Autor: David schneider

Xiukong

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Tudo poderia estar se movendo em câmera lenta, mas não está. O tempo corre, a vida segue e tudo continua.

As crianças se amontoam perto das poças, tentando enxergar o que aconteceu. No espaço entre um repórter e outro, vislumbram um pouco da situação: um braço estendido, junto ao corpo imóvel. Os cliques das máquinas fotográficas combinam com o barulho leve da chuva, e os flashes não incomodam os olhos daquele que está no centro das atenções, dentro cordão policial aguardando o lençol branco.

Para os policiais, mais um dia comum no subúrbio carioca. Para mim, o meu fim.

 

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Ingredientes

Ele trabalhava por vinte e quatro horas seguidas no necrotério do Hospital Santa Ana, em Santos. Folgava dois dias, e gostava de usar esse tempo para cozinhar para a família. Os filhos chegavam perto das dezoito horas e a esposa geralmente às dezenove. Pela manhã ia ao supermercado comprar os temperos e salada para complementar os pratos. Fazia bastante para que a mulher levasse de marmita para o serviço, e sempre cozinhava pratos requintados.

No entanto, enquanto estava no trabalho, esquentava um cup noodles e comia observando os cadáveres, sugando vez ou outra o macarrão que boiava na água quente. Olhou para as coxas de um dos corpos, para a nádega de outro e para o braço gordo de uma senhora. Nenhum fedia, pois eram realmente frescos. Era quase três da manhã e estava praticamente sozinho no andar inteiro: era uma noite calma de terça-feira. Jogou fora o copo com o macarrão pela metade e pegou o bisturi.

No dia seguinte estava refogando vários vegetais, com um sorriso no rosto. A esposa chegou e sentiu o cheiro agradável no ar. A cenoura e o repolho crepitavam com o óleo e a cebola já dava sinais de estar quase transparente. Juntou tudo com molho barbecue e derramou sobre o bife mal passado que continha uma pequena casquinha crocante, empanada.

– Amor, o que é essa casquinha crocante? Está ótima! – perguntou a esposa.

– Pele. – respondeu, pensando que não compraria mais carne.

Limbo

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A figura rotunda, sentada em um banco de carvalho seco e carcomido, esperava não sabia direito o quê. Sentia-se compelida a ali permanecer, mesmo que fosse uma poderosa Entidade. Talvez fossem os tantos anos de árdua e cansativa jornada a pesarem em suas costas, ou então os diversos acordos e laços que tramou com criaturas vis e perniciosas que o mantinham ali. Estava se enganando: havia um só ser por detrás de sua tediosa tarefa, e ela não cederia liberdade tão cedo.

Ao longe, vindo das brumas e por entre mesas onde almas emulavam seus comportamentos sociais em vida, uma criatura esguia e envelhecida arrastava um laço pelo chão, carregando algo tão pequeno quanto uma caixa de fósforos. Sentou-se ao lado da Entidade ociosa e lhe sussurrou:

– Eu lhe enxergo, senhor… – a língua arranhava os dentes.

– O que você quer? O que é isso que traz consigo, uma caixa de fósforos? – de fato era muito parecido.

– Eu lhe digo… é uma caixa. – sussurrou.

– O que eu posso fazer para que você vá embora? – perguntou aquele que aguardava, irritadiço.

– Eu somente posso me esvanecer com uma… aposta. – os dedos esqueléticos trincavam quando o ser apertou o laço. – Valendo uma porção de sua vilessessência. 

Era um preço alto pois tal substância é angariada com o sofrimento de inúmeras almas. No entanto, para ver-se livre da criatura, coloca-a em jogo aceitando a aposta.

– Faço uma pergunta, e você a responde… caso esteja correto, você toma minha vilessência. Caso contrário, eu… -foi interrompido pelo rotundo.

– Eu sei, demônio. Apressa essa maldição que seu odor está me causando pústulas.

– Eu lhe pergunto: O que é de minha posse, mas é plena e vastamente utilizado por meus acólitos?

Diante do questionamento, a entidade pensou. Tentou fazer conexões com artefatos há muito esquecidos; a guerras infindáveis entre céu e inferno, onde era possível extrair as lamúrias e gritos de horror e embutir em pedras preciosas dadas aos mortais para invocar demônios, mas… nada que pudesse estar em posse de uma criatura tão baixa quanto a que estava a seu lado. Aquele apostador nada mais era do que um espírito ancestral perdido, equivalente aos mendigos e malucos do mundo terreno. No entanto, a Entidade estagnada desistiu.

A criatura sugou-lhe a porcentagem de vilessência e vagarosamente levantou-se. Antes que pudesse partir, foi questionado sobre a resposta.

– A resposta? – perguntou o espírito ancestral – É claro como a luz, meu Senhor. O que é de minha posse e quase não utilizo é meu próprio nome. Foste débil em seu julgamento, somente por crer que sou um louco.

A Entidade não conseguia levantar-se do banco por ora, mas tentou apanhar o pescoço do espírito, que sumiu por entre a névoa cinza, carregando seu laço envolvido em uma caixa.

Consternada, a entidade voltou-se para si mesmo, como se falasse para alguém o breve desabafo. Olhou ao seu redor – a paisagem assemelhava-se muito a uma praça – e falou consigo mesmo, lembrando de suas lembranças longínquas de uma vida que praticamente esquecera:

– Eu aqui…nesse meu velho e querido banco… por quê? – estendeu os braços, repetindo um movimento automático – A praça é nossa…. ela é muito nossa.

Visita

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– Oi! Cheguei numa hora ruim? – perguntou a garota esgueirando a cabeça pela fresta da porta.

– Nunca é uma boa hora, né. Mas entra aí… – Disse o rapaz enquanto continuava a ler o livro gigantesco, que relatava todas histórias de um mundo de fantasia.

Fechou o livro, girou a cadeira e viu a sua frente a garota. Jovem adulta, de cabelos longos e negros, olhos de mesma cor e pele escura. Sua roupa discreta contrastava com a maquiagem carregada no lápis de olho.

– Você sabe quem eu sou, não? – ela novamente.

– Acho que sei, sim. Já é a hora então?  – o rapaz estica as costas, notavelmente com uma dor na cervical, escondendo o nervosismo aterrador.

– Ainda não, mas vim aqui conversar contigo. Sair do “mundo dos sussurros”, sabe? Ainda mais por que a última vez que conversamos faz o quê? Doze anos? Dezesseis?

“Quase dezoito mês que vem”, ele corrigiu. E disse:

– Acho que por conta de tanto tempo com esses “sussurros”, que sempre tive tanto pânico em te encontrar. – sem ser grosseiro, mas ainda decidido a ir direto ao assunto, solicitou – O que você quer?

– Eu nunca quero nada, você sabe. Eu simplesmente existo. Vim aqui porque algo está acontecendo aí dentro de você. Eu sei disso e eu sei que é em relação à mim. – sorriu, parecendo simpática.

– É…é verdade. Não é fácil ficar assim tão próximo de você, mas… eu sei que essa conversa vai ser definitiva um dia. É hoje? – mais uma vez, ele extremamente nervoso.

– Não – ela sorriu; ele não -, mas eu preciso fazer as pazes com você, eu…

– Impossível. – ele interrompeu – Cada vez mais é impossível te entender e te aceitar na minha vida, mesmo que distante. Você parece estar sempre perto. Demais. E quando eu acho que está tudo bem, você está num quadro, na internet, na porta da minha casa, toda vez que eu fecho os olhos para dormir. Como fazer as pazes com algo que me perturba a todo momento, que me faz querer chorar e pensar que, invariavelmente do que eu fizer, uma hora eu vou… – a boca contorceu-se e os olhos ficaram úmidos.

– Me desculpe. Eu achei que eu era uma motivação para que tu aproveitasse tudo com mais intensidade, mais felicidade. Não é minha culpa se existo, mas precisamos conversar. Dessa forma, cada contato que tivermos vai ser, pelo menos, indiferente. É um passo, não? Quem sabe eu não consigo te tirar um sorriso um dia?

A conversa foi interrompida quando a mãe do rapaz entrou no quarto, percebendo o filho sozinho, aparentemente pensativo. Na realidade, ele estava observando a garota pela janela, distanciando-se. Mas nunca o suficiente.

Fragmentos

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A casa de arquitetura antiga estava vazia. Dois homens ainda terminavam o serviço, devidamente vestidos com o uniforme da transportadora. Cada palavra que falavam reverberava por conta da ausência da mobília que por tanto tempo lá ficou.

– Falta muito pra você? – disse o rapaz de olhos levemente claros. Tinha em torno de vinte anos, e havia sido designado para a limpeza, já que seu porte físico ainda não era suficiente para grandes carregamentos.

– Não muito. – respondeu o senhor mais velho, que começava a sentir cada vez mais as dores no quadril. Carregava consigo um crucifixo no peito, mesmo que não fosse mais à igreja. – Falta só o quarto do casal.

– Deixa comigo – o novato quis mostrar serviço -, não deve ter muito o que limpar, é um lugar pequeno.

Dirigiu-se até o quarto. Nas paredes, as marcas de uma cama, um armário, algumas prateleiras retiradas e um pouco de mofo colorindo o bege. Fora isso, precisaria limpar somente um punhado de cacos de vidro no chão.

“Será que o pessoal derrubou algo?”, perguntou-se. Aproximou-se da parede próxima aos fragmentos e viu que havia uma marca profunda, pontiaguda. “Jogaram algum vidro na parede, que estranho. E parecem dois copos, tem duas bases quebradas”.

– Seu Gilberto! – gritou para o senhor na sala – Alguém veio aqui antes do casal morrer?

– Que eu saiba não, guri! – respondeu.

Seu trabalho não era investigar, então estendeu a mão para retirar os cacos e uma das pontas furou sua luva e machucou seu dedo. Sentiu, além da dor, uma tristeza profunda, súbita e inexplicável. Preocupou-se pouco com o dedo, pois em sua mente veio uma cena, como a de um filme, de dois copos sendo jogados, um após o outro. Algum choro ecoou em sua mente, e pode sentir a mágoa que aqueles copos continham. Dois, de fato. Eles haviam voado pelo ar alguns dias antes, levando consigo uma carga de coisas boas e ruins, e isso o jovem sentiu no fundo de seu coração, enquanto o sangue escorria do dedo.

Estático, o rapaz sentiu tudo em poucos segundos, até ser surpreendido pelo velho, que perguntou o que fazia ali. Respondeu explicando tudo conforme havia percebido e perguntou ao velho:

– Você acredita em fantasmas?

O velho Gilberto, experiente e com um meio sorriso por conta da surpresa do rapaz, respondeu.

– Sim, mas eles nada mais são do que fragmentos de uma vida, e não ela mesma. – agachou-se e estendeu o braço por cima do ombro do rapaz – Vamos recolher esse vidro pra reciclagem. Logo ele se tornará algo útil.

O Urso e o Coelho

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Há muitos milênios atrás ( mais do que poderíamos registrar com exatidão), a China era um lugar exótico, onde a magia escondia-se em cada uma das árvores, recantos e nascentes de suntuosos rios. Em uma pequena vila morava um garoto, Xin Hao (心好), que desde pequeno se aventurava nas águas do Yangtze com uma pequena embarcação.

O menino geralmente explorava plantações, vilarejos vizinhos e criadouros de aves.  Certa vez, correndo atrás de uma galinha, acabou próximo à região dos bambuzais – lugar conhecido por ser lar de ursos panda – tropeçando em uma pedra. Rolou morro abaixo e estatelou-se no centro da floresta composta pelo alimento dos ferozes animais. Levantou do impacto ainda zonzo, mas ouvia nitidamente os rosnados nas imediações. Engatinhou até encontrar uma pequena caverna: esconder-se-ia até os barulhos ferais tornarem-se  mais distantes.

Esperou por uma hora, até que ouviu um grunhido triste no fundo da caverna. Cautelosamente, e movido pela curiosidade, Xin Hao vislumbrou o coração da formação rochosa: uma luz vinha do alto, formando um círculo de sol rodeado de penumbra. No centro deste círculo, um urso de pelagem totalmente branca estava sentado como um ser humano, com os braços cruzados em frente ao peito. Parecia meditar, mas abriu o olho direito assim que percebeu a aproximação do garoto.

– Quem é você? – perguntou o urso, com voz morosa e um tanto lúgubre.

– Ahm…eu… meu nome é Xin Hao, senhor. Devo chamá-lo de senhor, não? – por mais que hoje nos pareça estranho, nesta época os animais falantes eram concebíveis, mesmo que raros.

– Pode me chamar por meu nome, Jin Yin (隐金) . – levantou-se calmamente, revelando um ferimento no tórax. – É um prazer conhecer um humano tão corajoso a ponto de entrar em nossas terras.

Com um ar convencido, o menino estufou o peito e gabou-se do feito. No entanto, ao olhar a expressão de tristeza no olhar de Jin Yin, compadeceu e perguntou-lhe o motivo dele estar ali, separado dos outros pandas.

– Fui exilado porque não sou um panda perfeito, percebe? – o urso deu uma volta completa, mostrando a pelagem sem nenhuma mancha negra – Não me deixarão sair deste círculo mágico até que eu me torne como um deles. – disse, com lágrimas nos olhos profundos.

– Foram eles que lhe machucaram? – perguntou o garoto, impressionado com a ferida ensanguentada.

– Me machucaram a vida toda, na esperança de que por cima do ferimento crescesse uma pelagem negra, mas nunca aconteceu. – respondeu Jin Yin – Mas este aqui que você vê…fui eu que fiz. Talvez a pele que cicatrizar vai formar uma pelagem negra, como tanto tentaram. Ou talvez me leve embora e acabe com esse tormento. – o urso passou as patas nos arredores do ferimento, ficando evidente que suas garras haviam feito o estrago.

Após alguns minutos de silêncio, Xin Hao quebrou-o iniciando o relato de suas inúmeras aventuras por entre os vilarejos. Contou ao urso sobre o reflexo das montanhas no Rio Yangtze, dos chapéus engraçados dos plantadores de arroz neste ano; imitou o Velho Huaji, que vivia correndo pelo vilarejo de Chejian atrás de inimigos invisíveis, tornando-se a alegria da garotada; e finalmente contou do amor que tinha por coelhos. Eles roubavam as cenouras da plantação de sua tia, mas Xin Hao os adorava por serem belos e inteligentes. Também sabia que caso alguém se desse ao trabalho de conhecê-los um pouco mais, saberia que são doces, sensíveis e leais. Poucos tentavam entender os coelhos. 

Neste momento, quando as palavras tomadas de amor saíram da boca de Xin Hao, um rastro de pó se fez no ar, exalando perfume de cerejeiras e formando um caminho até a ferida de Jin Yin, que começou a cicatrizar instantaneamente, revelando a pelagem ainda branca. Por um segundo entristeceu-se, mas neste momento foi um clarão tomou conta da caverna. Xin Hao, que estava pasmado com a sinestesia, fechou a bocarra e tampou os olhos para não ficar ofuscado.

Após alguns segundos, a luz diminuiu até findar. A caverna não tinha mais o círculo que prendia o urso, mas assim que o menino pode ver seu amigo, percebeu um pequeno coelho em seu lugar, desacordado. Xin Hao o aninhou e acariciou sua cabeça para que acordasse calmamente.

– Jin Yin, acorde. – sussurrou, percebendo que o pequeno coelho abriu os olhos e começou a prestar atenção – Seus pelos eram brancos porque você nunca foi um panda: sua verdadeira forma foi revelada.

O coelho olhou para si com os olhos marejados, vendo a beleza que nunca havia enxergado em si.

– Xin Hao, você pode apenas ser um garoto mas tem uma coisa muito importante em si: amor.  Muito obrigado por ter me feito enxergar o que sempre me foi negado. – abraçou o garoto que, por menor que fosse, era gigante em tamanho em comparação ao pequeno animal. – Por favor, eu gostaria de ter a honra de ser batizado com um novo nome, dado por você.

O menino, tomado por amor e carinho, rebatizou o amigo: “Wei Xao(微笑)”, disse o garoto, ressaltando o significado da palavra: “Sorriso”.

– Para que, de agora em diante, tudo em seu caminho seja cheio da felicidade que te foi roubada. – Justificou o menino, tomado por uma segurança única. – Vá. Siga em frente com sua nova vida, meu amigo.

A confiança e solenidade de Xin Hao pareciam inquebrantáveis, como a de um velho monge. No entanto, por mais que tais sentimentos permeassem sua alma, uma singela pergunta do coelho lhe fez voltar à humanidade e ter sua mente arrasada por ansiedade e dúvida:

– Xin Hao, teria a honra de me acompanhar e descobrir o mundo a meu lado?

Até hoje não se sabe, mas dizem que da caverna mágica, onde havia um humano e um urso, saíram dois coelhos

Desconstrução

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Dois amigos andam lado a lado por uma rua. Mãos nos bolsos, mesmo com luvas de lã. Um deles, Márcio, havia acabado um longo relacionamento há pouco tempo e perdido o emprego ao qual havia dedicado parte da vida.

– Então, o que mais que ela disse? – o ar quente saía da boca de Osmar em forma de fumaça branca, contrastando com sua cor de pele.

– Nada. Ela só me enviou aquela mensagem no whatsapp. E só. – sacudiu a cabeça – Como que seis anos da vida do cara podem virar, tipo, duas frases?

– Bem, pode ser que ela esteja conf… – como sempre, fora interrompido por Márcio.

– Ela nem pra dizer um “tchau” ou “vai se foder”! – falou alto, ecoando através das casinhas geminadas que cercavam a rua. – Eu tenho certeza de que ela arranjou outro marmanjo pra deixar ela quentinha agora no inverno.

– Calma, calma. Pelo que conheço da Camilla ela deve ter um bom motivo pra ter feito dessa forma. – repousou a mão no ombro do amigo – A gente não tem o que merece, mas o que precisamos.

– É mesmo? Você vive falando isso, né? Mas então me responde: por que eu precisaria disso? Pra amadurecer? Pra entender como a decepção pode estar em qualquer imbecil que me cerca? Isso eu já sei, oras. – fechou a cara.

Diante da resposta acalorada do amigo, Osmar suspirou e tentou discorrer.

– De repente essa sensação que você tem agora no seu coração te leve adiante. Talvez vocês dois estivessem estagnados e precisassem repensar na vid…

– Que estagnado o quê, rapaz, nunca tive tão determinado e centrado pra fazer tudo o que eu tava sonhando. E a Camilla fazia parte disso, você sabe… vai me dizer agora que eu precisava tomar esse tufo pra aprender o que eu já sei? Não senhor. E sobre meu emprego, hem? Uma parte da vida me dedicando àqueles babacas pra ser demitido por conta de uma fofoca.

Foram atravessar a rua com cuidado: o gelo na pista podia fazer com que os carros derrapassem ou demorassem a frear repentinamente. No entanto, continuaram conversando.

– Desculpa, cara, mas eu vejo de outra forma. Nada que nos acontece é por acaso, tem um se… – disse Osmar.

– Não teria função nenhuma a vida simplesmente me tirar as coisas assim, certo? Não tenta me arranjar um sentido pra algo que não parece ter. Eu tenho que me focar é na causa dessas merdas todas, e não na possibilidade do acaso.

Osmar sentiu-se mal por talvez ter parecido proselitista, mas repensou que estava somente querendo ajudar. Márcio percebeu isso também, e desculpou-se:

– Me desculpe, eu sei que estou um pouco estressado por conta de tudo isso, é foda. Mas como é que eu vou…

Márcio que fora interrompido desta vez, mas não pela voz grave do amigo, mas por um forte barulho de metal e vidro estourando. Por menos de dois segundos, observou atônito o corpo do amigo batendo contra o capô e o para-brisa de um carro em alta velocidade, para, então, ser lançado ao ar por vários metros, terminando o trajeto aéreo com um estalo de ossos quebrando-se ao encontrar o chão violentamente.

Correu até o corpo imóvel do amigo enquanto ligava para a emergência. Estava vivo, apesar dos ferimentos graves, aparentemente na coluna vertebral. As botas de Márcio se tornaram uma ilha envolta no líquido vermelho que crescia rapidamente. Neste momento, percebeu que as coisas que aconteciam em sua vida nada tinham a ver com necessidade, merecimento ou acaso.

Era tudo obra da consequência das ações; ou de um leve empurrão. Márcio sabia que o amigo havia lhe roubado a esposa e o emprego.