Almas nas Nuvens

Sempre quis ser um fotógrafo de renome, pelo menos na pequena cidade onde morava. “Robson Garcia Fotografia” seria sua marca, que já havia esboçado com a ajuda de alguns amigos que manjavam de desenho.

Como de praxe, era segunda-feira e Robson foi até a única lan house da cidade descarregar as fotos do final-de-semana e publicá-las em seu blog. Colocou o usb ligando o computador a sua câmera e começou a navegar na internet enquanto aguardava a transferência dos arquivos. Por segurança ele mantinha uma cópia extra de seus arquivos em um serviço de armazenamento em nuvem: o usuário envia os arquivos para a internet e eles lá ficam, podendo ser acessados de qualquer lugar mediante uma senha. Digitou o nome do site e o mesmo abriu normalmente, porém já logado com um usuário, alguém que havia estado naquela máquina anteriormente e acabou deixando seu repositório da arquivos aberto sem querer.

Robson teve um lapso de educação (e controle) e foi clicar em logoff, mas a sórdida curiosidade falou bem mais alto. Haviam várias pastas com documentos, entre eles estavam declarações de imposto de renda, alguns modelos de currículo de várias pessoas e até mesmo carteiras de identidade escaneadas. O dono daquilo não era um estelionatário, parecia mais que tinha escaneado tais documentos para algum fim, que revelou ser a inscrição de sua família no plano de saúde de sua empresa assim que Robson abriu a solicitação da Abramed.

Haviam pastas de fotos em que piadas e memes de internet se misturavam a imagens belíssimas do mundo. Talvez essa pessoa gostasse de viajar, e tal indício deixou Robson mais curioso sobre a identidade do descuidado usuário – em todos os documentos que vira, o nome do titular estava em branco, e o endereço de e-mail remetia a algum personagem do cinema. Foi então que abriu uma pasta de nome “cw” cheia de fotos de uma bela mulher, de cabelos cacheados e olhos claros, de aproximadamente trinta e cinco anos. Fotos amadoras, e de alguém que ele nunca havia visto, mesmo numa cidade tão pequena. Seria a namorada dele? Amante, já que as fotos das identidades anteriormente vistas eram bastante diferentes. Ou era a obsessão platônica de um homem doentio? O mistério fez com que esquecesse de suas próprias fotos.

Dentro da tal pasta, havia um arquivo de texto:

Nunca vou esquecer do dia em que senti sua falta pela primeira vez. Era um dia quente e confortável para ir à praia e como a recém tinha conseguido comprar minha casa, não tinha do que reclamar. Porém a lembrança de sua ausência me derrubou, e acabei o dia inteiro trancado no quarto.

Eu sei que você nunca vai ler isto, mas eu gostaria de estar com voc

E findava assim.

Buscando mais um pouco, encontrou fotos de três pessoas em uma praia belíssima: formavam uma família, sendo o terceiro um filho de aproximadamente dez anos. Mãe e criança eram os da identidade e, pela lógica, tal homem era o dono dessa conta deixada aberta. Aparentava uns trinta e oito pouco sofridos e era desconhecido de Robson. Se deu conta de que estava indo além do normal da curiosidade e a empatia começou a pressioná-lo a deixar tudo para lá. Deslogou da conta aberta e logou-se com a sua para enviar suas fotos.

À noite, já em casa, ligou a televisão para acompanhar as notícias. Ficou estarrecido ao identificar o homem na foto da reportagem identificado como Daniel Weber, um homem que recentemente havia perdido a irmã em um acidente de carro, e sua esposa e filhos estavam em estado grave no hospital. O acidente ocorrera há dois dias, e Daniel saíra ileso.

Robson talvez fosse a última pessoa a ver as aflições, os medos, os bons momentos e segredos de um homem morto, agora selados para sempre em uma esquife na internet.

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