Barbassangue

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Há muitos e muitos anos existia uma pequena cidade no interior da Espanha, em terras as quais já foram ocupadas pelos sarracenos que vinham através do estreito de Gibraltar, que era relevante somente por ser a casa de um antigo corsário que ficara rico com os favores prestados à coroa, conhecido por Barbassangue – apelido dado por sua espessa barba avermelhada. Ele vivia em um pequeno palácio construído com pedras e mármore, totalmente murado em forma pentagonal, destacando-se uma torre no centro, alta o suficiente para que – como todos na cidade especulavam –  fosse possível enxergar até mesmo o mar de Alborão. O agora fidalgo era conhecido por ter tido muitas esposas, sendo viúvo de pelo menos treze. Apesar das suspeitas, ninguém chegava a acusá-lo de qualquer coisa, fosse por medo de represália ou falta de provas. O fato é que Barbassangue mais uma vez em busca de uma esposa. Não saía muito de casa, somente à noite, portando uma roupa escarlate coberta por uma capa preta de veludo – quente demais para a região.

Foi então que Lucía, uma jovem e bela camponesa dos arredores foi agraciada com uma carta de Barbassangue propondo casamento. A mãe de Lucía ficou felicíssima pela filha, que poderia dar melhores condições à família utilizando-se da riqueza do futuro esposo. Já a garota pareceu indiferente desde que sua mãe respondera à carta com uma confirmação do casório. Todos os dias, quando sentava-se para escovar os ondulados cabelos negros, escutava sua mãe dizendo-lhe que seu busto avantajado, curvas simétricas e nádegas volumosas iriam satisfazer as necessidades do nobre, dando-lhe um filho com saúde por tais atributos. E ela friamente anuía. Somente conheceu seu marido no dia do casamento, quando o identificou pela barba cor de sangue. O homem era alto e gordo o suficiente para ser dotado de força descomunal, apesar de seus quase cinquenta anos. Os olhos eram castanho-claros, o nariz era redondo, combinando com a boca de lábios carnudos. Não era de todo feio, mas melhoraria se não houvessem tantas cicatrizes no rosto.

Mudos desde os votos, sentaram-se na cama na noite de núpcias e trocaram as primeiras e últimas palavras.

– Você sabe que sua vida será curta nessa casa, não?- perguntou Barbassangue, enquanto se despia de costas para Lucía.

– Entendo, meu senhor. Eu imaginava que não era à toa que tantas vezes já foste viúvo. – respondeu a moça, estranhamente calma – Onde jazem suas outras esposas?

– Er… N… Na torre principal… – mal conseguia responder, tamanha a surpresa de Barbassangue com a calma e a frieza de sua nova esposa – Mas isso não lhe aflige? A possibilidade de que seja brutalmente torturada por mim por dias, meses ou anos?

– O senhor foi tomado pela luxúria quando me viu, não? Em todas minhas curvas e abundância, meu senhor imaginou encontrar material de sobra para….trabalhar. – calmamente respondeu Lucía, enquanto igualmente se despia. – Como um peixe no anzol, eu imaginei que você escolheria a mim e me desposaria exatamente como eu planejei.

O homem levantou-se num sobressalto, somente de trajes menores, e virou-se para olhar na cara daquela mulher que lhe parecia insana, e não era mais a com que se casara: seus olhos eram completamente vermelhos e vertiam lágrimas de sangue, os ossos da moça estalavam a medida em que seu corpo assumia uma forma incompreensível . Estático, Barbassangue urinou-se quando percebeu diversos rostos familiares se formando em sua frente, em carne, osso e sangue. Antes do fidalgo ser enviado ao inferno, só conseguiu proferir o nome de cada uma de suas esposas que matou, enquanto elas dilaceravam sua carne.

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