Fanfic

Átrio

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Não adianta correr agora. Nunca adianta. As unidades aéreas conseguem me triangular e os agentes de campo me capturam. Hoje talvez seja diferente. Carrego minha mochila com tudo que preciso. Eu acho.

Por entre os prédios em ruínas, o que era tomado por cimento e concreto agora é domínio de plantas e fungos; crescem por cima do que um dia foi o bastião da civilização humana. Fora o som da chuva e do vento passando por entre as folhas, somente o som de minhas botas ecoam, cadenciados pelo meu desespero em fugir. A adrenalina circula me tornando mais forte, ágil e atento. Quedas que poderiam quebrar minhas pernas são suavizadas pelos implantes metálicos que os experimentos me proporcionaram. Talvez não tenham sido de todo ruins todas as horas de tortura e vivissecção. O que era motivo de minha revolta, agora me ajuda a lutar contra meus carrascos.

Paro quando vejo uma patrulha. Enquanto aguardo em meio as ferragens do que já fora um carro, ouço os bipes e tilintar das garras de metal vasculhando cada canto. Espero o segundo certo – uma janela em que nenhum deles esteja atento a minha direção. Pulo no buraco. Caio na poça d’água e faço um barulho indesejável. Soam dois, três alarmes. Eles me acharam.

A fuga continua por onde antes eram os esgotos daquela mega cidade. Direita; esquerda; esquerda de novo. Atrás de mim o som de metal, faíscas e as luzes vermelhas buscando um único alvo. Quando achei que teria liberdade, havia um último dilema: de um lado um precipício  e do outro as esferas metálicas suspensas no ar, mirando cada ponto vital de meu corpo. Espere. Espere.

Num sobressalto jogo meu corpo em direção à imensidão seguido de inúmeros feixes de laser tentando me alvejar. Quando imaginei que os robôs haviam concluído que a queda havia me matado, da mochila abri o para-quedas. Estava a salvo por essa noite. Agora há somente mais cento e cinquenta quilômetros para deixar a instalação da Skynet.

Fogo e areia

Já não me bastava ter ficado tanto tempo naquele deserto sem fim caçando as poucas criaturas e colhendo plantas que me davam só o mínimo de alimento. No coldre, o revólver antes prateado, roça sua ferrugem no couro enegrecido do estojo onde repousava e sentia falta de lançar uma boa saraivada de balas.

É sempre fria a noite no deserto, mas não aquela: consegui ouvir ao longe o ronco dos motores e os urros dos selvagens que pilotavam máquinas mortíferas. Se eu conseguisse uma delas eu poderia  finalmente  sair desse inferno- Como se o resto do mundo não estivesse tão ruim quanto. Percebi no centro do comboio uma grande picape, cheia de espinhos em sua lateral, com uma espécie de motor na caçamba que girava bolas de aço unidas por uma corrente: Qualquer criatura que passasse pela lateral seria arremessada a vários metros. Só podia ser a caranga do líder da gangue pois era escoltado por três bugues de onde brotavam homens vestidos com armaduras improvisadas com sucata, ossos e até mesmo vidro. Brandiam lanças, espadas e archotes, o que era bom sinal pois indicava que preferiam não utilizar armas de fogo.

Aproveitei-me de não ter sido visto e subi na duna mais alta para alvejar o líder, que dirigia o carro. Apesar do vento e da areia, olhei através da mira do revólver e disparei um tiro certeiro, que entrou pelo ombro e provavelmente saiu através da coluna, mas acertara o carona.

Imediatamente entraram em formação e pela rumoo que tomavam, vinham em minha direção. Minha arma cuspiu mais uma, duas, três balas, derrubando três dos enlouquecidos dos bugues. Porém, não foi suficiente para detê-los: um dos veículos menores subiu a duna onde eu me escondia e passou acima de mim, arrancando meu chapéu com uma das rodas dotadas de lâminas afiadas. Imediatamente me lancei para o lado e disparei meus últimos dois tiros, acertando o pneu do veículo e lançando-o em direção a outro que fazia a curva, fazendo-os explodir e despejar seus ocupantes em chamas.

Corri para tentar esconder-me no flanco direito de uma elevação, mas comecei a ouvir o barulho aterrador das correntes da picape cortando o ar, como duas boleadeiras gigantes, e decidi ficar parado e recarregar o revólver. Foi uma manobra arriscada já que fiquei como um pato, exatamente na frente do monstro mecânico. Conseguia ouvir as gargalhadas de dentro do carro, como se tivessem certeza de que promoveriam um banho de sangue ao me atropelar. Se fuderam, porque me afundei na areia e fiquei estático e safo enquanto a picape passava por cima de mim, mas suas rodas não me tocavam.

Ao me levantar olhei para trás para ver se a picape iria dar a volta para tentar me atropelar novamente – ou me destroçar com aquele ‘ventilador de bolas’ – e acabei não percebendo que o último bugue vinha pela esquerda, e seu ocupante laçou-me com uma corda trançada com arame farpado, rasgando minhas costas e o braço direito, iniciando um tormento ao me arrastar através da areia, que de macia tornou-se uma lixa em alta velocidade. Eles riam e tentavam me acertar com lanças a medida que me puxavam. Com os dedos ensanguentados  e retalhados de tentar me livrar da arapuca, comecei a sentir o chão corroendo minhas roupas e minha pele. Decidi apontar a arma para o motorista, mas errei os cinco disparos.Foi então que o bugue e a picape ficaram frente-a-frente a uma distância de trezentos metros. Pretendiam passar rente um pelo outro a fim de me destroçar. Começaram então a acelerar e eu tive somente uma chance de me libertar. Observei que o veículo menor trazia galões de combustível, e depositei no tiro que ali disparei toda minha esperança. Faltavam alguns segundos para minha horrenda morte acontecer quando a explosão fez com que o pequeno bugue fosse lançado ao ar e capotasse inúmeras vezes, não somente me libertando e me jogando para longe da picape como liberando estilhaços violentamente, fazendo com que o veículo maior também capotasse, terminando em um amontoado de ferro retorcido.

Deitado, ainda respirei fundo ao olhar para as estrelas do norte, para onde eu deveria ir. Levantei e calmamente – mesmo que banhado em meu próprio sangue – recarreguei o revólver e girei o tambor. Peguei meu chapéu, mesmo que um pouco rasgado e comecei a andar lentamente por entre os destroços, peças incandescentes e membros despedaçados, indo em direção ao líder da gangue, que se esgueirava por entre os ferros retorcidos da picape para salvar sua vida. Ele vestia uma espécie de armadura romana, feita grosseiramente com peças de carro e pneus, e seu elmo era feito de ossos e um crânio humano, escondendo sua face. A maquiagem negra em volta dos olhos fechavam o aspecto fantasmagórico que desejava passar a seus inimigos, mas nunca tive medo de fantasmas.

– Me livra dessa, meu. Meus rapazes precisavam de uma diversão, então viemos para o deserto ver se encontrávamos algum andarilho – disse o bandido, segurando um fio de sangue que escorria pelo lado direito do lábio. – Não é nada pessoal, pode ter certeza.

– Tu vem, tenta me trucidar e a tua única desculpa é essa, amigão?! – apontei a Magnum perto de sua boca – Me diga antes que eu exploda esse tua boca nojenta: Você vem de Nova Reno?

– S-sim, mas a cidade está fechada. – E, aproveitando-se da oportunidade, blefou – E-Eu posso te ajudar a entrar lá, sou um dos únicos que tem passe livre por aquelas redondezas, o que acha?

Analisei o tamanho do idiota e vi que tinha as mesmas medidas que eu.

– Sabe duma coisa? Tu foi tão filho da puta que eu vou te dar uma chance de viver – o babaca sorriu quando falei aquilo – eu vou fingir que sou você e tu finge que é meu escravo, que tal?

Desconcertado, ele refletiu confuso.

– Ah, ma-mas eles saberão que sou eu. Me conhecem sem a máscara.

– Exatamente por isso que eu vou cuidar muito bem disso – e disparei a arma, que arrancou-lhe parte do nariz e destruiu-lhe o maxilar inferior.

O grito foi ensurdecedor, misturando-se ao borbulhar do sangue que se esvaía. Puxei-o pra fora das ferragens e joguei um pano sujo para que ele tentasse estancar aquele estrago que fiz em sua cara. Peguei suas roupas enquanto ele urrava de dor e me xingava de maluco e filho da puta.

Maluco eu até aceito como elogio. Me chamam assim pelas redondezas: Mad.

Mad Max.