Drama

Cova 799

636192101672060613-010517-WIL-MEDICAL-EXAMINER-JC00011

O lençol branco ressalta os contornos do homem, estirado no chão sob uma poça carmesim. Quando recém saído do corpo e espalhado por sobre os pedregulhos, o sangue é mais claro que o normal. Apesar dos transeuntes já estarem habituados, essa morte trouxe um pouco mais de frio na espinha dos que acompanharam a troca de tiros. A esposa precisou ser contida, e seus berros disputavam o ar com explosões e rajadas de bala à distância.

Nada mais parecia o que já fora. Por mais que um dia os escombros fossem retirados da avenida, os apartamentos reconstruídos e automóveis importados, a canção da guerra iria ressoar por um bom tempo no coração dos sobreviventes.

Quando havia a paz, antes de ter parte do seu peito cravejado com fogo e metal, o homem gostava de pescar com a esposa aos domingos em uma lagoa dos arredores. À época, a filha de nove anos gostava de desenhar as paisagens da região, tomada de montanhas e pinheiros. Tinha preferência para a geleia de damasco, mas seu pai conseguia comprar somente quando viajava a trabalho para a cidade portuária. O homem gostava de lidar com outras pessoas com a gentileza com que o tratavam, o que é bastante pertinente quando se é vendedor de lã.

No entanto, naquela manhã, seis dias antes de perder tudo em um bombardeio, havia saído para consertar o aquecedor do lado de fora do hospital, onde ajudava a carregar as macas improvisadas, cheirando a sangue e vísceras. Aguentou dias sem dormir, até que se prontificou trocar um cano que havia sido atingido por uma bala.

Por conta do alto número de cadáveres, os cemitérios mal tinham covas individuais. O homem recém assassinado acabou sendo enterrado sob o número 799. Não era o septigentésimo nonagésimo nono a morrer no conflito, mas o daquele cemitério improvisado, de um vilarejo que abrigava mil e quinhentas pessoas.

Anúncios

Black

smarthome-product-1a2000

Cristiana chegou em casa esbaforida, pois o calor que fazia na rua beirava o insuportável. Bom é que automaticamente seu ar-condicionado havia ligado quando os sensores detectaram seu carro na garagem.

– Altair, alguma mensagem pra mim? – perguntou ao sistema operacional que gerenciava sua casa.

– Sim, senhora. Você recebeu dois e-mails de…Susana.. – a pausa era característica do sistema precisar ler uma informação letra a letra – e um de…Clóvis.

– Ótimo, muito obrigado… – fazia o reforço positivo quase que naturalmente, mesmo falando com uma máquina – alguma outra coisa?

– Sim, senhora, chegaram as tarifas de impostos: Cristianismo, liberalismo, saúde pública e minorias étnicas.

– Caramba, de novo minorias étnicas?! Eu vivo dizendo pra eles pararem de me enviar isso, não vou pagar meu imposto pra dar dinheiro pra um bando de índio. – tomou um gole do suco de uva, direto da caixinha.  – Por favor, Altair, pague o imposto para o Cristianismo e liberalismo. Saúde pública eu vou ler depois se alguma coisa mudou.

A voz digital anuiu e ficou em silêncio por alguns segundos, voltando a falar somente para anunciar o sucesso do pagamento. Então, a moça sentou-se no sofá, ligou a televisão e escolheu um filme para assistir. Sua profissão era extenuante, mas compensava com um ótimo salário. Relaxou e acabou adormecendo.

Acordou com dores fortes na barriga, e, por entre suas pernas, sangue escorria, manchando as almofadas de cor clara. Ergueu-se curvada e cambaleou em direção à porta.

– Altair!! Abra a porta e acione o hospital! Entendeu? – gritou.

– Sim, senhora. Alertando o hospital mais próximo… – respondeu o sistema operacional  – Deseja um público ou privado?

– Qualquer um!

– A senhora não pagou por “aborto”. Caso seja esse um de seus males, o hospital não realiz… – a interface foi interrompida pelo grito da usuária.

– Eu sei, caralho!! Abre essa porta logo!

A porta abriu e ela jogou-se para dentro do carro. Sentou-se e tentou dirigir ao hospital mais próximo que aceitasse o sistema privado para aborto, se fosse o caso. No entanto, a dor estava insuportável e acabou parando no primeiro posto de atendimento que viu. Saiu do carro resvalando os pés descalços no próprio sangue. Entrou na recepção e logo estava em uma maca. Três médicos a cercaram e fizeram um rápido exame de toque.

– A senhora fez algum procedimento abortivo? – perguntou um deles.

– Não, eu estava com…ai, ai… com a menstruação atrasada, mas nada de mais.

Os médicos pareceram não acreditar.

– Senhorita, precisamos que seja sincera conosco.

– Eu falando sério!! O que está acontecendo?! – Ela urrou, agarrando-se nas laterais da maca.

– No perfil público da senhora consta que não pagou atendimento popular para…”aborto”, então serei obrigado a lhe informar que o procedimento lhe custará trinta e sete mil créditos, ok?

– Só isso?! Pode debitar, rápido. – disse.

Nesse momento, a mulher estendeu o braço perto da máquina de débito e o dinheiro fora retirado de sua conta. Os médicos a levaram a um quarto e lá ela esperou por trinta minutos. Cada um desses minutos pareceram horas, pois sentia vontade de urinar, tentava trancar o fluxo mas ele vazava contra sua vontade, ardendo a uretra e liberando mais sangue. Essas urgências aconteciam a cada três minutos, mais ou menos, encharcando o lençol com um vermelho amarelado.

– Tem alguém nessa porra pra me atender?! – gritou a esmo. Logo chegou um enfermeiro.

– O que seria senhora? – perguntou o rapaz.

– Por que não fui atendida ainda?!

– Deixe-me ver se prontuário… – observou o tablet – Então, senhora você está no plano “Liberal-A3H4”, por conta do livre mercado você está numa fila de emergência. Caso a senhora disponha de mais recursos, é possível subir nessa lista para ser atendida na frente dos outros. Caso contrário, existem outros hospitais para a senhora escolher.

– Debita essa porra logo e me tira daqui!! – agarrou o rapaz pelo colarinho, estendeu a mão na máquina de cobrança mais próxima e foi debitada a enorme diferença.

Ela pularia na fila de sexto para terceiro lugar de atendimento emergencial. Quando finalmente fosse atendida, tudo correria perfeitamente: Médicos atenciosos, as melhores medicações, e os mais tolerantes enfermeiros cuidariam dela. Mas não. Não haviam créditos suficientes.

– Senhora, eu sinto muito, mas teremos que lhe repassar ao setor público ou outro hospital privado.

– Isso é um absurdo!! Pago todos os impostos para estar aqui e receber o melhor atendimento! – ela se contorcia de dor e raiva.

O enfermeiro mudou a expressão e sussurrou no ouvido dela:

– Que seu sangue seja a areia do tempo que lhe resta para se decidir.

Arregalou os olhos, espantada com a crueldade do rapaz, e, no momento em que tentou levantar-se, acordou em seu sofá. Confusa e suando frio, perguntou:

– Altair, o… quanto tempo eu dormi?

– Trinta minutos, senhora.

Ela levantou-se e colocou a mão sobre a barriga. Olhou pela janela e viu a cidade no horizonte: suas milhares de luzes indicando milhões de moradores. Pensou em cada um que estava passando pelo que acabara de vivenciar, e disse:

– Altair… – a máquina aguardou o comando – Sabe aquele imposto da Saúde Pública?

– Sim, senhora.

– Delete-o, e coloque qualquer que venha dessa mesma fonte para a caixa de spam. Compre ações em qualquer hospital.

Em seguida, ela segurou o ventre mais uma vez, e começou a rezar pelos pobres.

 

 

Xiukong

b88ff590d45dfb3070d9543f45bff100

Tudo poderia estar se movendo em câmera lenta, mas não está. O tempo corre, a vida segue e tudo continua.

As crianças se amontoam perto das poças, tentando enxergar o que aconteceu. No espaço entre um repórter e outro, vislumbram um pouco da situação: um braço estendido, junto ao corpo imóvel. Os cliques das máquinas fotográficas combinam com o barulho leve da chuva, e os flashes não incomodam os olhos daquele que está no centro das atenções, dentro cordão policial aguardando o lençol branco.

Para os policiais, mais um dia comum no subúrbio carioca. Para mim, o meu fim.

 

Visita

140211-martin-courtney-in-my-room-01-real-estate-19.jpg

– Oi! Cheguei numa hora ruim? – perguntou a garota esgueirando a cabeça pela fresta da porta.

– Nunca é uma boa hora, né. Mas entra aí… – Disse o rapaz enquanto continuava a ler o livro gigantesco, que relatava todas histórias de um mundo de fantasia.

Fechou o livro, girou a cadeira e viu a sua frente a garota. Jovem adulta, de cabelos longos e negros, olhos de mesma cor e pele escura. Sua roupa discreta contrastava com a maquiagem carregada no lápis de olho.

– Você sabe quem eu sou, não? – ela novamente.

– Acho que sei, sim. Já é a hora então?  – o rapaz estica as costas, notavelmente com uma dor na cervical, escondendo o nervosismo aterrador.

– Ainda não, mas vim aqui conversar contigo. Sair do “mundo dos sussurros”, sabe? Ainda mais por que a última vez que conversamos faz o quê? Doze anos? Dezesseis?

“Quase dezoito mês que vem”, ele corrigiu. E disse:

– Acho que por conta de tanto tempo com esses “sussurros”, que sempre tive tanto pânico em te encontrar. – sem ser grosseiro, mas ainda decidido a ir direto ao assunto, solicitou – O que você quer?

– Eu nunca quero nada, você sabe. Eu simplesmente existo. Vim aqui porque algo está acontecendo aí dentro de você. Eu sei disso e eu sei que é em relação à mim. – sorriu, parecendo simpática.

– É…é verdade. Não é fácil ficar assim tão próximo de você, mas… eu sei que essa conversa vai ser definitiva um dia. É hoje? – mais uma vez, ele extremamente nervoso.

– Não – ela sorriu; ele não -, mas eu preciso fazer as pazes com você, eu…

– Impossível. – ele interrompeu – Cada vez mais é impossível te entender e te aceitar na minha vida, mesmo que distante. Você parece estar sempre perto. Demais. E quando eu acho que está tudo bem, você está num quadro, na internet, na porta da minha casa, toda vez que eu fecho os olhos para dormir. Como fazer as pazes com algo que me perturba a todo momento, que me faz querer chorar e pensar que, invariavelmente do que eu fizer, uma hora eu vou… – a boca contorceu-se e os olhos ficaram úmidos.

– Me desculpe. Eu achei que eu era uma motivação para que tu aproveitasse tudo com mais intensidade, mais felicidade. Não é minha culpa se existo, mas precisamos conversar. Dessa forma, cada contato que tivermos vai ser, pelo menos, indiferente. É um passo, não? Quem sabe eu não consigo te tirar um sorriso um dia?

A conversa foi interrompida quando a mãe do rapaz entrou no quarto, percebendo o filho sozinho, aparentemente pensativo. Na realidade, ele estava observando a garota pela janela, distanciando-se. Mas nunca o suficiente.

Fragmentos

maxresdefault

A casa de arquitetura antiga estava vazia. Dois homens ainda terminavam o serviço, devidamente vestidos com o uniforme da transportadora. Cada palavra que falavam reverberava por conta da ausência da mobília que por tanto tempo lá ficou.

– Falta muito pra você? – disse o rapaz de olhos levemente claros. Tinha em torno de vinte anos, e havia sido designado para a limpeza, já que seu porte físico ainda não era suficiente para grandes carregamentos.

– Não muito. – respondeu o senhor mais velho, que começava a sentir cada vez mais as dores no quadril. Carregava consigo um crucifixo no peito, mesmo que não fosse mais à igreja. – Falta só o quarto do casal.

– Deixa comigo – o novato quis mostrar serviço -, não deve ter muito o que limpar, é um lugar pequeno.

Dirigiu-se até o quarto. Nas paredes, as marcas de uma cama, um armário, algumas prateleiras retiradas e um pouco de mofo colorindo o bege. Fora isso, precisaria limpar somente um punhado de cacos de vidro no chão.

“Será que o pessoal derrubou algo?”, perguntou-se. Aproximou-se da parede próxima aos fragmentos e viu que havia uma marca profunda, pontiaguda. “Jogaram algum vidro na parede, que estranho. E parecem dois copos, tem duas bases quebradas”.

– Seu Gilberto! – gritou para o senhor na sala – Alguém veio aqui antes do casal morrer?

– Que eu saiba não, guri! – respondeu.

Seu trabalho não era investigar, então estendeu a mão para retirar os cacos e uma das pontas furou sua luva e machucou seu dedo. Sentiu, além da dor, uma tristeza profunda, súbita e inexplicável. Preocupou-se pouco com o dedo, pois em sua mente veio uma cena, como a de um filme, de dois copos sendo jogados, um após o outro. Algum choro ecoou em sua mente, e pode sentir a mágoa que aqueles copos continham. Dois, de fato. Eles haviam voado pelo ar alguns dias antes, levando consigo uma carga de coisas boas e ruins, e isso o jovem sentiu no fundo de seu coração, enquanto o sangue escorria do dedo.

Estático, o rapaz sentiu tudo em poucos segundos, até ser surpreendido pelo velho, que perguntou o que fazia ali. Respondeu explicando tudo conforme havia percebido e perguntou ao velho:

– Você acredita em fantasmas?

O velho Gilberto, experiente e com um meio sorriso por conta da surpresa do rapaz, respondeu.

– Sim, mas eles nada mais são do que fragmentos de uma vida, e não ela mesma. – agachou-se e estendeu o braço por cima do ombro do rapaz – Vamos recolher esse vidro pra reciclagem. Logo ele se tornará algo útil.

Desconstrução

crossroads-at-night-in-winter

Dois amigos andam lado a lado por uma rua. Mãos nos bolsos, mesmo com luvas de lã. Um deles, Márcio, havia acabado um longo relacionamento há pouco tempo e perdido o emprego ao qual havia dedicado parte da vida.

– Então, o que mais que ela disse? – o ar quente saía da boca de Osmar em forma de fumaça branca, contrastando com sua cor de pele.

– Nada. Ela só me enviou aquela mensagem no whatsapp. E só. – sacudiu a cabeça – Como que seis anos da vida do cara podem virar, tipo, duas frases?

– Bem, pode ser que ela esteja conf… – como sempre, fora interrompido por Márcio.

– Ela nem pra dizer um “tchau” ou “vai se foder”! – falou alto, ecoando através das casinhas geminadas que cercavam a rua. – Eu tenho certeza de que ela arranjou outro marmanjo pra deixar ela quentinha agora no inverno.

– Calma, calma. Pelo que conheço da Camilla ela deve ter um bom motivo pra ter feito dessa forma. – repousou a mão no ombro do amigo – A gente não tem o que merece, mas o que precisamos.

– É mesmo? Você vive falando isso, né? Mas então me responde: por que eu precisaria disso? Pra amadurecer? Pra entender como a decepção pode estar em qualquer imbecil que me cerca? Isso eu já sei, oras. – fechou a cara.

Diante da resposta acalorada do amigo, Osmar suspirou e tentou discorrer.

– De repente essa sensação que você tem agora no seu coração te leve adiante. Talvez vocês dois estivessem estagnados e precisassem repensar na vid…

– Que estagnado o quê, rapaz, nunca tive tão determinado e centrado pra fazer tudo o que eu tava sonhando. E a Camilla fazia parte disso, você sabe… vai me dizer agora que eu precisava tomar esse tufo pra aprender o que eu já sei? Não senhor. E sobre meu emprego, hem? Uma parte da vida me dedicando àqueles babacas pra ser demitido por conta de uma fofoca.

Foram atravessar a rua com cuidado: o gelo na pista podia fazer com que os carros derrapassem ou demorassem a frear repentinamente. No entanto, continuaram conversando.

– Desculpa, cara, mas eu vejo de outra forma. Nada que nos acontece é por acaso, tem um se… – disse Osmar.

– Não teria função nenhuma a vida simplesmente me tirar as coisas assim, certo? Não tenta me arranjar um sentido pra algo que não parece ter. Eu tenho que me focar é na causa dessas merdas todas, e não na possibilidade do acaso.

Osmar sentiu-se mal por talvez ter parecido proselitista, mas repensou que estava somente querendo ajudar. Márcio percebeu isso também, e desculpou-se:

– Me desculpe, eu sei que estou um pouco estressado por conta de tudo isso, é foda. Mas como é que eu vou…

Márcio que fora interrompido desta vez, mas não pela voz grave do amigo, mas por um forte barulho de metal e vidro estourando. Por menos de dois segundos, observou atônito o corpo do amigo batendo contra o capô e o para-brisa de um carro em alta velocidade, para, então, ser lançado ao ar por vários metros, terminando o trajeto aéreo com um estalo de ossos quebrando-se ao encontrar o chão violentamente.

Correu até o corpo imóvel do amigo enquanto ligava para a emergência. Estava vivo, apesar dos ferimentos graves, aparentemente na coluna vertebral. As botas de Márcio se tornaram uma ilha envolta no líquido vermelho que crescia rapidamente. Neste momento, percebeu que as coisas que aconteciam em sua vida nada tinham a ver com necessidade, merecimento ou acaso.

Era tudo obra da consequência das ações; ou de um leve empurrão. Márcio sabia que o amigo havia lhe roubado a esposa e o emprego.

 

 

Faminto

image

“É dito por sobreviventes de naufrágios que somente conhecemos alguém
quando esta pessoa estiver faminta. Eu só não sabia que essa fome, que transforma pessoas aparentemente serenas em animais, poderia se revelar através de qualquer coisa: da falta de comida, amor, sensações,  sentimentos e até mesmo de orgulho.

Você me deixou faminto.

Senti os impulsos mais primordiais da alma enrijecerem os músculos do meu coração quando você me deixou. Achei que te faria uma surpresa no restaurante chinês que sempre almoçamos, mas você sequer compareceu. A ligação veio logo em seguida, e não consegui conter as lágrimas em público. Sequer lembro como paguei a conta. Minha última lembrança daquele dia foi a de estar sentado na cama, um uísque no copo e as luzes do nosso apartamento completamente apagadas. Os relâmpagos iluminavam um marinheiro inexperiente diante de uma tempestade invencível de sentimentos.

Eu ainda imaginei que encontraria uma salvação ao ligar para seu telefone àquela hora da madrugada, mas eu estava enganado. Tudo pareceu confuso e eu não sabia mais como velejar em águas que por onde há muito tempo não visitava. Naufraguei.

Você me deu algo que há muito eu não sentia, e me perdi no mar revolto. Acordei com o líquido expulso pela boca, numa cama arenosa que parecia estéril o suficiente para despertar a fome de um amor que eu sei que nunca será meu, e, assim como um estômago que não cessa em roncar, meu coração irá arder para sempre. Eu sei como passar essa dor. Espero que você me desculpe por ter entendido errado tuas palavras e ações.

Me desculpe pelo que vou fazer agora.”

Estava escrito no bilhete que caiu da mão do corpo suspenso no ar por uma corda. O náufrago havia tomado a decisão mais comum entre os sobreviventes à deriva. E foi seu maior erro.

A fome estava extinta junto com o amor.