Inópia

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Parece que foi ontem mesmo que eu estava dirigindo sob aquela chuva forte, voltando pra minha cidade com o carregamento de cocaína. Quando a sirene começou a tocar e o único policial na viatura ordenou para que eu encostasse que pressenti que me daria mal, muito mal. Com uma pequena lanterna me ofuscando, ele pediu para que eu saísse do carro – mesmo no meio da tormenta. Vi no uniforme que seu nome era Ricardo M., e quando o chamei pelo nome querendo ser amigável senti o peso da coronha estourando no meu nariz, jorrando sangue pelas narinas. Com a cartilagem quebrada, levantei-me enquanto o oficial dizia saber quem eu era e da carga que transportava. Disse também que havia sido enviado pelo traficante rival para roubar a droga, e se eu não a entregasse pacificamente, minha família seria assassinada.

Sem alternativas, o ajudei a carregar a cocaína para sua viatura pensando o que falaria para meu contratante, pois provavelmente iria querer minha cabeça em uma bandeja. Observei em meio às pesadas gotas da tempestade, que havíamos parado ao lado de um local peculiar: a estrada era erma e contornada apenas por vegetação rasteira nas laterais – abrigando uma ou outra chácara de vez em quando -, mas onde paramos havia um estranho círculo de pedras de um metro e meio de diâmetro, e continha um amontoado de pequenos pedregulhos no centro. Cada uma das pedras que compunham a elipse estavam tomadas por palavras escritas com giz ou algo parecido.

Quando acabamos de carregar o porta-malas a estonteante verdade me foi dita: a morte de minha esposa e filho já havia sido executada antes mesmo da abordagem. Quando investi contra ele, tomado pela fúria, recebi uma bala entre os olhos, que acabou por sair pelo lado direito da minha cabeça levando consigo uma mistura de sangue, ossos e massa encefálica. Meu corpo sem vida caiu por cima do círculo cabalístico e a escuridão se fez.

Sem necessidade, acordei puxando o ar com força. Olhei a tábua de madeira encostada em meu nariz, e percebi que tinha sido enterrado vivo. “Que absurdo!”, pensei. “Cometeram um erro, seus filhos da puta. Eu estou vivo!” gritei a plenos pulmões. Mal sabia que vivo era a última coisa que eu estava. Saí do meu jazigo, compreendendo meu estado somente quando percebi os vermes caminhando pelo meu corpo. Não entendi o que estava acontecendo, e ao me olhar em um espelho tive a visão do horror, algo que jamais eu poderia ter a mórbida criatividade de imaginar. Comecei a sentir algo no abdome e percebi ser uma extrema fome de alguma coisa, mas não sabia do quê. Estava no cemitério de minha cidade e comecei a caminhar pelo centro urbano enquanto nenhuma pessoa notava minha presença. Parei quando senti algo me puxar, e ao olhar para o lado avistei a 13ª Delegacia de polícia. Adentrei todas as salas, arrastando o resto de perna que havia me sobrado, procurando por Ricardo M.

Quando o encontrei ele estava em sua sala, falando ao telefone despreocupadamente. Nunca vou me esquecer de sua expressão quando me enxergou naquela forma impensável, grunhindo através do além túmulo por entre as lascas de meus dentes que ficaram presos a alguns músculos da bochecha.

Ricardo Mendes fez uma expressão de dor e absoluto horror quando lentamente retirei seu intestino para fora e o arrastei até a rua, onde terminei de destrinchá-lo, soltando suas partes para todos os lados. Deve ter sido uma lembrança e tanto para os passantes.

Mas finalmente minha fome havia passado. Era a vingança o prato que eu precisava jantar.

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