A Penúltima Partida

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Sérgio coçou a barba por fazer, pensando em que jogada faria: Xadrez pode ser bastante difícil se você  não pensa alguns passos à frente. Acabou por mover o peão para controlar o centro do tabuleiro.

– Boa jogada…Mas controle sempre foi uma coisa que lhe chamou a atenção não é verdade, Sérgio? – disse seu oponente, ao observar a pequena peça sendo arrastada – É fácil perceber isso por suas expressões constantemente preocupadas com qualquer coisa.

– É, talvez esse medo tenha me bloqueado uma boa parte da vida… Medo de não ter controle sobre minhas decisões, minha saúde e principalmente sobre meu destino – respondeu Sérgio, enquanto seu oponente ameaçava seu Bispo com um Cavalo.

– A vida pode nos pregar peças. É compreensível essa preocupação, mas você tem que pensar que sequer seu nascimento foi um fenômeno controlado: Simplesmente aconteceu. Bem como aquela sua apendicite, o nascimento de seu filho, seu neto, ou até mesmo aquele cachorrinho que você adotou da rua. Assim como as piores coisas acontecem ao acaso, as boas também assim são apresentadas.

Apesar da jogada sorrateira, Sérgio repensou e conseguiu proteger seu Bispo e avançar para um posterior ataque.

– Nunca lembramos as coisas ruins como as boas. Parece ser da natureza humana prender-se às coisas ruins.. – Disse Sérgio, um pouco apático.

– Ora, mas talvez essa seja uma maneira de tornar a mediocridade melhor, ou mesmo para que as coisas boas sejam ainda mais especiais – interrompeu o oponente, tomando o Bispo de Sérgio.

– Pode ser, mas o que isso faz da vida a não ser uma eterna compensação e…Você vai perder seu Cavalo, amigo – avisou Sérgio, com um prepotente sorriso, tomando a peça do inimigo.

– Talvez se diminuísse sua ansiedade por dominância, conseguiria chegar além desse pensamento. Se preocupa tanto em tomar minha peça, e não percebeu que tal jogada abre sua Dama, o coração de seu exército.

E tomou a Dama de Sérgio, que mordeu a parte interna da boca, aflito com a própria cegueira.

– Pense que preocupar-se com o agora te toma a liberdade do futuro – continuou o oponente –  e te cega frente às decisões mais importantes, que passam despercebidas. Se a vida fosse uma compensação, aquele dia em que você perdeu o ônibus e conheceu a a tua atual esposa teria menos valor, e você pensaria em ignorar essa dádiva do amor para evitar o sofrimento. Mas não é assim que as coisas são, não é mesmo?

Sérgio reparou que a jogada de seu oponente fora proposital para que ele reavaliasse sua própria estratégia. Tomou o cavalo com uma torre, que se mostrou livre para adentrar a fortaleza inimiga. Seu adversário sorriu ao ver que Sérgio havia entendido suas intenções.

– Realmente, parece que se eu focar em algo a minha frente, perco todo o resto da vida. Você tem razão: De que serve o controle absoluto se nunca irei consegui-lo? Achei que a casualidade da vida me traria somente sofrimento, mas é ela que faz com que eu tenha forças. Minha neura de dominar o ambiente só me leva à frustração, o que tira a vontade de qualquer alma. – Realizou Sérgio, deixando de observar o tabuleiro para olhar seus parentes que observavam o jogo através de um vidro.

Não adiantou tentar bloquear o ataque de Sérgio, que cercou o Rei inimigo.

– Parabéns, Sérgio. Não sabia se era possível que me vencesse, mas acho que está começando a dominar aquilo que te consumiu por tanto tempo.

– Não sei porque o temem – respondeu Sérgio – Sempre falam de você como se fosse o pior inimigo de todos, com quem não é possível vitória.

– Um dia você perderá essa partida, mas não hoje. Eu ainda vou visitá-lo novamente para conversarmos.

E Sérgio acordou calmamente na cama,  sem lembrar de nada do que havia acontecido a não ser daquela forte dor no peito que teve na rua.

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