Não se esqueça de mim

humility

Leonel não era de todo triste: conseguia se dar bem com as mulheres nas noitadas do final-de-semana, tinha uma vida social agitada e um trabalho que lhe garantia uma renda confortável. No entanto, faltava-lhe um amor em sua vida. Das inúmeras parceiras que teve até seus vinte e seis anos, nenhuma mereceu mais do que trezentos dias de namorico. Nenhuma havia despertado um sentimento mais forte, mesmo que se sentisse novo para um relacionamento sério. Então, preocupava-se pouco quanto a isso, por mais que às vezes refletisse deitado em sua cama em dias de insônia.

Foi então que numa quarta-feira pegou no sono enquanto assistia a um clássico dos anos oitenta nas sessões da madrugada. Começou a sonhar com seu dia-a-dia comum: levantar para trabalhar, almoçar com os colegas, voltar para casa e assistir a um filme ou conversar com alguém no skype. De súbito estava em uma rua deserta em um clima que, pela cor das folhas, parecia outonal e, ao longe, uma menina com seus vinte e três anos, cabelos castanho-claros, suaves sardas e olhos de um marrom-avermelhado único que o enfeitiçaram a medida em que se cruzavam com os seus. Ela passou por ele junto com o vento e pequenos torvelinhos de folhas, misturando o perfume dos seus cabelos ao cheiro refrescante das árvores, e por seus lábios ela assoviava uma canção familiar. Mesmo aturdido, ele estendeu a mão para tocar o braço da moça, que começou a parecer progressivamente mais longe. Quanto mais ele corria, mais a imagem da garota se distanciava, e ele conseguia ver em seu rosto uma certa aflição. Quando ele conseguiu aproximar-se, ela estendeu o braço para segurar-se nele, que estendeu da mesma forma. Segundos antes dele acordar do sonho, ele vê em câmera lenta o lábio da moça falando uma frase que, mesmo que não tenha saído som algum, ele entendeu: “Não se esqueça de mim”.

O rapaz percebeu que já era o dia seguinte e tinha que ir trabalhar. Ficou a manhã toda pensando em seu sonho, mas à medida que o meio-dia chegava ele ia esquecendo-se cada vez mais dos detalhes, até que somente sobrou a lembrança de ter sonhado com uma menina e nada mais. Deitou-se ao final do dia e dormiu rapidamente devido ao cansaço. Em seu sonho, novamente estava naquela rua, mas dessa vez era primavera pois todas as flores desabrochavam e o pólen cercava o ambiente, formando uma cortina quando atingido pelo sol, por onde a menina novamente surgiu vindo em direção a Leonel, que suavemente a pegou pela mão e colocou-a contra seu corpo, sentindo o macio e tenro abraço. Os dois se entreolharam por alguns segundos, até que os lábios selaram um beijo tomado de um estranho sentimento de felicidade e realização. O vento soprou e por entre os cabelos esvoaçantes ele a viu sorrir um pouco antes de começar a distanciar-se como na noite anterior. Ambos ficaram aflitos em a realidade distorcer-se para distanciá-los, mas, como Leonel começava a compreender, era o processo de acordar do sono. Antes de despertar, ele ouviu a voz dela sussurrar “Não…esqueça…de…mim”.

Durante algumas semanas ele sonhou com ela, sempre na mesma rua e alternando as estações do ano, e esquecia de seus traços a medida que o dia seguinte passava. Apesar dele nunca ter ouvido sequer sua voz, ela sempre sussurrava a mesma frase no final de cada noite em que trocavam carícias, beijos e abraços: “Não se esqueça de mim”. Leonel começou a ficar ansioso para dormir e sua insônia se intensificou, momento em que ficava pensando o que faria ou o que falaria.  E naquela noite de sexta-feira ele a encontrou sorridente. Veio em direção à ele e jogou-se em seus braços, enquanto assoviava a mesma melodia do primeiro dia em que se viram. Acariciou o rosto de Leonel e falou um feliz e sereno “adeus”.

Leonel acordou de súbito, suando agarrado ao lençol. Era meio da madrugada e passava mais um filme dos anos oitenta na televisão. Conseguiu dormir mais algumas vezes mas não conseguia sequer sonhar alguma coisa. E o pior: sabia que a imagem da menina sumiria conforme o dia seguinte passasse, e precisava fazer alguma coisa para não esquecê-la. Então pegou um papel e esboçou o rosto que tinha visto, já que tinha  habilidades artísticas invejáveis. Também escreveu tudo o que conseguia lembrar dela antes de sair para o trabalho, e a medida que as horas passavam as lembranças sumiram como lágrimas na chuva. Até o momento em que foi almoçar com seus colegas já havia esquecido de tudo que vivera na noite anterior – “a última noite”, pensou ele. Levou consigo o desenho até o restaurante pois não queria separar-se da única memória que tinha de tudo. Foi quando o deixou em cima da mesa enquanto servia-se no buffet que viu uma mulher parada em frente ao desenho, olhando-o com um grande espanto. Leonel largou o prato e foi perguntar à moça – que em nada parecia com a com que sonhara – o que estava acontecendo.

– Você conheceu a minha irmã? – perguntou ela, mesclando surpresa e emoção.

– Não, essa é… Bem, é só um desenho que fiz. – mentiu Leonel para não parecer ridículo.

– Nossa, ela parece muito com a minha irmã. Infelizmente ela faleceu faz uns três anos, se importa de ler o que você escreveu em volta do desenho? – perguntou ela, curiosa com as palavras e frases soltas que permeavam o desenho.

Ele assentiu, nervoso por talvez expor uma intimidade desse tipo e por realmente estar percebendo traços em comum no rosto da moça com quem falava.

– Desculpa a intransigência, meu nome é Sofia. Se importa se eu sentar com você? Eu vim para meu médico e encontrei esse restaurante para almoçar. Você está acompanhado? – perguntou ela sem malícia, mostrando interesse no desenho.

Leonel sinalizou para seus amigos sentarem em outro lugar, disse-lhe seu nome e sentou-se em sua frente, ansioso para saber o que ela falaria de tudo aquilo. Parecia loucura toda a sequência de eventos, principalmente a possibilidade de ele ter entrado em contato com um espírito ou algo assim.

– É impressionante tudo isso que você escreveu…- disse ela, enquanto segurava o desenho com uma mão e o queixo com a outra, suavemente entrelaçando seus dedos.

– É…É muito parecido com…com a sua irmã, é? – perguntou Leonel, gaguejando.

– O desenho sim, mas as descrições…sou eu. Parece que eu estou lendo meu jeito de agir, de olhar, tudo… Eu não sei se fico assustada ou impressionada – brincou, sorrindo com ternura.

Desde então, começaram a almoçar com frequência cada vez maior, evoluindo para jantares divertidos, baladas engraçadíssimas e sessões de cinema onde trocaram os primeiros beijos. Em um desses encontros ela deu uma carona para Leonel até a casa dele.

– Me diz Leo, fora aquelas bobagens que a gente dança na balada, que música você gosta de ouvir? Conhece a banda “Simple Minds”? Eles foram muito bons, fizeram sucesso nos anos oitenta. Deixa eu colocar uma música deles aqui. – disse Sofia, enquanto apertava os botões do aparelho de som do carro.

Foi quando a melodia iniciou que Leonel começou a assoviá-la, como se a conhecesse. E então o cantor começou a cantar “Don’t you forget about me”.

 

 

 

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