – impôs, já nervoso.

– Sem mas!! – Gritou a mulher, levantando um chinelo – Vá agora para sua sala pessoal e reflita com pouca parcimônia acerca dos augúrios que não teve de que não seria descoberto.

A mulher então retirou-se, nervosa, e acrescentou, aos berros:

– E não irás adquirir um Kinder ovo tão cedo!

Pequeno Mundo Louco

Caminho pelas ruas de Porto Alegre, e as tintas começam a cair das árvores, perto dos coitados taxistas que discursam sobre elas. Doenças voam disfarçadas aos montes evitando meus passos, e o sol forte destrói a minha noite típica da Andradas, recheadas por pessoas de classe alta fumando cachimbos de pó canino. Suas vozes saem de seus narizes de maneira que me irrita profundamente.

Procuro alguma pista de um perigoso assassino, que ronda o Centro durante as madrugadas. Fez apenas uma vítima, pois ela chegou a comentar que ele disse ser a primeira vez que matava alguém. Estranho. Não é um perfil comum.

Andei perguntando o paradeiro de um senhor amarelo feito sol, de hálito salgado e olhos cor-de-vidro, mas poucos resultados me levaram a evidências concretas.  Foi então que encontrei um meliante, de sobrancelhas unidas, com olhos arregalados e gago. Seu chefe era um pedaço de papel, onde ele escrevia o que deveria ser feito em sua vida de crimes e pecados. Pressionei os dois até que me saiu uma palavra interessante: “Equinoderme”. De cara entendi o que aquilo significava. Er amuito óbvio que o assassino estava bem diante do meu nariz, zombando de mim e dizendo que eu iria conhecer meus netos antes deles nascerem.

Enchi um balão e fui até o primeiro local que me veio à cabeça: o aquário soteropolitano. Lá estava o assassino, um bagre de nome Jorge. Me atacou antes que pudesse reagir, e em um golpe de sorte, o afoguei. Acabei abrindo uma lojinha de peixes, e revolucionei o mercado.

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Insanidade [LIGADA]

Durval, o Médio

Na realidade este não é um conto, mas uma introdução que criei de um dos personagens principais de uma história maior, que seria uma comédia medieval, algo parecido com Monty Python e o Cálice Sagrado.

Publicado originalmente em Set/2006

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Conheçam o grande cavaleiro andante ‘Durval, o Médio’!

Alto, loiro, olhos azuis, forte, viril, sagaz e glorioso! Assim é a definição de um herói romântico! Um herói que seria personagem principal das trovas e cantigas dos menestréis! O homem por quem as donzelas ficariam molhadas…Digo, suadas de nervosismo somente em pensar estar ao seu lado. Um futuro Rei! Que gozaria de todos os benefícios intelectuais, sexuais, e magistrais recebidos por um ser autorizado a mandar em uma plebe nojenta e ignorante! Mais que um homem, um Semideus, rodeado de mulheres, dinheiro e fama!

Mas Durval não era nada disso…

Com exceção de seus cabelos loiros e olhos azuis, nada tinha de magistral. Muito pelo contrário, era baixo, narigudo e ainda por cima tinha suas orelhas dobradas ao meio por seu elmo. Já o haviam chamado de ‘Elfo’, uma centena de vezes. Em todas, Durval levantava a voz, erguia sua espada e conclamava o nome da sua família: MicoBravo. Ao final do acerto de contas, não lhe faltavam pernas…Para correr, diga-se. É um amigo fiel, grande entusiasta, ativo e altaneiro. No entanto lhe faltava (muita) coragem e inteligência.

O equipamento de Durval MicoBravo também não ajudava em nada: Sua espada tinha um cabo que mais parecia um baita d’um…D’um… Enfim, parecia tanto que isso lhe servira de chacota entre todos durante sua infância. Sim, ele herdara a espada do pai, que perdeu (o pai, lógico) quando era criança (não sei se me entenderam, mas o pai perdeu a vida. A espada ainda existe!!).
Infelizmente sua má condição financeira fez com que Durval pudesse somente comprar metade de um peitoral masculino. Ainda lhe remetem à imagem de ‘bustiã’.
O elmo também herdou de seu pai, e o velho, num dia de bebedeira lhe contou que o dia em que a afiada ‘espiga’ que reside no topo do elmo começar a aumentar, ela se tornaria uma coroa, e então Durval seria rei de TerraGrande. Todo dia, ao entardecer, Durval observa atentamente, durante 40 minutos, o crescimento da espiga.
Durval MicoBravo agora é um cavaleiro de D’us, mas ele já foi muito menos do que isso. Nascera no interior do interior de TerraGrande. Foi criado com a mãe, mas esta trabalhava na lavoura e à noite, num quarto bem conhecido por muitos, ganhava dinheiro com a morte de seu pai (?). Pela falta da mãe, Durval cresceu aprendendo com as ovelhas. Elas o ensinaram os valores da vida, da natureza…E da fuga, quando viam os lobos famintos!
Um dia sua mãe e ele andavam e cantarolavam pelos campos, até que encontraram um velho ermitão que não parecia em sua melhor forma. O ermitão disse, completamente embriagado, que Durval nasceu para ser um LÍDER NATO. Que erro. Sua mãe livrou-se dele…Digo, o colocou em um mosteiro, onde aprendeu os valores da ordem e da justiça!
Durval é o principal dos 3 componentes do B.O.S.T.A.S. – Bons Ordeiros Salvadores Temerosos Anarquistas do Silêncio – que promove revoluções contra a coroa, destruição de monstros, cura de maldições e vez ou outra participam de uma dessas atividades.