Ficção Científica

Átrio

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Não adianta correr agora. Nunca adianta. As unidades aéreas conseguem me triangular e os agentes de campo me capturam. Hoje talvez seja diferente. Carrego minha mochila com tudo que preciso. Eu acho.

Por entre os prédios em ruínas, o que era tomado por cimento e concreto agora é domínio de plantas e fungos; crescem por cima do que um dia foi o bastião da civilização humana. Fora o som da chuva e do vento passando por entre as folhas, somente o som de minhas botas ecoam, cadenciados pelo meu desespero em fugir. A adrenalina circula me tornando mais forte, ágil e atento. Quedas que poderiam quebrar minhas pernas são suavizadas pelos implantes metálicos que os experimentos me proporcionaram. Talvez não tenham sido de todo ruins todas as horas de tortura e vivissecção. O que era motivo de minha revolta, agora me ajuda a lutar contra meus carrascos.

Paro quando vejo uma patrulha. Enquanto aguardo em meio as ferragens do que já fora um carro, ouço os bipes e tilintar das garras de metal vasculhando cada canto. Espero o segundo certo – uma janela em que nenhum deles esteja atento a minha direção. Pulo no buraco. Caio na poça d’água e faço um barulho indesejável. Soam dois, três alarmes. Eles me acharam.

A fuga continua por onde antes eram os esgotos daquela mega cidade. Direita; esquerda; esquerda de novo. Atrás de mim o som de metal, faíscas e as luzes vermelhas buscando um único alvo. Quando achei que teria liberdade, havia um último dilema: de um lado um precipício  e do outro as esferas metálicas suspensas no ar, mirando cada ponto vital de meu corpo. Espere. Espere.

Num sobressalto jogo meu corpo em direção à imensidão seguido de inúmeros feixes de laser tentando me alvejar. Quando imaginei que os robôs haviam concluído que a queda havia me matado, da mochila abri o para-quedas. Estava a salvo por essa noite. Agora há somente mais cento e cinquenta quilômetros para deixar a instalação da Skynet.

O Filho Pródigo

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“Rifle Nova-366HR preparado”, disse minha interface pessoal, alguns segundos após eu conectar um dos cabos que saem do meu pulso à arma de longo alcance. Ela parece uma Barrett – uma arma bastante comum entre os atiradores de elite do século XXI, mas não só é prateada e dotada de diversas luzes: uma indicando o nível de plasma restante, outro para o tipo de descarga a ser feita ( um tiro ou uma rajada de cinco tiros por segundo) e um indicando que a arma estava conectada a mim corretamente. No entanto tudo ficava oculto aos olhos externos, já que a arma tinha uma camuflagem do tipo camaleão, uma tecnologia que assemelhava a aparência da arma tornando-a praticamente invisível. No entanto, minha conexão a ela me possibilitava enxergá-la sem dificuldades.

Agachei-me no terraço do prédio e assentei o rifle no parapeito, observando a jovem e voluptuosa mulher através da mira telescópica, aproximando sua bela imagem como se estivesse em minha frente – por mais que estivesse a alguns quilômetros e obstáculos de distância. Por mais estardalhaço que fizesse um tiro de plasma, ele conseguiria não somente trespassar estes prédios, mas também penetrar qualquer campo de força que a vítima estivesse utilizando.

Aguardei o momento certo e quando fui apertar o gatilho senti o peso da coronhada nas minhas costas, aliviado em sua totalidade pelo campo de força que eu utilizava – agora avariado. Levantei-me desconectando-me da arma, deixando-a na mira e saquei meu bastão retrátil, analisando meu agressor em busca de pontos fracos.

Minha interface pessoal rapidamente indicou-me quais veias estavam mais expostas enquanto o homem tentava me atingir com golpes e balas. Meus reflexos apurados eram suficientes para desviar, enquanto aguardava o momento certo para agir. Esquivando-me de outro pulso de laser emitido da arma do agressor, me aproximei de seu corpo e desferi uma sequência de golpes em pontos vitais tão rapidamente quanto um bocejo. Ao identificar a morte de meu inimigo, realizei a vinda de pelo menos mais seis iguais a ele, armados com pistolas laser e espadas de ‘carbono-vivo’ – um material que nunca precisa ser afiado e de corte excepcional: pode trespassar alvenaria como se fosse papel.

Recebi um alerta de mudança de curso: minha vítima estava se locomovendo para longe do meu raio de ação, e eu acabaria perdendo a oportunidade única. Jamais conseguiria voltar do futuro novamente para esta tarefa. “Alvo em movimento. Provável saída do alcance em 30 segundos”, disse a monotônica voz de minha interface pessoal. Eu tinha meio minuto para livrar-me desses imbecis e matar minha própria mãe.

Fogo e areia

Já não me bastava ter ficado tanto tempo naquele deserto sem fim caçando as poucas criaturas e colhendo plantas que me davam só o mínimo de alimento. No coldre, o revólver antes prateado, roça sua ferrugem no couro enegrecido do estojo onde repousava e sentia falta de lançar uma boa saraivada de balas.

É sempre fria a noite no deserto, mas não aquela: consegui ouvir ao longe o ronco dos motores e os urros dos selvagens que pilotavam máquinas mortíferas. Se eu conseguisse uma delas eu poderia  finalmente  sair desse inferno- Como se o resto do mundo não estivesse tão ruim quanto. Percebi no centro do comboio uma grande picape, cheia de espinhos em sua lateral, com uma espécie de motor na caçamba que girava bolas de aço unidas por uma corrente: Qualquer criatura que passasse pela lateral seria arremessada a vários metros. Só podia ser a caranga do líder da gangue pois era escoltado por três bugues de onde brotavam homens vestidos com armaduras improvisadas com sucata, ossos e até mesmo vidro. Brandiam lanças, espadas e archotes, o que era bom sinal pois indicava que preferiam não utilizar armas de fogo.

Aproveitei-me de não ter sido visto e subi na duna mais alta para alvejar o líder, que dirigia o carro. Apesar do vento e da areia, olhei através da mira do revólver e disparei um tiro certeiro, que entrou pelo ombro e provavelmente saiu através da coluna, mas acertara o carona.

Imediatamente entraram em formação e pela rumoo que tomavam, vinham em minha direção. Minha arma cuspiu mais uma, duas, três balas, derrubando três dos enlouquecidos dos bugues. Porém, não foi suficiente para detê-los: um dos veículos menores subiu a duna onde eu me escondia e passou acima de mim, arrancando meu chapéu com uma das rodas dotadas de lâminas afiadas. Imediatamente me lancei para o lado e disparei meus últimos dois tiros, acertando o pneu do veículo e lançando-o em direção a outro que fazia a curva, fazendo-os explodir e despejar seus ocupantes em chamas.

Corri para tentar esconder-me no flanco direito de uma elevação, mas comecei a ouvir o barulho aterrador das correntes da picape cortando o ar, como duas boleadeiras gigantes, e decidi ficar parado e recarregar o revólver. Foi uma manobra arriscada já que fiquei como um pato, exatamente na frente do monstro mecânico. Conseguia ouvir as gargalhadas de dentro do carro, como se tivessem certeza de que promoveriam um banho de sangue ao me atropelar. Se fuderam, porque me afundei na areia e fiquei estático e safo enquanto a picape passava por cima de mim, mas suas rodas não me tocavam.

Ao me levantar olhei para trás para ver se a picape iria dar a volta para tentar me atropelar novamente – ou me destroçar com aquele ‘ventilador de bolas’ – e acabei não percebendo que o último bugue vinha pela esquerda, e seu ocupante laçou-me com uma corda trançada com arame farpado, rasgando minhas costas e o braço direito, iniciando um tormento ao me arrastar através da areia, que de macia tornou-se uma lixa em alta velocidade. Eles riam e tentavam me acertar com lanças a medida que me puxavam. Com os dedos ensanguentados  e retalhados de tentar me livrar da arapuca, comecei a sentir o chão corroendo minhas roupas e minha pele. Decidi apontar a arma para o motorista, mas errei os cinco disparos.Foi então que o bugue e a picape ficaram frente-a-frente a uma distância de trezentos metros. Pretendiam passar rente um pelo outro a fim de me destroçar. Começaram então a acelerar e eu tive somente uma chance de me libertar. Observei que o veículo menor trazia galões de combustível, e depositei no tiro que ali disparei toda minha esperança. Faltavam alguns segundos para minha horrenda morte acontecer quando a explosão fez com que o pequeno bugue fosse lançado ao ar e capotasse inúmeras vezes, não somente me libertando e me jogando para longe da picape como liberando estilhaços violentamente, fazendo com que o veículo maior também capotasse, terminando em um amontoado de ferro retorcido.

Deitado, ainda respirei fundo ao olhar para as estrelas do norte, para onde eu deveria ir. Levantei e calmamente – mesmo que banhado em meu próprio sangue – recarreguei o revólver e girei o tambor. Peguei meu chapéu, mesmo que um pouco rasgado e comecei a andar lentamente por entre os destroços, peças incandescentes e membros despedaçados, indo em direção ao líder da gangue, que se esgueirava por entre os ferros retorcidos da picape para salvar sua vida. Ele vestia uma espécie de armadura romana, feita grosseiramente com peças de carro e pneus, e seu elmo era feito de ossos e um crânio humano, escondendo sua face. A maquiagem negra em volta dos olhos fechavam o aspecto fantasmagórico que desejava passar a seus inimigos, mas nunca tive medo de fantasmas.

– Me livra dessa, meu. Meus rapazes precisavam de uma diversão, então viemos para o deserto ver se encontrávamos algum andarilho – disse o bandido, segurando um fio de sangue que escorria pelo lado direito do lábio. – Não é nada pessoal, pode ter certeza.

– Tu vem, tenta me trucidar e a tua única desculpa é essa, amigão?! – apontei a Magnum perto de sua boca – Me diga antes que eu exploda esse tua boca nojenta: Você vem de Nova Reno?

– S-sim, mas a cidade está fechada. – E, aproveitando-se da oportunidade, blefou – E-Eu posso te ajudar a entrar lá, sou um dos únicos que tem passe livre por aquelas redondezas, o que acha?

Analisei o tamanho do idiota e vi que tinha as mesmas medidas que eu.

– Sabe duma coisa? Tu foi tão filho da puta que eu vou te dar uma chance de viver – o babaca sorriu quando falei aquilo – eu vou fingir que sou você e tu finge que é meu escravo, que tal?

Desconcertado, ele refletiu confuso.

– Ah, ma-mas eles saberão que sou eu. Me conhecem sem a máscara.

– Exatamente por isso que eu vou cuidar muito bem disso – e disparei a arma, que arrancou-lhe parte do nariz e destruiu-lhe o maxilar inferior.

O grito foi ensurdecedor, misturando-se ao borbulhar do sangue que se esvaía. Puxei-o pra fora das ferragens e joguei um pano sujo para que ele tentasse estancar aquele estrago que fiz em sua cara. Peguei suas roupas enquanto ele urrava de dor e me xingava de maluco e filho da puta.

Maluco eu até aceito como elogio. Me chamam assim pelas redondezas: Mad.

Mad Max. 

Peter não queria entrar para a NASA

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Enquanto Peter terminava sua série de exercícios rotineiros, os inúmeros médicos avaliavam cada traço ascendente e descendente dos eletrocardiograma, eletroencefalograma, mapeamento cerebral, resistência e esforço, buscando algum empecilho para que rapaz não fosse apto a ser um cosmonauta. Parte do problema não estava naqueles papéis e telas mas na consciência de Peter, que tinha sérias dúvidas sobre seu sonho. A outra parte é o fato de que ele não sabia disso.

Quando pequeno ele olhava para o céu procurando as estrelas que contou no dia anterior, e não só as reencontrava como percebia algumas ainda maiores e mais brilhantes para anotar em seu caderninho. Especulava em sua inocência criativa as possibilidades que cada planeta oferecia, ouvindo seu pai descrevê-los antes de dormir. Seus sonhos eram permeados por viagens interplanetárias onde Peter conhecia diversas espécies de flora e fauna por todo o Sistema Solar, fugindo de tempestades e coletando plantas e pequenos animais.

Durante a dura adolescência, sua fascinação pelos astros fora alvo de chacota e opressão no momento em que os valentões o instigavam que seu sonho seria impossível e infantil. Diversas vezes ele corria ao banheiro para chorar sua frustração em ter uma ambição tão distante dele. Olhava para o céu e para suas anotações com olhar de desprezo, fomentado pelos gritos e vozes de seus colegas humilhando-o. Por um bom tempo foi um jovem deprimido e desmotivado que seguiu sua vida olhando para frente, como a maioria das pessoas.

Hoje estava fazendo o último teste para embarcar no foguete em direção à Estação Especial Internacional, e tinha certeza de que seria bem sucedido: Os últimos três anos foram de treinamento pesado com alimentação restrita, horários precisos e acompanhamento psicológico. O resultado positivo foi anunciado, e Peter o recebeu com um misto de felicidade e perplexidade: finalmente estava indo ao espaço.

Já dentro do módulo de tripulação, sentado fixamente à poltrona ele fita a sua frente a pequena janela mostrando as nuvens ao longe. Após a checagem geral inicia-se a contagem: Cinco, e Peter apertou os dedos em ansiedade; Quatro, lembrou-se de tudo que sofrera por acreditar em algo tão improvável; Três e ouviu a voz de seu falecido pai falando a palavra “estrelas”; Dois, e lembrou que estava com seu caderninho de infância para dar sorte; Um, e pensou em si mesmo quando pequeno observando as estrelas, pensando que fora sua fascinação pelo espaço que o manteve olhando para cima, tirando-o do conformismo. Zero, ouvindo a explosão do combustível, lançou uma lágrima no ar ao perceber a única dúvida que tinha em seu coração: percebeu que o que importava talvez  não fosse realizar seu sonho, mas ter trilhado o caminho até ele.

Viagem às estrelas

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Sinto as pernas flutuarem como num nado sublime nas mais claras águas desse universo, levadas para cima e para baixo, no ritmo da música das estrelas; eu nado no cosmo, repleto de escuridão e paz. Os braços se movem, mergulhando por entre os mais longínquos anéis de asteroides, seguindo barulho surdo dos pulsares.

Eu sinto a leveza no corpo que nunca tive em minha mente, que sempre foi tomada por explosões e atrito. Agora, somente o vácuo me sopra, me fazendo dançar por entre as luzes das galáxias.

Estou indo de encontro a um lugar calmo, a uma forte energia que me atrai, me preenchendo de paz e tranquilidade. Em meio a minha viagem às estrelas, vagando por entre luzes e sombras, encontrei o que sempre procurei, e agora, vou-me embora em paz.

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http://www.youtube.com/watch?v=VTXOP8wAqyc

Outro planeta

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Chegando àquele planeta, ele pôde observar como era diferente: o céu era azul muito escuro durante o dia, as nuvens eram negras, e a terra avermelhada e arenosa.

– Terra SS1, responda! Câmbio. – disse ao rádio.

– Terra SS1 respondendo! – respondeu o operador, que estava em uma estação espacial estacionada na órbita. – Não tire o respirador. Repito: não retire o respirador. Há muita radiação no ar. Tome cuidado KL-3. Câmbio.

– Ok, vou iniciar a exploração. Câmbio, desligo.

Começou então a observar a paisagem de destruição. Haviam muitos metais retorcidos, em formato padrão, como se fossem enormes caixas, provavelmente onde aprisionavam algum tipo de escravos. Sentiu uma coceira no nariz, e o torceu para que a coceira passasse. Mesmo com o aviso da Base, jamais havia pensado em tirar seu respirador. Apesar de a vida haver triunfado em ambiente tão hostil, não confiava que poderia sobreviver a um ambiente tão pesado.

Continuou a andar alguns quilômetros, observando os resquícios de uma civilização perdida. Que havia exaurido todos os recursos possíveis, e havia sido destruída por si mesmo. Pensou em sua casa, sua esposa e filhos. Percebeu a fragilidade da vida, e da inteligência, pois aquela civilização parecia ter tido uma evolução bastante interessante, diferente do que ele havia visto.

Ao cair da noite, refugiou-se dentro de uma pequena caixa de metal, que não entendera a utilidade, ingeriu as cápsulas de comida e adormeceu.

– KL-3, aqui é Base! Acorde! Fenômeno desconhecido a Leste! Está destruindo tudo a sua volta! Você tem 15 segundos, use seus propulsores!

Levantou-se rapidamente, olhando por um dos cinco buracos que tinha a caixa de metal onde estava, e viu um turbilhão de ventos e raios vindo em sua direção. Descia dos céus até o chão, destruindo tudo por onde passava.

Rapidamente ligou os propulsores, voando em uma altura baixa em alta velocidade. Percebeu que havia vários daqueles fenômenos acontecendo ao mesmo tempo. Prendeu sua atenção em um, que tinha o tamanho de pelo menos três dos outros. Sentiu uma forte batida no ombro direito, que o fez desmaiar em pleno ar. Chegando ao chão em um forte impacto, salvo pelo sistema de emergência de seu traje, que, mesmo sendo completamente destruído, o salvou.

Finalmente coçou seu nariz, ainda deitado. O vento o acordou, levando grãos de areia a suas orelhas. Levantou ainda zonzo, e estava com o traje de emergência, mas isso não o protegia daquele planeta inóspito. No entanto, percebeu que estava em um lugar completamente diferente do que havia visto. Parecia a instalação ao ar livre mais intacta desde a tragédia que dizimou a tudo e a todos. Havia um pórtico, onde estavam grafadas runas que ele jamais havia visto. As anotou e continuou em frente, observando enormes esculturas, provavelmente de antigos Deuses ou animais que lá existiam. Inúmeras reproduções, em um material rígido, de criaturas estranhas, todas unidas por cabos ou encaixes. Provavelmente para facilitar o transporte ou algo assim…se bem que, o local parecia ser um lugar especial, pois estava cercado. Deveriam fazer oferendas ou festas, pois havia tantas figuras pequenas de pano, como bonecas e outras reproduções menos fiéis dos habitantes e suas criaturas.

Percebeu que havia painéis e alavancas em algumas pequenas edificações. Tentou acionar uma delas e ouviu um enorme estrondo, como se um metal há muitos anos finalmente conseguia se movimentar, mesmo que por pouco tempo, pois havia pouca energia para que algo acontecesse.

Percebeu que um imenso círculo, preso ao chão pelo centro havia girado. Deveria ser o rotor principal de todo aquele aparato. E era maravilhosamente grande. Desenhou então para que pudesse mostrar a seus companheiros, na Base. Fora interrompido na hora em que imaginava que seria, ao chegar o módulo que o levaria à Base novamente, acima da órbita. Entrou na cápsula e sentiu-se triste. Sem saber porque, sentiu-se triste por todo aquele povo, que parecia estar em seu auge quando fora destruído. Novamente pensou em sua mulher e filhos, seu planeta natal, tão verde, tão azul; com milhões de lindos animais. Será que seu planeta irá perecer como este? Sucumbir à inveja, à ganância e à inconseqüência? Isso o deixava triste.

Chegou à Terra SS1, recebeu sua medicação e disse aos companheiros que iria dormir um pouco. Só isso. E não conseguia dormir.

Depois de algumas horas de sono, mais uma vez fora interpelado por seus curiosos companheiros de tripulação, querendo saber o que havia naquele planeta. Ele, sem dizer nada, estendeu o papel com o desenho do que havia visto, e um papel com aquelas runas impronunciáveis: “Parque de Diversões”.

Conto original, escrito em 05/11/2009

Inspirado pelo conto “Eye of the Beholder”

Chegando àquele planeta, ele pôde observar como era diferente: o céu era azul muito escuro durante o dia, as nuvens eram negras, e a terra avermelhada e arenosa.

– Terra SS1, responda! Câmbio. – disse ao rádio.

– Terra SS1 respondendo! – respondeu o operador, que estava em uma estação espacial estacionada na órbita. – Não tire o respirador. Repito: não retire o respirador. Há muita radiação no ar. Tome cuidado KL-3. Câmbio.

– Ok, vou iniciar a exploração. Câmbio, desligo.

Começou então a observar a paisagem de destruição. Haviam muitos metais retorcidos, em formato padrão, como se fossem enormes caixas, provavelmente onde aprisionavam algum tipo de escravos. Sentiu uma coceira no nariz, e o torceu para que a coceira passasse. Mesmo com o aviso da Base, jamais havia pensado em tirar seu respirador. Apesar de a vida haver triunfado em ambiente tão hostil, não confiava que poderia sobreviver a um ambiente tão pesado.

Continuou a andar alguns quilômetros, observando os resquícios de uma civilização perdida. Que havia exaurido todos os recursos possíveis, e havia sido destruída por si mesmo. Pensou em sua casa, sua esposa e filhos. Percebeu a fragilidade da vida, e da inteligência, pois aquela civilização parecia ter tido uma evolução bastante interessante, diferente do que ele havia visto.

Ao cair da noite, refugiou-se dentro de uma pequena caixa de metal, que não entendera a utilidade, ingeriu as cápsulas de comida e adormeceu.

– KL-3, aqui é Base! Acorde! Fenômeno desconhecido a Leste! Está destruindo tudo a sua volta! Você tem 15 segundos, use seus propulsores!

Levantou-se rapidamente, olhando por um dos cinco buracos que tinha a caixa de metal onde estava, e viu um turbilhão de ventos e raios vindo em sua direção. Descia dos céus até o chão, destruindo tudo por onde passava.

Rapidamente ligou os propulsores, voando em uma altura baixa em alta velocidade. Percebeu que havia vários daqueles fenômenos acontecendo ao mesmo tempo. Prendeu sua atenção em um, que tinha o tamanho de pelo menos três dos outros. Sentiu uma forte batida no ombro direito, que o fez desmaiar em pleno ar. Chegando ao chão em um forte impacto, salvo pelo sistema de emergência de seu traje, que, mesmo sendo completamente destruído, o salvou.

Finalmente coçou seu nariz, ainda deitado. O vento o acordou, levando grãos de areia a suas orelhas. Levantou ainda zonzo, e estava com o traje de emergência, mas isso não o protegia daquele planeta inóspito. No entanto, percebeu que estava em um lugar completamente diferente do que havia visto. Parecia a instalação ao ar livre mais intacta desde a tragédia que dizimou a tudo e a todos. Havia um pórtico, onde estavam grafadas runas que ele jamais havia visto. As anotou e continuou em frente, observando enormes esculturas, provavelmente de antigos Deuses ou animais que lá existiam. Inúmeras reproduções, em um material rígido, de criaturas estranhas, todas unidas por cabos ou encaixes. Provavelmente para facilitar o transporte ou algo assim…se bem que, o local parecia ser um lugar especial, pois estava cercado. Deveriam fazer oferendas ou festas, pois havia tantas figuras pequenas de pano, como bonecas e outras reproduções menos fiéis dos habitantes e suas criaturas.

Percebeu que havia painéis e alavancas em algumas pequenas edificações. Tentou acionar uma delas e ouviu um enorme estrondo, como se um metal há muitos anos finalmente conseguia se movimentar, mesmo que por pouco tempo, pois havia pouca energia para que algo acontecesse.

Percebeu que um imenso círculo, preso ao chão pelo centro havia girado. Deveria ser o rotor principal de todo aquele aparato. E era maravilhosamente grande. Desenhou então para que pudesse mostrar a seus companheiros, na Base. Fora interrompido na hora em que imaginava que seria, ao chegar o módulo que o levaria à Base novamente, acima da órbita. Entrou na cápsula e sentiu-se triste. Sem saber porque, sentiu-se triste por todo aquele povo, que parecia estar em seu auge quando fora destruído. Novamente pensou em sua mulher e filhos, seu planeta natal, tão verde, tão azul; com milhões de lindos animais. Será que seu planeta irá perecer como este? Sucumbir à inveja, à ganância e à inconseqüência? Isso o deixava triste.

Chegou a Terra SS1, recebeu sua medicação e disse aos companheiros que iria dormir um pouco. Só isso. E não conseguia dormir.

Depois de algumas horas de sono, mais uma vez fora interpelado por seus curiosos companheiros de tripulação, querendo saber o que havia naquele planeta. Ele, sem dizer nada, estendeu o papel com o desenho do que havia visto, e um papel com aquelas runas impronunciáveis: “Parque de Diversões”.