O Crime do Café

Mais um dia de trabalho se inicia: chego com a cara de sono, cumprimento os colegas com um murmúrio enquanto guardo minha marmita na geladeira. Chego no posto de trabalho, ligo o computador, e aproveito o tempo em que ele inicializa para dar uma arrumada na mesa e ir pegar um cafezinho na mesa do setor. É justamente nessa hora que presencio a cena mais insólita possível: meu chefe estatelado no chão, inerte, com uma mancha de café no peito, de onde escorre um rio do líquido marrom-escuro, formando uma poça.

Rapidamente o ajudei a levantar, mas estava aturdido, com a fala confusa e soluçava entre um muxoxo e outra. Pensei na hipótese de derrame, mas pelo cheiro forte de vodca, presumi que a noite de quinta-feira havia sido forte. Perguntei se ele lembrava-se de quem o havia abatido: “Eu só vi que a pessoa tinha mãos de mulher…tinha um anel dourado…”, repetia o pobre homem. Deixei-o repousando em sua mesa, e iniciei minha procura passando por entre as mesas, observando minhas colegas que digitavam com seus dedos ágeis alguma proposta comercial ou recusa de cantada. Anel de noivado prata, anel de compromisso prata, nenhum anel…Hm, vou ter que conferir a funcionária da copa.

E lá estava ela, produzindo mais café para distribuir pela empresa, e, em seu dedo da mão esquerda, um anel dourado. Tudo fazia sentido: ela talvez estivesse a recém servindo o café para nosso setor e meu chefe avançou-se na direção do ouro marrom. A copeira, assustada, teria selvagemente atacado com um espirro certeiro da térmica entreaberta. Ou melhor: talvez a intenção fosse afastar o atrevido homem embriagado, baseada em alguma rusga anteriormente estabelecida. Não eram poucas as vezes que meu chefe elogiava publicamente as ancas da copeira.

Simulando ignorância sobre o assunto, perguntei à moça, tentando ler seus sentimentos:

– Bom dia! A Srta. sabe se temos café no setor da administração?

– Sim, senhor, levei a térmica para lá hoje de manhã… – respondeu, e fazendo, em seguida, uma reveladora declaração – Pouco antes de você e seu chefe chegarem.

Droga! A menos que a moça estivesse mentindo descaradamente, era inocente até as ancas E o pior, ela não mostrava quaisquer sinais de nervosismo ou apreensão: se estivesse mentindo, era tão profissional nisso que poderia ser considerada uma sociopata. Tinha que investigar um pouco mais, e indaguei:

– A srta. viu alguém saindo com pressa da sala da administração? Talvez demonstrando uma culpa, arrependimento ou ansiedade exacerbada?

– Eu vi o Vanderlei saindo porta afora, faz pouquinho. Pela cara dele, parecia que tinha visto o medonho. – revelou a singela moça baixinha de ancas sinceras.

Voei porta afora, e encontro o rapaz com um sorriso nervoso no rosto, e pareceu tomar um belo susto ao me avistar. Foi então que me lembrei que Vanderlei tinha dedos finos como os de uma mulher, o que poderia ter confundido de quem foi algoz.

– Diga-me: Onde você estava nos últimos trinta minutos?! – perguntei, intimidando-o.

– E…Eu…Eu estava…Lá… – titubeou, declaradamente culpado.

– Cale-se, rapaz! Eu já sei tudo: foi você que agrediu brutalmente nosso chefe, dando-lhe uma golfada de café no peito. Admita! – Eu sei, fui cruel e arrisquei errar em virtude da certeza.

– Claro que não, meu! Eu tava…Bem, eu tava no banheiro, né! Quase atropelei o chefe e o Jurandir pra chegar na privada…Mas por desespero, mesmo…Acordei ruim de ontem, eu admito. Acarajé é foda, me destrói o estômago… – respondeu Vanderlei, para minha surpresa.

– Intestino, rapaz. Se está indo ao banheiro, é por causa do intestino. – corrigi, colocando as mãos na cintura e fazendo cara de preocupação, como se isso adiantasse para pensar melhor no caso.

Pedi desculpas a meu nobre colega e desejei melhoras intestinais, não antes de ter refletido sobre as valorosas informações que lhe escaparam da boca solta: Para dirigir-se ao trono, observou Jurandir junto à vítima. Pobre homem, jamais faria mal a uma mosca, mas era segurança da empresa, e deveria ter acesso às câmeras de segurança. Bingo!

Ao chegar lá, consegui assistir ao momento exato do acontecimento, e, perturbado com o que vira naquele vídeo, os deletei imediatamente e fui revelar o culpado. Desci as escadas, fui até a cozinha e servi uma xícara grande de café, uma para mim e outra para meu chefe. Ele precisaria quando eu contasse tudo. Segui em passos inseguros, pensando de que maneira revelaria o grande segredo a meu abalado superior, talvez mudasse a percepção de como tudo funciona na vida em sociedade.

– Chefe, eu descobri quem fez isso com o senhor – iniciei, com palavras firmes e assertivas -, e tenho certeza de que será uma grande surpresa para o senhor também.

– Pois bem…Fale… – respondeu, atordoado pobre homem.

Peguei sua mão direita e constatei:  exibia um anel dourado cintilante, ainda manchado pelo café. Mostrei a ele com convicção as provas, e sua queixo resvalou de surpresa, eu acho.

– O senhor mesmo acabou se alvejando, senhor! Visualizei claramente nas câmeras o senhor pegando o frágil copo plástico, e, com todo o calor que dele era emitido, seus dedos acabaram queimando, o que levou o senhor a impulsionar o copo em total descontrole. Foi uma cena aterrorizante, mas felizmente o senhor está melhor. No entanto, eu recomendo fortemente que o senhor volte para casa e repouse. O trauma foi demasiado forte.

E então, ele saiu para casa, perplexo com a própria burrice, enquanto eu, munido de uma extrema preguiça com que acordei, regozijei meu dia sem chefe, colocando novamente meu anel de casamento em meu fino dedo anelar, orgulhoso do crime perfeito.

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