Diários Inomináveis: A Sombra do Tentáculo

Os relatos a seguir foram encontrados em um diário, no ano de 1978, dentro de uma mochila que provavelmente pertencia ao esqueleto que encontrava-se agarrado a ela. Tal esqueleto provavelmente morrera de inanição, já que a necropsia não indicou qualquer sinal de violência. Ele foi encontrado como se estivesse arranhando as paredes daquela pequena instalação, onde de fato existiam arranhões que comprovavam que ele havia tentado acessar a claraboia existente no teto, mas falhou por ser alta demais. Sem mais delongas, a transcrição exata do que foi encontrado. Tais palavras podem perturbar os mais fracos.

“23 de Abril, 1886,

Não bastava somente ser o único membro da corte portuguesa a estar nessa desbravadora expedição, mas também o que menos sabia falar o idioma de meus colegas, o francês. Não imaginava que a França tinha tanta influência na África, mesmo que o relato de suas colonizações fossem frequentes. Em cada pocilga que nos hospedamos tenho que fazer uma enorme força para entender o que dizem, ainda mais porque tenho que ficar associando as semelhanças entre o português e o francês. Por sorte, Henry Livingston é um inglês que destoa da maioria de seus pomposos compatriotas, e me ajuda vez que outra. Ele é um renomado arqueólogo, sendo o único de nossa equipe formada por seis professores. Um que eu gostaria de conviver melhor é Jean Mitté, geólogo assim como eu. Enfim, vou descansar, pois o calor do Cairo é implacável.”

“28 de Abril, 1886.

Após os trabalhadores locais escavarem por alguns dias, acabamos encontrando uma antiga escotilha, possivelmente uma instalação construída no subterrâneo por antigos arqueólogos, mesmo que não fossem nomeados como tais.  Estranho, pois não há registros de tal instalação em nenhum documento ou arte da história egípcia. Karl Metzger, o arquiteto que nos acompanha, relatou que tal portinhola tinha detalhes provenientes da estética árabe, possivelmente de 1200 d.C.

Escrevo este relato do acampamento que montamos próximo a nossa descoberta, e amanhã adentraremos a instalação para estudar seu interior e sua função.

“01 de Maio, 1886.

Fazem três dias que estamos revistando cada um dos milhares de esqueletos que encontramos aqui embaixo. Estão espalhados pelos diversos túneis que foram construídos pelos árabes, como se tivessem morrido enquanto trabalhavam. Não parece ser uma mina, mas com certeza era uma instalação de trabalho, pois inúmeros tem o mesmo uniforme. A maioria parecia carregar instrumento de dissecação ou embalsamento, mas não eram relíquias do antigo Egito: correspondiam à época em que morreram.  Henrietta, a professora perita em idiomas, identificou alguns símbolos presentes em papiros apodrecidos como Aramaico, língua já morta no golfo árabe.

Ah, melhorei minha perna. Fui um dos primeiros a descer, identificando a portinhola como uma uma claraboia  e escorreguei, caindo cerca de quatro metros. Por sorte, nenhum osso fora quebrado.”

“05 de Maio, 1886

Estranhamente, quanto mais descemos os degraus para baixo menos salas e corredores existem, como se estivessem ainda em construção, já que havia muita terra bruta. O Ar aqui é inacreditavelmente puro, mesmo que não haja nenhuma saída de ar. Geralmente os periquitos que trazemos morrem em seguida, mas continuam firmes, como se não estivessem em túneis claustrofóbicos. Agora estamos os seis aqui embaixo, esperando dois trabalhadores abrirem uma espécie de porta que fora selada com muito esmero: é quase uma tampa de ferro extremamente pesada, presa fortemente com correntes e tábuas. Os outros trabalhadores já saíram para comer algo.”

“08 de Maio, 1886.

Já fazem três dias que estamos presos nessa catacumba. Passamos os últimos dias gritando para que abrissem a claraboia, mas não há resposta. E o pior: terra se esgueira por entre os espaços da portinhola, como se tivessem nos enterrado aqui! Tentamos conter os ânimos, mas Gérard, o instável biólogo, teve que ser nocauteado para que não atacasse ninguém. O cheiro dos corpos dos dois trabalhadores e de Henry está ficando insuportável. Nossa única esperança e destruir a tampa de ferro, com a esperança de haver uma saída. Já estão me chamando para ajudar. Deus nos ajude.”

“12 de Maio, 1886.

Com a carne dos cadáveres, ainda conseguiremos sobreviver mais alguns dias. Talvez algumas horas. Após a porta de ferro, encontramos uma escadaria exótica, que me lembrou as antigas construções Egípcias, chegando a uma enorme sala, onde uma fonte era abastecida por água de algum bolsão subterrâneo. Achamos que seria a salvação, até que a fome veio e…Bem, o início desse relato já diz tudo. No centro dessa sala, notavelmente ornada com hieróglifos do antigo Egito, há uma espécie de sarcófago circular, imenso, rodeado de inscrições desgastadas. Apesar de Henrietta e Gérard terem falecido, Karl conseguiu decifrar algumas frases, que são transcritas a seguir, mesmo incoerentes em alguns aspectos:

Originários da vida e da morte(…) Antigos ancestrais emergirão de nossas mentes (…) E pela carne, todos serão unidos (…)  Nyarlatohep consumirá nosso sangue, e nos fará Um novamente.

Aterrorizante, mas fascinou a nós três, fazendo-nos esquecer da fome que é tão forte que está nos definhando.”

A seguir, o último registro escrito no caderno, rabiscado toscamente, com manchas de sangue em volta da página.

“Que Deus tenha piedade da minha alma! A quem encontrar algum dia esse meu relato de horror, que não profane esse lugar maldito! Eles se levantaram. Só restava eu, quando todos os mortos se levantaram! O sarcófago tremeu, e dali eu consegui ver um ser, um emaranhado de músculos, carne e cabelos, e no momento em que se ergueu, realizei o que parecia um grotesco tentáculo. Levantei para fugir, e comecei a ver os mortos se levantarem!”

Há um pequeno espaço entre os textos, e o próximo foi escrito de maneira mais grosseira. Provavelmente o autor tremia copiosamente.

“Subi tudo, em direção à claraboia. Fechei o buraco com a pesada tampa de ferro,  mantendo todos aqueles corpos andantes lá embaixo. Eles….Eles eram tão lentos, e repetiam incessantemente as palavras “Hyarla en shu’uth, Hyarla en shu’uth”. Enquanto bloqueava a saída, consegui escutar sua vozes se unindo, em uníssono, até que somente uma voz, estridente e assustadora, repetia tais palavras.”

Após esse parágrafio, está escrito com sangue as seguintes palavras: “Hyarla en Shu’uth…Shu’uth

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