O Drinque

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Sentada do outro lado do salão escurecido, por entre inúmeros casais que dançavam no meio da pista eu conseguia ver seus olhos cuidadosamente ressaltados por uma luz intrusa, vinda da lâmpada quente do bar a seu lado. Ela tomava um drinque refinado e vez ou outra chupava a cereja cravada num palito de dente submerso na bebida rosada. Seus cabelos negros destacavam um semblante pálido, onde um batom cor-de-sangue destacava seus lábios carnudos. Os olhos entreabertos deixavam oculto o mistério contido naquelas íris azuis-claras, como se estivessem seduzindo a todos, homens ou mulheres.

Toda noite de festa ela vinha para cá mas nunca dançava ou conversava com alguém. Somente bebia o mesmo drinque e ficava observando os arredores. Talvez por medo, os homens nunca se dirigiam a ela, mesmo que fosse extremamente bela e charmosa. Eu? Bem, eu era só o garçom daquele bar, e me era proibido falar com clientes a menos que expressamente necessário. Quem sabe o Papai Noel não me desse de presente uma chance com aquela bela moça? Era quase final de ano, e esperava que em 1936 eu já estivesse trabalhando na gerência ou conseguisse um emprego que pagasse melhor. Se fosse ainda ao lado de uma mulher como aquela, com certeza eu estaria no paraíso. 

Decidi então criar a situação “expressamente necessária” mentindo sobre um admirador secreto que havia lhe enviado um drinque. Peguei um dos melhores com o barman e fui em direção à moça.

– Com licença, madame, um senhor alto, de cabelos castanhos e aproximadamente uns vinte e seis anos – dei minhas descrições – lhe mandou de presente este drinque, mas não quis se identificar.

Ela deu um breve sorriso e sinalizou com um olhar para eu repousar o copo sobre a mesa. O fiz devolvendo o sorriso, e em seguida, fui atender outros clientes, sempre observando sua reação. Ela não tocava no copo, mas não parecia ofendida ou desconfiada, mas começara a observar com mais atenção as pessoas à sua volta, até que virei para atender a um casal e percebi que o drinque havia desaparecido. Será que havia devolvido ou dado para alguém? Por mais que fosse presente de um desconhecido, o drinque era caro. Paguei quase cinco dólares por ele! Mas enfim, decidi encerrar aquela tentativa estúpida.

Na noite seguinte lá estava ela, mas havia algo diferente em seu olhar: fitou-me pelo menos duas vezes mas não me dirigiu a palavra. Será que queria perguntar sobre o admirador secreto ou ela desconfia que era eu? Por via das dúvidas, decidi forçar um pouco mais e entreguei-lhe outro drinque sob a mesma desculpa. Sua reação foi a mesma da noite anterior, mas o sorriso foi mais incisivo. Talvez se eu insistisse na descrição óbvia de mim mesmo e fizesse alguns sinais discretos para que ela suavemente soubesse que era eu o admirador. E foi o que fiz durante um bom tempo.

Hoje, ainda sirvo aquela senhora o mesmo drinque e ela me retorna o mesmo sorriso. Alguns me chamam de maluco, que eu deveria acordar para a vida. Mas não me importo que o bar esteja fechado há anos e me digam que ela não existe. Eu tenho certeza de que ela me ama.

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