Limbo

creepy_bench______by_mosredna

A figura rotunda, sentada em um banco de carvalho seco e carcomido, esperava não sabia direito o quê. Sentia-se compelida a ali permanecer, mesmo que fosse uma poderosa Entidade. Talvez fossem os tantos anos de árdua e cansativa jornada a pesarem em suas costas, ou então os diversos acordos e laços que tramou com criaturas vis e perniciosas que o mantinham ali. Estava se enganando: havia um só ser por detrás de sua tediosa tarefa, e ela não cederia liberdade tão cedo.

Ao longe, vindo das brumas e por entre mesas onde almas emulavam seus comportamentos sociais em vida, uma criatura esguia e envelhecida arrastava um laço pelo chão, carregando algo tão pequeno quanto uma caixa de fósforos. Sentou-se ao lado da Entidade ociosa e lhe sussurrou:

– Eu lhe enxergo, senhor… – a língua arranhava os dentes.

– O que você quer? O que é isso que traz consigo, uma caixa de fósforos? – de fato era muito parecido.

– Eu lhe digo… é uma caixa. – sussurrou.

– O que eu posso fazer para que você vá embora? – perguntou aquele que aguardava, irritadiço.

– Eu somente posso me esvanecer com uma… aposta. – os dedos esqueléticos trincavam quando o ser apertou o laço. – Valendo uma porção de sua vilessessência. 

Era um preço alto pois tal substância é angariada com o sofrimento de inúmeras almas. No entanto, para ver-se livre da criatura, coloca-a em jogo aceitando a aposta.

– Faço uma pergunta, e você a responde… caso esteja correto, você toma minha vilessência. Caso contrário, eu… -foi interrompido pelo rotundo.

– Eu sei, demônio. Apressa essa maldição que seu odor está me causando pústulas.

– Eu lhe pergunto: O que é de minha posse, mas é plena e vastamente utilizado por meus acólitos?

Diante do questionamento, a entidade pensou. Tentou fazer conexões com artefatos há muito esquecidos; a guerras infindáveis entre céu e inferno, onde era possível extrair as lamúrias e gritos de horror e embutir em pedras preciosas dadas aos mortais para invocar demônios, mas… nada que pudesse estar em posse de uma criatura tão baixa quanto a que estava a seu lado. Aquele apostador nada mais era do que um espírito ancestral perdido, equivalente aos mendigos e malucos do mundo terreno. No entanto, a Entidade estagnada desistiu.

A criatura sugou-lhe a porcentagem de vilessência e vagarosamente levantou-se. Antes que pudesse partir, foi questionado sobre a resposta.

– A resposta? – perguntou o espírito ancestral – É claro como a luz, meu Senhor. O que é de minha posse e quase não utilizo é meu próprio nome. Foste débil em seu julgamento, somente por crer que sou um louco.

A Entidade não conseguia levantar-se do banco por ora, mas tentou apanhar o pescoço do espírito, que sumiu por entre a névoa cinza, carregando seu laço envolvido em uma caixa.

Consternada, a entidade voltou-se para si mesmo, como se falasse para alguém o breve desabafo. Olhou ao seu redor – a paisagem assemelhava-se muito a uma praça – e falou consigo mesmo, lembrando de suas lembranças longínquas de uma vida que praticamente esquecera:

– Eu aqui…nesse meu velho e querido banco… por quê? – estendeu os braços, repetindo um movimento automático – A praça é nossa…. ela é muito nossa.

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