Folhas Secas

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Ambos atravessavam o parque juntos, como há algum tempo já trilhavam ao voltar do colégio. Nove anos de idade eram suficientes para que fizessem sozinhos o trajeto, até mesmo porque moravam em casas vizinhas. Fazia um outono ventoso e frio, diferente do ano passado em que o calor do verão quase não cessara até o início do inverno.

– Como você está, Guilherme? – perguntou Luisa após um silêncio incomum que havia durado metade do caminho.

– Bem…Eu acho. Mas ainda me sinto estranho, sabe? – mantinha o olhar para baixo, observando as folhas caídas, secas em variados e belos tons de laranja. – Parece que ele ainda está lá na casa dele cuidando dos pássaros, esperando a vó terminar o café pra continuar contando as histórias de quando era mais novo.

O vento entoou um lamento enquanto a garota tentava pensar em algo positivo para falar.

– Mas ele está num lugar melhor, Gui. – era envergonhada, mas o carinho que tinha pelo amigo era maior. Envolveu-o com o braço enquanto caminhavam – Tá lá em cima com os anjinhos, contando todas as histórias pra eles.

– Como você sabe disso?

– Eu acredito, ué. Pelo menos é o que a minha mãe me falou quando morreu o Billi.

– Meu vô não cachorro… – sorriu, mas voltou à expressão séria quando pensou um pouco mais – Aliás, não era um cachorro. Não sei ao certo o que achar de tudo isso de céu e deus. Parece história de nenê.

Luisa não largou o amigo, ainda mais porque se aqueciam com o abraço. Não sabia direito, mas estava corada.

– Ué! Por quê? É que nem as férias do colégio. Acho que as pessoas descansam no céu depois de viver um tempo. – olhou a sua volta o belo parque, procurando uma metáfora – Por exemplo, olha essas folhas aí no chão. Elas estão caindo pra que depois nasça uma árvore toda bonita na primavera.

– Nisso você tenha razão: Tudo morre.

Talvez a colocação da menina tenha sido contraproducente. Pelo menos era o que ela pensou naquele momento. Queria ter consolado o amigo e acabou por deixá-lo pior, e talvez até incutido uma certa culpa em ele estar no lado oposto a seu avô na balança da vida. Ela estava certa: Guilherme achara que era a folha da primavera, e que seu avô morrera para que ele pudesse florescer.

Parou o menino e roubou-lhe um beijo, seguido de um sorriso. Ele retribuiu em silêncio, sorrindo com ternura, mas já havia tomado sua decisão. Não enxergava mais sentido em viver a primavera se o outono viria no ano seguinte.

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