Crônica

Santificado seja o nosso ódio

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Os que me conhecem bastante sabem que não sou ateu, mas imagino que todos percebam que não sou religioso – ou “espiritualizado” como dizem por aí. Acredito na liberdade de que cada um deve crer no que achar melhor para si, desde que tal crença não interfira – como qualquer outro direito pessoal – na vida das outras pessoas, seja impondo o proselitismo, discriminando minorias e aqueles que não pensam da mesma maneira, ou até mesmo expressando ódio disfarçado de opinião.

Tenho uma péssima mania – que acaba sempre por despertar crises de ansiedade – de assistir a vídeos reais de morticínio. Sou avesso à prática de qualquer tipo de violência e tampouco tenho vocação para psicopata ou serial killer: minha curiosidade quando assisto a tal material se concentra na observação da falta de limites do ser humano, dos extremos que o ser humano alcança quando é capaz de transformar seu semelhante em um pedaço de carne desfigurada. Das motivações mais banais às mais “sérias” ruímos de uma consciência civilizada ao mais cru do irracional, proporcionando cenas que, em tempos de relativa paz que vivemos, não somos acostumados a observar tão de perto.

Ontem assisti a uma compilação que mostra revolucionários iraquianos fuzilando carros em alta velocidade, como nos filmes de ação. Dessa vez, no entanto, são mostrados os corpos agonizantes dos passageiros a recém massacrados, sob o dito constante das palavras “Allah Akbar”. Não é a primeira vez que ouço esses dizeres em enforcamentos, fuzilamentos, explosões suicidas, etc. cometidos por extremistas islâmicos e quer dizer “Deus é grande”. Tais dizeres tem o nome de Takbir, que é proferido em ocasiões da felicidade à justiça, ou da tristeza à guerra.

Obviamente o islamismo não é culpado por suas maçãs podres, bem como o ateísmo  não é pelo massacre Stalinista ou Jesus pela inquisição, mas ao presenciar cenas de tão extrema violência combinadas a palavras que deveriam ser o refúgio da bondade do ser humano é severamente entristecedor. Se a brutalidade pudesse ser justificada, eu creio que posicionamentos políticos ou revoluções sociais registrem atos de violência e  barbárie de maneira mais compreensível do que o ódio religioso. A crença é criada para harmonizar a pessoa com sua(s) deidade(s), e geralmente carrega palavras de sabedoria, civilidade e amor para com seus semelhantes, mesmo que haja passagens em seus guias e livros já defasadas e até mesmo inadequadas, tem-se na atual civilidade a habilidade de selecionar joio do trigo e concentrar a fé no lado benéfico da crença.

É utópico pensar que um dia poderemos coexistir sem ódio religioso, já que os extremos surgem onde a ignorância e o desamparo nascem. Se há alguma coisa acima de nós – seja um velhinho, ou uma legião de deuses – que venha de uma vez e mostre  sem meias palavras, pistas ou sinais que todos estão lutando pelo que já temos: a vida.

 

 

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Tenho me ausentado por conta de um projeto pessoal. Mas não larguei de mão essa bagaça para sempre. =)

Pra quem tem estômago forte  mas curiosidade sobre o vídeo que me fez pensar o texto acima, aqui vai: LINK

 

O Primeiro Ano

Isso não é um conto, mas sim  algumas declarações sobre esse ano dificilmente maravilhoso que foi 2013.

Findado 2012, as rasas oportunidades de Porto Alegre, bem como uma ótima oportunidade de mudar a vida, nos levou a migrar para a Ilha da Magia. Num esquema meio Lost, sobrevivemos a dificuldades de toda sorte. Os planos que tínhamos em mente foram modificados bruscamente, mas perseveramos com louvor. Num verão majestoso de tantas praias, elas eram a única maneira de fazer algo fora do comum, já que não custavam muito mas proporcionavam aventuras e muita diversão. Vida de reis pobres: Nobreza destituída, mas vontade de reinar absurda. Alguns projetos começaram com bastante vontade, como a Bulldozer ou mesmo esse blog de contos, mas a minha ambição de ir além profissionalmente e ter uma renda estável fizeram com que tais planos fossem adiados (mesmo sendo um preguiçoso do carvalho).

Um ano que pode ser definido como o Ano do Coração Valente, já que decidimos urrar para tudo e todos um grito de liberdade. Agora estamos nós por nós. A Família, que é o nosso mais importante valor absoluto, começou a transformar seu próprio conceito quando viemos sozinhos para começar a nossa própria.

Um Feliz 2014 para todos que me cercam, mesmo que não fisicamente, para que coloquem pra fora seus gritos de liberdade, seja através de um projeto, de um passo além, ou de uma simples mudança de pensamento.

=)

Casamento Gay e Direitos Civis

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Eu não aguento mais essa bobagem do casamento gay. Não que eu seja contra, pelo contrário, mas a onda de burburinho (ou “burburão”) que isso causou, ainda mais com a aprovação da Lei na França e com os cartórios brasileiros autorizados a oficializar uniões civis, é inacreditável

Julgue-me por isso, mas eu sou um assíduo frequentador dos comentários do portal G1, e fico abismado com o tipo de comentários que rola por lá. Mmesmo sabendo que uma parte é “troll”, me assusta a intolerância e a cegueira das pessoas.  A maioria argumenta-se contra por religião, por “não ser natural” ou por simplesmente não gostar de ver dois gays (por mais que adore um pornôzinho de lésbicas, mas enfim). A maioria não se acha homofóbico, e, os que se acham, se esquecem que só temos liberdade para pensarmos o que quisermos porque, lá atrás, alguém lutou para isso.

Os religiosos podem achar desculpas no livro e nas palavras de quem quiserem, pois uma coisa sobre o casamento é fato: Ele não é uma cerimônia religiosa. Se o religioso tem a escolha de ser de tal religião, é porque alguém garante que isso aconteça. E quem é esse alguém? O ESTADO. E quem são as pessoas que dão poder a esse ESTADO, para que, para elas mesmas, sejam garantidas direitos, sob a troca de deveres? O CIDADÃO.

Pois bem, partindo de que o ESTADO beneficia e é beneficiado pelo CIDADÃO, requerindo-lhe seus deveres (seguir a lei, pagar impostos, etc.) e lhe dando seus direitos (liberdade religiosa, união estável, casamento civil, saúde, educação, etc.) por que um CIDADÃO, que cumpre todos os seus deveres, tem seu direito (inalienável por ser cidadão) negado pelo estado, sob justificativa de ter um gosto pessoal diferente o usual?

Gosto, assim como religião, são reconhecidas pela liberdade civil, como valores estritamente pessoais e, ao menos que fira as leis do Estado, o mesmo não pode interferir (Ou seja, aquela falácia de que “em breve vai ser possível casar com crianças”, cai por água, pois pedofilia está entre as leis do estado).

O que precisamos ter em mente é que para que tenhamos LIBERDADE, temos que semear o princípio fundamental da IGUALDADE, dando direitos CIVIS àqueles que contribuem como cidadãos, e utilizarmos a FRATERNIDADE para aceitar que a homossexualidade não é demérito, mas simplesmente, um gosto diferente do seu.