Drama

Xiukong

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Tudo poderia estar se movendo em câmera lenta, mas não está. O tempo corre, a vida segue e tudo continua.

As crianças se amontoam perto das poças, tentando enxergar o que aconteceu. No espaço entre um repórter e outro, vislumbram um pouco da situação: um braço estendido, junto ao corpo imóvel. Os cliques das máquinas fotográficas combinam com o barulho leve da chuva, e os flashes não incomodam os olhos daquele que está no centro das atenções, dentro cordão policial aguardando o lençol branco.

Para os policiais, mais um dia comum no subúrbio carioca. Para mim, o meu fim.

 

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Visita

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– Oi! Cheguei numa hora ruim? – perguntou a garota esgueirando a cabeça pela fresta da porta.

– Nunca é uma boa hora, né. Mas entra aí… – Disse o rapaz enquanto continuava a ler o livro gigantesco, que relatava todas histórias de um mundo de fantasia.

Fechou o livro, girou a cadeira e viu a sua frente a garota. Jovem adulta, de cabelos longos e negros, olhos de mesma cor e pele escura. Sua roupa discreta contrastava com a maquiagem carregada no lápis de olho.

– Você sabe quem eu sou, não? – ela novamente.

– Acho que sei, sim. Já é a hora então?  – o rapaz estica as costas, notavelmente com uma dor na cervical, escondendo o nervosismo aterrador.

– Ainda não, mas vim aqui conversar contigo. Sair do “mundo dos sussurros”, sabe? Ainda mais por que a última vez que conversamos faz o quê? Doze anos? Dezesseis?

“Quase dezoito mês que vem”, ele corrigiu. E disse:

– Acho que por conta de tanto tempo com esses “sussurros”, que sempre tive tanto pânico em te encontrar. – sem ser grosseiro, mas ainda decidido a ir direto ao assunto, solicitou – O que você quer?

– Eu nunca quero nada, você sabe. Eu simplesmente existo. Vim aqui porque algo está acontecendo aí dentro de você. Eu sei disso e eu sei que é em relação à mim. – sorriu, parecendo simpática.

– É…é verdade. Não é fácil ficar assim tão próximo de você, mas… eu sei que essa conversa vai ser definitiva um dia. É hoje? – mais uma vez, ele extremamente nervoso.

– Não – ela sorriu; ele não -, mas eu preciso fazer as pazes com você, eu…

– Impossível. – ele interrompeu – Cada vez mais é impossível te entender e te aceitar na minha vida, mesmo que distante. Você parece estar sempre perto. Demais. E quando eu acho que está tudo bem, você está num quadro, na internet, na porta da minha casa, toda vez que eu fecho os olhos para dormir. Como fazer as pazes com algo que me perturba a todo momento, que me faz querer chorar e pensar que, invariavelmente do que eu fizer, uma hora eu vou… – a boca contorceu-se e os olhos ficaram úmidos.

– Me desculpe. Eu achei que eu era uma motivação para que tu aproveitasse tudo com mais intensidade, mais felicidade. Não é minha culpa se existo, mas precisamos conversar. Dessa forma, cada contato que tivermos vai ser, pelo menos, indiferente. É um passo, não? Quem sabe eu não consigo te tirar um sorriso um dia?

A conversa foi interrompida quando a mãe do rapaz entrou no quarto, percebendo o filho sozinho, aparentemente pensativo. Na realidade, ele estava observando a garota pela janela, distanciando-se. Mas nunca o suficiente.

Fragmentos

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A casa de arquitetura antiga estava vazia. Dois homens ainda terminavam o serviço, devidamente vestidos com o uniforme da transportadora. Cada palavra que falavam reverberava por conta da ausência da mobília que por tanto tempo lá ficou.

– Falta muito pra você? – disse o rapaz de olhos levemente claros. Tinha em torno de vinte anos, e havia sido designado para a limpeza, já que seu porte físico ainda não era suficiente para grandes carregamentos.

– Não muito. – respondeu o senhor mais velho, que começava a sentir cada vez mais as dores no quadril. Carregava consigo um crucifixo no peito, mesmo que não fosse mais à igreja. – Falta só o quarto do casal.

– Deixa comigo – o novato quis mostrar serviço -, não deve ter muito o que limpar, é um lugar pequeno.

Dirigiu-se até o quarto. Nas paredes, as marcas de uma cama, um armário, algumas prateleiras retiradas e um pouco de mofo colorindo o bege. Fora isso, precisaria limpar somente um punhado de cacos de vidro no chão.

“Será que o pessoal derrubou algo?”, perguntou-se. Aproximou-se da parede próxima aos fragmentos e viu que havia uma marca profunda, pontiaguda. “Jogaram algum vidro na parede, que estranho. E parecem dois copos, tem duas bases quebradas”.

– Seu Gilberto! – gritou para o senhor na sala – Alguém veio aqui antes do casal morrer?

– Que eu saiba não, guri! – respondeu.

Seu trabalho não era investigar, então estendeu a mão para retirar os cacos e uma das pontas furou sua luva e machucou seu dedo. Sentiu, além da dor, uma tristeza profunda, súbita e inexplicável. Preocupou-se pouco com o dedo, pois em sua mente veio uma cena, como a de um filme, de dois copos sendo jogados, um após o outro. Algum choro ecoou em sua mente, e pode sentir a mágoa que aqueles copos continham. Dois, de fato. Eles haviam voado pelo ar alguns dias antes, levando consigo uma carga de coisas boas e ruins, e isso o jovem sentiu no fundo de seu coração, enquanto o sangue escorria do dedo.

Estático, o rapaz sentiu tudo em poucos segundos, até ser surpreendido pelo velho, que perguntou o que fazia ali. Respondeu explicando tudo conforme havia percebido e perguntou ao velho:

– Você acredita em fantasmas?

O velho Gilberto, experiente e com um meio sorriso por conta da surpresa do rapaz, respondeu.

– Sim, mas eles nada mais são do que fragmentos de uma vida, e não ela mesma. – agachou-se e estendeu o braço por cima do ombro do rapaz – Vamos recolher esse vidro pra reciclagem. Logo ele se tornará algo útil.

Desconstrução

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Dois amigos andam lado a lado por uma rua. Mãos nos bolsos, mesmo com luvas de lã. Um deles, Márcio, havia acabado um longo relacionamento há pouco tempo e perdido o emprego ao qual havia dedicado parte da vida.

– Então, o que mais que ela disse? – o ar quente saía da boca de Osmar em forma de fumaça branca, contrastando com sua cor de pele.

– Nada. Ela só me enviou aquela mensagem no whatsapp. E só. – sacudiu a cabeça – Como que seis anos da vida do cara podem virar, tipo, duas frases?

– Bem, pode ser que ela esteja conf… – como sempre, fora interrompido por Márcio.

– Ela nem pra dizer um “tchau” ou “vai se foder”! – falou alto, ecoando através das casinhas geminadas que cercavam a rua. – Eu tenho certeza de que ela arranjou outro marmanjo pra deixar ela quentinha agora no inverno.

– Calma, calma. Pelo que conheço da Camilla ela deve ter um bom motivo pra ter feito dessa forma. – repousou a mão no ombro do amigo – A gente não tem o que merece, mas o que precisamos.

– É mesmo? Você vive falando isso, né? Mas então me responde: por que eu precisaria disso? Pra amadurecer? Pra entender como a decepção pode estar em qualquer imbecil que me cerca? Isso eu já sei, oras. – fechou a cara.

Diante da resposta acalorada do amigo, Osmar suspirou e tentou discorrer.

– De repente essa sensação que você tem agora no seu coração te leve adiante. Talvez vocês dois estivessem estagnados e precisassem repensar na vid…

– Que estagnado o quê, rapaz, nunca tive tão determinado e centrado pra fazer tudo o que eu tava sonhando. E a Camilla fazia parte disso, você sabe… vai me dizer agora que eu precisava tomar esse tufo pra aprender o que eu já sei? Não senhor. E sobre meu emprego, hem? Uma parte da vida me dedicando àqueles babacas pra ser demitido por conta de uma fofoca.

Foram atravessar a rua com cuidado: o gelo na pista podia fazer com que os carros derrapassem ou demorassem a frear repentinamente. No entanto, continuaram conversando.

– Desculpa, cara, mas eu vejo de outra forma. Nada que nos acontece é por acaso, tem um se… – disse Osmar.

– Não teria função nenhuma a vida simplesmente me tirar as coisas assim, certo? Não tenta me arranjar um sentido pra algo que não parece ter. Eu tenho que me focar é na causa dessas merdas todas, e não na possibilidade do acaso.

Osmar sentiu-se mal por talvez ter parecido proselitista, mas repensou que estava somente querendo ajudar. Márcio percebeu isso também, e desculpou-se:

– Me desculpe, eu sei que estou um pouco estressado por conta de tudo isso, é foda. Mas como é que eu vou…

Márcio que fora interrompido desta vez, mas não pela voz grave do amigo, mas por um forte barulho de metal e vidro estourando. Por menos de dois segundos, observou atônito o corpo do amigo batendo contra o capô e o para-brisa de um carro em alta velocidade, para, então, ser lançado ao ar por vários metros, terminando o trajeto aéreo com um estalo de ossos quebrando-se ao encontrar o chão violentamente.

Correu até o corpo imóvel do amigo enquanto ligava para a emergência. Estava vivo, apesar dos ferimentos graves, aparentemente na coluna vertebral. As botas de Márcio se tornaram uma ilha envolta no líquido vermelho que crescia rapidamente. Neste momento, percebeu que as coisas que aconteciam em sua vida nada tinham a ver com necessidade, merecimento ou acaso.

Era tudo obra da consequência das ações; ou de um leve empurrão. Márcio sabia que o amigo havia lhe roubado a esposa e o emprego.

 

 

Faminto

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“É dito por sobreviventes de naufrágios que somente conhecemos alguém
quando esta pessoa estiver faminta. Eu só não sabia que essa fome, que transforma pessoas aparentemente serenas em animais, poderia se revelar através de qualquer coisa: da falta de comida, amor, sensações,  sentimentos e até mesmo de orgulho.

Você me deixou faminto.

Senti os impulsos mais primordiais da alma enrijecerem os músculos do meu coração quando você me deixou. Achei que te faria uma surpresa no restaurante chinês que sempre almoçamos, mas você sequer compareceu. A ligação veio logo em seguida, e não consegui conter as lágrimas em público. Sequer lembro como paguei a conta. Minha última lembrança daquele dia foi a de estar sentado na cama, um uísque no copo e as luzes do nosso apartamento completamente apagadas. Os relâmpagos iluminavam um marinheiro inexperiente diante de uma tempestade invencível de sentimentos.

Eu ainda imaginei que encontraria uma salvação ao ligar para seu telefone àquela hora da madrugada, mas eu estava enganado. Tudo pareceu confuso e eu não sabia mais como velejar em águas que por onde há muito tempo não visitava. Naufraguei.

Você me deu algo que há muito eu não sentia, e me perdi no mar revolto. Acordei com o líquido expulso pela boca, numa cama arenosa que parecia estéril o suficiente para despertar a fome de um amor que eu sei que nunca será meu, e, assim como um estômago que não cessa em roncar, meu coração irá arder para sempre. Eu sei como passar essa dor. Espero que você me desculpe por ter entendido errado tuas palavras e ações.

Me desculpe pelo que vou fazer agora.”

Estava escrito no bilhete que caiu da mão do corpo suspenso no ar por uma corda. O náufrago havia tomado a decisão mais comum entre os sobreviventes à deriva. E foi seu maior erro.

A fome estava extinta junto com o amor.

 

 

 

Uma última noite

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Apagou o cigarro no parapeito da janela, e ficou observando o movimento da cidade grande às dezoito e trinta. Virou para trás e viu a bela garota dormindo. Sorriu com um canto da boca e apertou o pescoço, massageando-o com as mãos. Foi até a geladeira e abriu uma lata de cerveja, algo que sempre fazia quando acordava tarde no meio da semana. Ela, então, acordou com o barulho e sentou-se na cama enquanto vestia o sutiã. As marcas do travesseiro ainda estavam em seu rosto, avermelhando sua pele clara.

– Bom dia, amor. – disse.

– Boa noite, você quer dizer – a garota esticou os braços – Que horas são? Está na hora já?

– Sim, está chegando a hora…mas eu não consegui te acordar. Estava descansando tão profundamente.

– Estou muito cansada da última noite, mas queria que tivesse me acordado. Fique mais um pouco, por favor…

– Você sabe que eu preciso voltar. Não faça ser mais difícil do que já é.

A garota abaixou a cabeça, agarrou o lençol com força e mordeu o lábio sem que ele percebesse e respondeu.

– Sei sim…Mas você…vai vir de novo?

– Prometo que vou tentar. Você sabe que eu sou a única exceção de lá, não é? Não posso abusar muito da boa vontade dele. De qualquer maneira essa não vai ser a última vez que vamos ficar juntos, você precisa tocar sua vida independente de mim, já faz… tanto tempo.

– Não seria mais fácil se eu já fosse com você?

–  Já te falei, se você for não conseguiremos ficar juntos. Eu até poderia pedir, mas seria uma exceção da exceção. Muito improvável.

A garota não conseguiu segurar as lágrimas e, como todas as outras vezes, chorou.

Ele repousou as mãos em seus ombros e beijou-lhe a testa.

– Calma. Basta termos paciência. Ele nos deu esse tempo por algum motivo.

Abraçaram-se forte, e gradualmente ela foi sentindo o corpo do rapaz esvair-se, até que finalmente desapareceu por completo em seus braços. Chorou como a primeira vez que havia chorado por ele, no entanto, dessa vez não havia um velório, mas a esperança de que a morte a levasse o quanto antes.

Folhas Secas

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Ambos atravessavam o parque juntos, como há algum tempo já trilhavam ao voltar do colégio. Nove anos de idade eram suficientes para que fizessem sozinhos o trajeto, até mesmo porque moravam em casas vizinhas. Fazia um outono ventoso e frio, diferente do ano passado em que o calor do verão quase não cessara até o início do inverno.

– Como você está, Guilherme? – perguntou Luisa após um silêncio incomum que havia durado metade do caminho.

– Bem…Eu acho. Mas ainda me sinto estranho, sabe? – mantinha o olhar para baixo, observando as folhas caídas, secas em variados e belos tons de laranja. – Parece que ele ainda está lá na casa dele cuidando dos pássaros, esperando a vó terminar o café pra continuar contando as histórias de quando era mais novo.

O vento entoou um lamento enquanto a garota tentava pensar em algo positivo para falar.

– Mas ele está num lugar melhor, Gui. – era envergonhada, mas o carinho que tinha pelo amigo era maior. Envolveu-o com o braço enquanto caminhavam – Tá lá em cima com os anjinhos, contando todas as histórias pra eles.

– Como você sabe disso?

– Eu acredito, ué. Pelo menos é o que a minha mãe me falou quando morreu o Billi.

– Meu vô não cachorro… – sorriu, mas voltou à expressão séria quando pensou um pouco mais – Aliás, não era um cachorro. Não sei ao certo o que achar de tudo isso de céu e deus. Parece história de nenê.

Luisa não largou o amigo, ainda mais porque se aqueciam com o abraço. Não sabia direito, mas estava corada.

– Ué! Por quê? É que nem as férias do colégio. Acho que as pessoas descansam no céu depois de viver um tempo. – olhou a sua volta o belo parque, procurando uma metáfora – Por exemplo, olha essas folhas aí no chão. Elas estão caindo pra que depois nasça uma árvore toda bonita na primavera.

– Nisso você tenha razão: Tudo morre.

Talvez a colocação da menina tenha sido contraproducente. Pelo menos era o que ela pensou naquele momento. Queria ter consolado o amigo e acabou por deixá-lo pior, e talvez até incutido uma certa culpa em ele estar no lado oposto a seu avô na balança da vida. Ela estava certa: Guilherme achara que era a folha da primavera, e que seu avô morrera para que ele pudesse florescer.

Parou o menino e roubou-lhe um beijo, seguido de um sorriso. Ele retribuiu em silêncio, sorrindo com ternura, mas já havia tomado sua decisão. Não enxergava mais sentido em viver a primavera se o outono viria no ano seguinte.