Fragmentos

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A casa de arquitetura antiga estava vazia. Dois homens ainda terminavam o serviço, devidamente vestidos com o uniforme da transportadora. Cada palavra que falavam reverberava por conta da ausência da mobília que por tanto tempo lá ficou.

– Falta muito pra você? – disse o rapaz de olhos levemente claros. Tinha em torno de vinte anos, e havia sido designado para a limpeza, já que seu porte físico ainda não era suficiente para grandes carregamentos.

– Não muito. – respondeu o senhor mais velho, que começava a sentir cada vez mais as dores no quadril. Carregava consigo um crucifixo no peito, mesmo que não fosse mais à igreja. – Falta só o quarto do casal.

– Deixa comigo – o novato quis mostrar serviço -, não deve ter muito o que limpar, é um lugar pequeno.

Dirigiu-se até o quarto. Nas paredes, as marcas de uma cama, um armário, algumas prateleiras retiradas e um pouco de mofo colorindo o bege. Fora isso, precisaria limpar somente um punhado de cacos de vidro no chão.

“Será que o pessoal derrubou algo?”, perguntou-se. Aproximou-se da parede próxima aos fragmentos e viu que havia uma marca profunda, pontiaguda. “Jogaram algum vidro na parede, que estranho. E parecem dois copos, tem duas bases quebradas”.

– Seu Gilberto! – gritou para o senhor na sala – Alguém veio aqui antes do casal morrer?

– Que eu saiba não, guri! – respondeu.

Seu trabalho não era investigar, então estendeu a mão para retirar os cacos e uma das pontas furou sua luva e machucou seu dedo. Sentiu, além da dor, uma tristeza profunda, súbita e inexplicável. Preocupou-se pouco com o dedo, pois em sua mente veio uma cena, como a de um filme, de dois copos sendo jogados, um após o outro. Algum choro ecoou em sua mente, e pode sentir a mágoa que aqueles copos continham. Dois, de fato. Eles haviam voado pelo ar alguns dias antes, levando consigo uma carga de coisas boas e ruins, e isso o jovem sentiu no fundo de seu coração, enquanto o sangue escorria do dedo.

Estático, o rapaz sentiu tudo em poucos segundos, até ser surpreendido pelo velho, que perguntou o que fazia ali. Respondeu explicando tudo conforme havia percebido e perguntou ao velho:

– Você acredita em fantasmas?

O velho Gilberto, experiente e com um meio sorriso por conta da surpresa do rapaz, respondeu.

– Sim, mas eles nada mais são do que fragmentos de uma vida, e não ela mesma. – agachou-se e estendeu o braço por cima do ombro do rapaz – Vamos recolher esse vidro pra reciclagem. Logo ele se tornará algo útil.

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