Barulho

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Começou numa segunda-feira. Edson estava conversando com seus colegas de trabalho acerca de uma reunião que teriam com os fornecedores. Estavam entre sete pessoas, mas divididos em aproximadamente três grupos discutindo ao mesmo tempo, gerando ruídos e até mesmo interpretações erradas.

Em meio ao burburinho, Edson ouviu um barulho ao longe, indescritível.

– Vocês ouviram isso? – perguntou a seu grupo, em que todos os membros balançaram a cabeça negativamente.

Julgando uma percepção errônea, continuou a conversar sobre a possibilidade de trocar de fornecedor de bases de metal por um de bases em acrílico, o que acarretaria um novo projeto da equipe de produção para adequar-se ao novo material.

Mais uma vez, ouviu o som ao longe, mas dessa vez quase discerniu uma voz, mesmo que soado distorcida.

– Porra, vocês ouviram isso agora? – mais uma vez perguntou, mas agora os colegas olharam com certo deboche.

– Tá maluco, Black? – Jonathan, seu melhor amigo, o chamara por seu apelido. Havia outro funcionário de mesmo nome na empresa, e como Edson era negro, a distinção, que não lhe ofendia em nada, acabou pegando. – Colocou cachaça no café? – riram.

– Estou dizendo para vocês, ouvi um barulho lá fora. – não se irritou, mas não crera que somente ele havia escutado um barulho tão estranho.

– Cara, mesmo que a gente trabalhe num lugar mais afastado, toda hora passa carro. Vai ver um freou bruscamente, sei lá. – Jonathan voltou os olhos para os papéis – Deixa pra lá e olha essa diferença de prazo: com a versão acrílica, até o custo de envio fica mais barato. Eu não queria quebrar o contrato com Metalerc, mas tá ficando muito caro.

Após uma hora a reunião findou e já passava das dezoito. Edson organizou sua pasta e tomou um susto com o ruído da impressora sendo ativada por outro colega. Ao voltar seus olhos para valise, ouviu novamente aquele distinto barulho, mas desta vez parecia mais perto e nítido. Breve mas de volume alto, vindo de uma direção incompreensível. Arregalou os olhos, pegou a pasta e saiu rapidamente da sala.

Como sempre, Edson e Jonathan foram juntos de ônibus até a estação de metrô. Como o assunto dos fornecedores já havia saturado e eram amigos mais íntimos, conversaram sobre a esposa de Edson.

– Cara, ela parece estar me escondendo alguma coisa. Anda distante, até mesmo quando levei uma flor de surpresa na semana passada. – coçou a barba.  – Tentei abrir o jogo, sabe…mas ela me diz que está cansada ou está de TPM.

Black, eu acho que ela tá triste com alguma coisa, e não te enganando. – apoiou a mão no ombro do amigo – A Mariza jamais te colocaria um chifre. Será que ela não tá grávida?

Antes que Edson pudesse responder, chegara a hora de descerem do coletivo. Chegaram à estação e ficaram atrás da linha amarela aguardando o trem.

– Mesmo que você que ache que não, Black, ela pode estar com medo de te contar que está grávida porque já estão pagando o custo de já terem outros dois, sabe? – Jonathan esgueirou metade do corpo para dentro do túnel, verificando se o trem chegava. – Mas eu acho importante você descobrir de uma vez porque nunca se sabe… vai que… que ela.. – atrapalhou-se quando veio em sua cabeça a imagem da esposa de Edson nua. Quinta-feira da semana anterior, quando todos pensaram que ele havia ido ao médico, estava na cama com Mariza. Agora esta situação o confundia e o excitava.

– Que ela tire o bebê, você quer dizer… – completou Edson – Eu saquei agora quando você me fez pensar na possibilidade. Não acho que a Mariza fosse capaz, não sem conversarmos sobre isso. Se for um filho será por acidente, a gente toma todas as precauções, entende?

Mais uma vez Jonathan esgueirou seu corpo para frente, ficando da cintura pra cima no túnel e da cintura para baixo na plataforma. Estava ansioso para que o trem chegasse de uma vez. Não queria perder a partida de futebol.

– Para com isso, Jonathan, quer cair na porra do trilho, meu?

– O trem nem chegou ainda, Black. Se eu cair eu volto para a plataforma num piscar de olhos – vangloriou-se do físico conquistado com as horas na academia- . Mas… estranho… acabei de ter um deja vu. 

– Deja vu com o que?

– Essa situação de você me dizendo pra não me esgueirar. Parece que isso já aconteceu antes.

– Sim, isso é um deja vu, parabéns. – Edson revirou os olhos, sem perceber que o rosto do amigo subitamente transformou-se, abrindo a boca em proporções inumanas por milésimos de segundo – Mas como eu estava dizendo, é óbvio que…

O barulho soou mais perto do que nunca. Edson levou um susto e viu o amigo esgueirando-se novamente em câmera lenta. O trem subitamente parecia estar perto da estação. Puxou o amigo, que virou o rosto em sua direção.

Edson arregalou os olhos e levou a mão à boca, estático, quando viu o semblante do colega: a boca escancarada como se o maxilar estivesse quebrado nos eixos, descendo o queixo solto até o meio do pescoço. Não enxergava dentes ou língua, somente um buraco escuro. Os olhos revirados para o alto, mas as orbitas ainda fitavam Edson como se o encarasse.

Ninguém a não ser ele parecia enxergar a cena surreal, e Edson sentiu a uma pressão nas costas e desmaiou.

Acordou sentindo os trilhos e ouvindo um barulho familiar, o mesmo que andava escutando. Agora ele era real e muito, muito próximo dele. Edson percebeu que eram os gritos de desespero do amigo, vindos do alto da plataforma, juntando-se ao ruído de morte que fazia o trem se aproximando.

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