Peter não queria entrar para a NASA

The_Impossible_Astronaut

Enquanto Peter terminava sua série de exercícios rotineiros, os inúmeros médicos avaliavam cada traço ascendente e descendente dos eletrocardiograma, eletroencefalograma, mapeamento cerebral, resistência e esforço, buscando algum empecilho para que rapaz não fosse apto a ser um cosmonauta. Parte do problema não estava naqueles papéis e telas mas na consciência de Peter, que tinha sérias dúvidas sobre seu sonho. A outra parte é o fato de que ele não sabia disso.

Quando pequeno ele olhava para o céu procurando as estrelas que contou no dia anterior, e não só as reencontrava como percebia algumas ainda maiores e mais brilhantes para anotar em seu caderninho. Especulava em sua inocência criativa as possibilidades que cada planeta oferecia, ouvindo seu pai descrevê-los antes de dormir. Seus sonhos eram permeados por viagens interplanetárias onde Peter conhecia diversas espécies de flora e fauna por todo o Sistema Solar, fugindo de tempestades e coletando plantas e pequenos animais.

Durante a dura adolescência, sua fascinação pelos astros fora alvo de chacota e opressão no momento em que os valentões o instigavam que seu sonho seria impossível e infantil. Diversas vezes ele corria ao banheiro para chorar sua frustração em ter uma ambição tão distante dele. Olhava para o céu e para suas anotações com olhar de desprezo, fomentado pelos gritos e vozes de seus colegas humilhando-o. Por um bom tempo foi um jovem deprimido e desmotivado que seguiu sua vida olhando para frente, como a maioria das pessoas.

Hoje estava fazendo o último teste para embarcar no foguete em direção à Estação Especial Internacional, e tinha certeza de que seria bem sucedido: Os últimos três anos foram de treinamento pesado com alimentação restrita, horários precisos e acompanhamento psicológico. O resultado positivo foi anunciado, e Peter o recebeu com um misto de felicidade e perplexidade: finalmente estava indo ao espaço.

Já dentro do módulo de tripulação, sentado fixamente à poltrona ele fita a sua frente a pequena janela mostrando as nuvens ao longe. Após a checagem geral inicia-se a contagem: Cinco, e Peter apertou os dedos em ansiedade; Quatro, lembrou-se de tudo que sofrera por acreditar em algo tão improvável; Três e ouviu a voz de seu falecido pai falando a palavra “estrelas”; Dois, e lembrou que estava com seu caderninho de infância para dar sorte; Um, e pensou em si mesmo quando pequeno observando as estrelas, pensando que fora sua fascinação pelo espaço que o manteve olhando para cima, tirando-o do conformismo. Zero, ouvindo a explosão do combustível, lançou uma lágrima no ar ao perceber a única dúvida que tinha em seu coração: percebeu que o que importava talvez  não fosse realizar seu sonho, mas ter trilhado o caminho até ele.

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