O Urso e o Coelho

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Há muitos milênios atrás ( mais do que poderíamos registrar com exatidão), a China era um lugar exótico, onde a magia escondia-se em cada uma das árvores, recantos e nascentes de suntuosos rios. Em uma pequena vila morava um garoto, Xin Hao (心好), que desde pequeno se aventurava nas águas do Yangtze com uma pequena embarcação.

O menino geralmente explorava plantações, vilarejos vizinhos e criadouros de aves.  Certa vez, correndo atrás de uma galinha, acabou próximo à região dos bambuzais – lugar conhecido por ser lar de ursos panda – tropeçando em uma pedra. Rolou morro abaixo e estatelou-se no centro da floresta composta pelo alimento dos ferozes animais. Levantou do impacto ainda zonzo, mas ouvia nitidamente os rosnados nas imediações. Engatinhou até encontrar uma pequena caverna: esconder-se-ia até os barulhos ferais tornarem-se  mais distantes.

Esperou por uma hora, até que ouviu um grunhido triste no fundo da caverna. Cautelosamente, e movido pela curiosidade, Xin Hao vislumbrou o coração da formação rochosa: uma luz vinha do alto, formando um círculo de sol rodeado de penumbra. No centro deste círculo, um urso de pelagem totalmente branca estava sentado como um ser humano, com os braços cruzados em frente ao peito. Parecia meditar, mas abriu o olho direito assim que percebeu a aproximação do garoto.

– Quem é você? – perguntou o urso, com voz morosa e um tanto lúgubre.

– Ahm…eu… meu nome é Xin Hao, senhor. Devo chamá-lo de senhor, não? – por mais que hoje nos pareça estranho, nesta época os animais falantes eram concebíveis, mesmo que raros.

– Pode me chamar por meu nome, Jin Yin (隐金) . – levantou-se calmamente, revelando um ferimento no tórax. – É um prazer conhecer um humano tão corajoso a ponto de entrar em nossas terras.

Com um ar convencido, o menino estufou o peito e gabou-se do feito. No entanto, ao olhar a expressão de tristeza no olhar de Jin Yin, compadeceu e perguntou-lhe o motivo dele estar ali, separado dos outros pandas.

– Fui exilado porque não sou um panda perfeito, percebe? – o urso deu uma volta completa, mostrando a pelagem sem nenhuma mancha negra – Não me deixarão sair deste círculo mágico até que eu me torne como um deles. – disse, com lágrimas nos olhos profundos.

– Foram eles que lhe machucaram? – perguntou o garoto, impressionado com a ferida ensanguentada.

– Me machucaram a vida toda, na esperança de que por cima do ferimento crescesse uma pelagem negra, mas nunca aconteceu. – respondeu Jin Yin – Mas este aqui que você vê…fui eu que fiz. Talvez a pele que cicatrizar vai formar uma pelagem negra, como tanto tentaram. Ou talvez me leve embora e acabe com esse tormento. – o urso passou as patas nos arredores do ferimento, ficando evidente que suas garras haviam feito o estrago.

Após alguns minutos de silêncio, Xin Hao quebrou-o iniciando o relato de suas inúmeras aventuras por entre os vilarejos. Contou ao urso sobre o reflexo das montanhas no Rio Yangtze, dos chapéus engraçados dos plantadores de arroz neste ano; imitou o Velho Huaji, que vivia correndo pelo vilarejo de Chejian atrás de inimigos invisíveis, tornando-se a alegria da garotada; e finalmente contou do amor que tinha por coelhos. Eles roubavam as cenouras da plantação de sua tia, mas Xin Hao os adorava por serem belos e inteligentes. Também sabia que caso alguém se desse ao trabalho de conhecê-los um pouco mais, saberia que são doces, sensíveis e leais. Poucos tentavam entender os coelhos. 

Neste momento, quando as palavras tomadas de amor saíram da boca de Xin Hao, um rastro de pó se fez no ar, exalando perfume de cerejeiras e formando um caminho até a ferida de Jin Yin, que começou a cicatrizar instantaneamente, revelando a pelagem ainda branca. Por um segundo entristeceu-se, mas neste momento foi um clarão tomou conta da caverna. Xin Hao, que estava pasmado com a sinestesia, fechou a bocarra e tampou os olhos para não ficar ofuscado.

Após alguns segundos, a luz diminuiu até findar. A caverna não tinha mais o círculo que prendia o urso, mas assim que o menino pode ver seu amigo, percebeu um pequeno coelho em seu lugar, desacordado. Xin Hao o aninhou e acariciou sua cabeça para que acordasse calmamente.

– Jin Yin, acorde. – sussurrou, percebendo que o pequeno coelho abriu os olhos e começou a prestar atenção – Seus pelos eram brancos porque você nunca foi um panda: sua verdadeira forma foi revelada.

O coelho olhou para si com os olhos marejados, vendo a beleza que nunca havia enxergado em si.

– Xin Hao, você pode apenas ser um garoto mas tem uma coisa muito importante em si: amor.  Muito obrigado por ter me feito enxergar o que sempre me foi negado. – abraçou o garoto que, por menor que fosse, era gigante em tamanho em comparação ao pequeno animal. – Por favor, eu gostaria de ter a honra de ser batizado com um novo nome, dado por você.

O menino, tomado por amor e carinho, rebatizou o amigo: “Wei Xao(微笑)”, disse o garoto, ressaltando o significado da palavra: “Sorriso”.

– Para que, de agora em diante, tudo em seu caminho seja cheio da felicidade que te foi roubada. – Justificou o menino, tomado por uma segurança única. – Vá. Siga em frente com sua nova vida, meu amigo.

A confiança e solenidade de Xin Hao pareciam inquebrantáveis, como a de um velho monge. No entanto, por mais que tais sentimentos permeassem sua alma, uma singela pergunta do coelho lhe fez voltar à humanidade e ter sua mente arrasada por ansiedade e dúvida:

– Xin Hao, teria a honra de me acompanhar e descobrir o mundo a meu lado?

Até hoje não se sabe, mas dizem que da caverna mágica, onde havia um humano e um urso, saíram dois coelhos

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