Ficção Histórica

O quadro de Jacques-Louis

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– Clément! Traga minha vasilha com vinho, e rápido! – ordenou o homem magro e narigudo submerso na água, cobrindo suas escarras que o atavam à banheira.

O empregado trouxe com presteza rígida, apressando o passo. “Aqui está, Monsieur”, disse sem ouvir agradecimento. Enquanto isso, outro empregado adentrava o recinto anunciando a chegada de uma formosa dama:

– Mademoiselle Corday, Monsieur!

– Deixe-a entrar, Valentin. – respondeu o homem emerso.

Charlotte Corday era uma moça bela de aparência inocente. Vestida com os trajes da baixa burguesia, ela adentrou a sala que, por mais que tivesse uma banheira, era o escritório do dono da casa. Trazia entre seus suaves dedos alguns papéis contendo listas de nomes.

– Olá, minha querida… Espero que não se decepcione ao conhecer o dono “Amigo do Povo” – comentou o homem, acomodando-se na banheira. -. Infelizmente minha condição me impede de ficar fora d’água por muito tempo, então tenho que recebê-la assim mesmo. Está contigo a lista dos traidores?

Ela estendeu os papéis e manteve uma das mãos levemente ocultas sob o volumoso vestido.

– Aqui está, monsieur. Caen está ansiosa para que a guilhotina desça como nunca nos pescoços Gerondinos. – completou Charlotte.

– Com certeza, mon cher, com certeza serão todos guilhotinados – expressou com satisfação o homem, evitando o contato das folhas com a água. Já ouvia os tambores rufando, a população jogando tomates enquanto o incessante subir e descer da guilhotina fervia os corações. Pensou nas canções escritas sobre seus feitos, a serem cantadas ao som de cravo e violino.

Analisando os papéis, imerso na banheira que sempre fora sua única poltrona, o homem se chamava Jean-Paul Marat, e subitamente sentiu o frio da lâmina adentrando seu peito, vertendo o rubro líquido que se misturava ao amarelado das ervas que compunham seu banho medicinal.

Inclinou-se para fora, buscando ajuda da garota, mas era tarde demais: morreu com parte do corpo para fora, e como um messias nos braços da liberdade foi eternizado.

Dono

O texto abaixo foi escrito como resposta ao desafio literário na rede social Skynerd, seguindo a seguinte regra: “Descrevam em algumas linhas uma luta entre uma garota com uma lança e um guerreiro.”

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A medida em que o equilíbrio da menina se perdia, a arma de haste chacoalhava quase sem rumo, buscando desesperadamente evitar uma morte dolorosa ou tortura hedionda. Diante das trôpegas estocadas, o guerreiro, sujo e com cheiro de lavagem, ria e escarrava indo em direção à moça, retirando uma espessa lâmina da bainha. Com uma mão, arrancou a lança da garota, jogando-a para trás de si, desarmando a já indefesa vítima. Aproximou-se com o intuito de possuí-la, lambeu o rosto frágil da menina com a lâmina gelada, causando um pequeno corte, que o deixou mais excitado.

A reação foi um leve empurrão da garota, que, demasiado infortúnio, acabou abalando o equilíbrio do brutamontes. A queda foi pesada, e o som seco do grande homem atingindo o chão foi mesclado a um grito horrendo, com um borbulhar em sangue, quando a lança atravessou sua garganta.

Em prantos, a moça fugiu, agradecendo a seu deus por tê-la salvo do homem que a havia comprado.

Homo

O texto abaixo foi escrito como resposta ao desafio literário na rede social Skynerd, seguindo a seguinte regra: “Descreva o ponto de vista de uma fera ou animal mitico, que esteja sendo transportado de barco para…”

 

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Fui carregado por estas criaturas até agora, por mares, rios e estradas. São diferentes de mim, mas…Não tanto. Fazem barulhos que não compreendo, e me tratam como se eu não sentisse dor ou sofrimento. Todos meus semelhantes estão mortos, seja por estas criaturas, seja por não encontrarmos mais comida. Agora, sei que serei assassinado. Meu coração será retirado em homenagem a alguma coisa que idolatram como Rei superior. Mas, somos tão parecidos…Poderíamos ser amigos. Para eles, sou um animal, um mito. Para mim, sou eu mesmo, vivo, respirando. Para você, leitor do século XXI, sou um Neandertal.

Sangue e Trovão

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“Galopando em direção às Terras do Norte, percebi o início de chuva. Melhor que fossem gotas d’água caindo do céu do que flechas. Meu braço ainda ardia pelo corte frio da lâmina espessa dos malditos Romanos, e corria para chegar à tempo ao nosso acampamento antes que o ferimento me matasse.

No horizonte, onde esperava avistar tendas, senti primeiro o cheiro de queimado, seguido da visão da flama subindo aos céus, juntando sua cor alaranjado à alvorada. Pensei que tínhamos deixado a retaguarda desguarnecida. Hoje sei que fomos traídos, mas no momento só pensava que o reforço dos Francos não havia chegado à tempo. Precisava pensar rápido no que fazer para chegar vivo a um de nossos acampamentos aliados. Segui a Nordeste, buscando nosso Vater Rhein, por onde poderia chegar até as guarnições aliadas, que aguardavam o chamado às armas.

Parei para tratar de minhas feridas, e para que o cavalo descansasse um pouco. Percebi a chegada de um pequeno grupo vindo do oeste. Por suas vestes, eram Francos, e, pelos deuses, carregavam cabeças de meu povo. Definitivamente fomos traídos, e eu precisava avisar a todos de tal calamidade. Calmamente montei e cavalguei por entre as árvores, para que não fosse avistado com facilidade, afinal, as margens dos fluentes do rio Rhein eram abertas demais.

Mesmo assim, a batalha se sucedeu. Dois a cavalo e três a pé, tentaram cercar-me, mas encontraram somente meu cavalo. Saltei da da copa de uma árvore em cima de um dos cavaleiro, com a minha lâmina menor já cravando em seu pescoço. Ambos caímos, e, no chão, cortei seu pescoço de ponta a ponta, rapidamente rolando para trás de uma árvore maior, para que os outros não me vissem. O outro cavaleiro que passou, rente a onde me escondia, voou para frente, batendo de cabeça em uma árvore, quando quebrei um grosso pedaço de madeira nas patas de seu cavalo.

Nesse momento, os outros três retesaram a investida, pois não conseguiam me enxergar. Somente agiram quando uma lâmina cravou no olho de um deles, lançada por meu braço bom. Apesar da dança ter sido perigosa, consegui subjugá-los, afastando um enquanto cortava o outro. Banhado em sangue, continuei minha viagem, tirando o máximo de Ágora, meu cavalo.

Quando encontrei as guarnições, já viajava há dois dias, e a fome estava me matando. Precisei de mais uns dias para me recuperar totalmente, mas, infelizmente, acordei sob barulho de pedras caindo do céu. Agora, de um lado os Francos nos despejam flechas; de outro, Romanos bombardeiam-nos com suas catapultas. Há quatorze dias lutamos, e cada vez mais, morre meu povo.

Anteontem, entre corpos, sangue e fedor, uma flecha cravou em minha barriga, e acho que está piorando. Minha cabeça queima, e suo cada hora mais. Acho que estou indo embora, com a honra e a glória, de ter lutado por nosso  povo germânico.”

Dizia o pergaminho, queimando junto às pilhas de corpos germânicos e romanos, sob o fogo ateado por soldados ostentando cruzes e machados.