Black

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Cristiana chegou em casa esbaforida, pois o calor que fazia na rua beirava o insuportável. Bom é que automaticamente seu ar-condicionado havia ligado quando os sensores detectaram seu carro na garagem.

– Altair, alguma mensagem pra mim? – perguntou ao sistema operacional que gerenciava sua casa.

– Sim, senhora. Você recebeu dois e-mails de…Susana.. – a pausa era característica do sistema precisar ler uma informação letra a letra – e um de…Clóvis.

– Ótimo, muito obrigado… – fazia o reforço positivo quase que naturalmente, mesmo falando com uma máquina – alguma outra coisa?

– Sim, senhora, chegaram as tarifas de impostos: Cristianismo, liberalismo, saúde pública e minorias étnicas.

– Caramba, de novo minorias étnicas?! Eu vivo dizendo pra eles pararem de me enviar isso, não vou pagar meu imposto pra dar dinheiro pra um bando de índio. – tomou um gole do suco de uva, direto da caixinha.  – Por favor, Altair, pague o imposto para o Cristianismo e liberalismo. Saúde pública eu vou ler depois se alguma coisa mudou.

A voz digital anuiu e ficou em silêncio por alguns segundos, voltando a falar somente para anunciar o sucesso do pagamento. Então, a moça sentou-se no sofá, ligou a televisão e escolheu um filme para assistir. Sua profissão era extenuante, mas compensava com um ótimo salário. Relaxou e acabou adormecendo.

Acordou com dores fortes na barriga, e, por entre suas pernas, sangue escorria, manchando as almofadas de cor clara. Ergueu-se curvada e cambaleou em direção à porta.

– Altair!! Abra a porta e acione o hospital! Entendeu? – gritou.

– Sim, senhora. Alertando o hospital mais próximo… – respondeu o sistema operacional  – Deseja um público ou privado?

– Qualquer um!

– A senhora não pagou por “aborto”. Caso seja esse um de seus males, o hospital não realiz… – a interface foi interrompida pelo grito da usuária.

– Eu sei, caralho!! Abre essa porta logo!

A porta abriu e ela jogou-se para dentro do carro. Sentou-se e tentou dirigir ao hospital mais próximo que aceitasse o sistema privado para aborto, se fosse o caso. No entanto, a dor estava insuportável e acabou parando no primeiro posto de atendimento que viu. Saiu do carro resvalando os pés descalços no próprio sangue. Entrou na recepção e logo estava em uma maca. Três médicos a cercaram e fizeram um rápido exame de toque.

– A senhora fez algum procedimento abortivo? – perguntou um deles.

– Não, eu estava com…ai, ai… com a menstruação atrasada, mas nada de mais.

Os médicos pareceram não acreditar.

– Senhorita, precisamos que seja sincera conosco.

– Eu falando sério!! O que está acontecendo?! – Ela urrou, agarrando-se nas laterais da maca.

– No perfil público da senhora consta que não pagou atendimento popular para…”aborto”, então serei obrigado a lhe informar que o procedimento lhe custará trinta e sete mil créditos, ok?

– Só isso?! Pode debitar, rápido. – disse.

Nesse momento, a mulher estendeu o braço perto da máquina de débito e o dinheiro fora retirado de sua conta. Os médicos a levaram a um quarto e lá ela esperou por trinta minutos. Cada um desses minutos pareceram horas, pois sentia vontade de urinar, tentava trancar o fluxo mas ele vazava contra sua vontade, ardendo a uretra e liberando mais sangue. Essas urgências aconteciam a cada três minutos, mais ou menos, encharcando o lençol com um vermelho amarelado.

– Tem alguém nessa porra pra me atender?! – gritou a esmo. Logo chegou um enfermeiro.

– O que seria senhora? – perguntou o rapaz.

– Por que não fui atendida ainda?!

– Deixe-me ver se prontuário… – observou o tablet – Então, senhora você está no plano “Liberal-A3H4”, por conta do livre mercado você está numa fila de emergência. Caso a senhora disponha de mais recursos, é possível subir nessa lista para ser atendida na frente dos outros. Caso contrário, existem outros hospitais para a senhora escolher.

– Debita essa porra logo e me tira daqui!! – agarrou o rapaz pelo colarinho, estendeu a mão na máquina de cobrança mais próxima e foi debitada a enorme diferença.

Ela pularia na fila de sexto para terceiro lugar de atendimento emergencial. Quando finalmente fosse atendida, tudo correria perfeitamente: Médicos atenciosos, as melhores medicações, e os mais tolerantes enfermeiros cuidariam dela. Mas não. Não haviam créditos suficientes.

– Senhora, eu sinto muito, mas teremos que lhe repassar ao setor público ou outro hospital privado.

– Isso é um absurdo!! Pago todos os impostos para estar aqui e receber o melhor atendimento! – ela se contorcia de dor e raiva.

O enfermeiro mudou a expressão e sussurrou no ouvido dela:

– Que seu sangue seja a areia do tempo que lhe resta para se decidir.

Arregalou os olhos, espantada com a crueldade do rapaz, e, no momento em que tentou levantar-se, acordou em seu sofá. Confusa e suando frio, perguntou:

– Altair, o… quanto tempo eu dormi?

– Trinta minutos, senhora.

Ela levantou-se e colocou a mão sobre a barriga. Olhou pela janela e viu a cidade no horizonte: suas milhares de luzes indicando milhões de moradores. Pensou em cada um que estava passando pelo que acabara de vivenciar, e disse:

– Altair… – a máquina aguardou o comando – Sabe aquele imposto da Saúde Pública?

– Sim, senhora.

– Delete-o, e coloque qualquer que venha dessa mesma fonte para a caixa de spam. Compre ações em qualquer hospital.

Em seguida, ela segurou o ventre mais uma vez, e começou a rezar pelos pobres.

 

 

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