Diários Inomináveis: Mensagens

G20_blood_on_road

Já passava das quatro da manhã quando retornou do reconhecimento do corpo de seu filho. Elisete nunca imaginou perdê-lo de maneira tão abrupta e violenta, ainda mais porque achava o filho comedido no trânsito. Bem, um poste não teria como ficar na frente de um carro em alta velocidade, e já que marcava uma altíssima na hora do acidente estava claro que a culpa era dele. Após o enterro se fizeram inúmeros dias de depressão profunda e desespero, até que um momento conseguiu se acalmar um pouco e arrumar a casa, para ver se conseguia distrair-se por apenas um segundo.

Em meio às coisas que limpava encontrou um saco plástico contendo os objetos pessoais recolhidos pela perícia. O acaso havia levado até ela o inventário que jamais havia visto. Retirou a carteira do filho, as chaves do carro, umas fotos que caíram da própria carteira e seu celular, que havia quebrado o vidro mas continuava funcionando. Começou a navegar através das mensagens, observando a seguinte sequência, iniciando pela mensagem que seu filho enviou:

“Oi minha coisa linda…q tal a gnt sair agora? Bjs” – A mensagem havia sido enviada alguns minutos antes do acidente.

“Ai certo q sim!!!!!! Tu me pega aqui em casa?” – foi a resposta de uma tal de Sabrina.

“Aham, eu to saindo daqui do bar agora. Pego o carro e passo aí.”

“Hyarla” – Foi a resposta da menina.

“?!?”

“Ops, errei aqui. Tá, tô te esperando.”

Entre essa mensagem e a próxima, se passaram dez minutos.

“Sa, eu tô n caminh já. Passei pr um acidente aki na entrada da minha rua. Acho q um rapaz morreu. Bizarro neh?”

“Shth” – Foi a resposta da menina.

“EHeheh, n entendi”

“Olha pro lado.” – Foi a última mensagem.

Elisete ficou confusa. O horário dessa última mensagem da tal Sabrina era muito aproximado da hora do acidente fatal de seu filho. Talvez ele tenha se distraído com o celular, tinha bebido um pouco e acabou batendo o carro. Estranho que não ouviu falar sobre nenhum outro acidente no mesmo dia.

O celular tremeu com um ressonar de alerta de nova mensagem. Número desconhecido.

“Aquele era você. Agora você está entre nós.” – dizia a mensagem.

Sem entender, Elisete ficou inerte, observando o celular tremer uma, duas, três, quatro, cinco, seis vezes, com mensagens confusas e sem nexo algum, sequer formando palavras, até que a sétima era bastante compreensível, e a levou ao chão:

“Mae..m.m.ajuda.,.,.”

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