Cova 799

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O lençol branco ressalta os contornos do homem, estirado no chão sob uma poça carmesim. Quando recém saído do corpo e espalhado por sobre os pedregulhos, o sangue é mais claro que o normal. Apesar dos transeuntes já estarem habituados, essa morte trouxe um pouco mais de frio na espinha dos que acompanharam a troca de tiros. A esposa precisou ser contida, e seus berros disputavam o ar com explosões e rajadas de bala à distância.

Nada mais parecia o que já fora. Por mais que um dia os escombros fossem retirados da avenida, os apartamentos reconstruídos e automóveis importados, a canção da guerra iria ressoar por um bom tempo no coração dos sobreviventes.

Quando havia a paz, antes de ter parte do seu peito cravejado com fogo e metal, o homem gostava de pescar com a esposa aos domingos em uma lagoa dos arredores. À época, a filha de nove anos gostava de desenhar as paisagens da região, tomada de montanhas e pinheiros. Tinha preferência para a geleia de damasco, mas seu pai conseguia comprar somente quando viajava a trabalho para a cidade portuária. O homem gostava de lidar com outras pessoas com a gentileza com que o tratavam, o que é bastante pertinente quando se é vendedor de lã.

No entanto, naquela manhã, seis dias antes de perder tudo em um bombardeio, havia saído para consertar o aquecedor do lado de fora do hospital, onde ajudava a carregar as macas improvisadas, cheirando a sangue e vísceras. Aguentou dias sem dormir, até que se prontificou trocar um cano que havia sido atingido por uma bala.

Por conta do alto número de cadáveres, os cemitérios mal tinham covas individuais. O homem recém assassinado acabou sendo enterrado sob o número 799. Não era o septigentésimo nonagésimo nono a morrer no conflito, mas o daquele cemitério improvisado, de um vilarejo que abrigava mil e quinhentas pessoas.

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