Pestis Cruento

Black_Tower_by_Cybotics

Na torre mais alta do castelo enegrecido pelas cinzas do vulcão que expulsa seu magma ao longe, o homem esguio consegue segurar-se no parapeito da pequena janela. Olhando para baixo, sacudindo com o vento quente, consegue ver os cultistas realizarem seu ritual naquela noite de lua cheia coberta por nuvens e fumaça. Ressonam cânticos evocando demônios esquecidos, enquanto empilham cadáveres de pessoas torturadas como oferenda nos porões daquele pútrido castelo negro. No entanto, ele precisa focar no que faz melhor, e força o tronco para cima do parapeito, conseguindo alavancar uma perna para adentrar a pequena sala, onde acredita ser o local onde encontrará o item pelo que foi pago para roubar. 

Encontra uma sala minúscula, repleta de estantes com livros e frascos com conservas de conteúdo maculado, uma escrivaninha, um armário e um conjunto de alquimia, fervilhando algum líquido malcheiroso. Tudo iluminado por uma solitária tocha perto da porta de madeira reforçada com lastros de ferro já enferrujado, trespassados na horizontal. Começou procurando nas conservas, identificando poucos itens cadavéricos presentes na maioria deles, mas não encontrou o que procurava. Na escrivaninha, alguns papiros escritos com sangue humano, que vertia de uma purulenta bolha de carne, impossível de ser concebida até ser vista pelo ladrão. Nas gavetas, tateou tremelicando as mãos, livros de pele humana ressecada. Hesitou por um momento continuar sua busca, ofegante e com o coração acelerado, pois sabia que, caso fosse descoberto, passaria horrores inomináveis. Recobrou a sanidade e verificou o armário, onde encontrou algumas ampolas, restos de carne e instrumentos metálicos que lhe deram calafrios, mesmo não conseguindo imaginar seu uso. Em meio a tais instrumentos, retira um pequeno pedestal moldado de ossos, com uma pedra preciosa púrpura cravejada, pulsando uma energia malévola conforme as batidas de seu próprio coração. O pequeno sorriso de alívio se desfez quando ouviu o cântico sombrio reverberar no corredor que levava à sala onde ele se encontrava:

Pestis cruento vilomaxus pretiacruento

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Voltou-se para a janela, contraindo todos os músculos, impulsionados pelo medo, mas o vitral que antes abrira havia fechado, e um grande olho emergiu nele, a partir de uma carne púrpura que se fixava como vinhas, e expandiam-se às paredes. Cambaleou para trás, derrubando algumas conservas, horrorizado com a aparição, enquanto o cântico aumentava seu volume, demonstrando aproximar-se da sala. Com violência, a porta se abriu, com o cântico entrando com um forte vento, derrubando o ladrão, que tremia, repensando como era possível que o tivessem descoberto. Pela porta, surgiu uma criatura que se arrastava como uma sombra de carne, sangue, braços, pernas e olhos, manchando o chão com pus e secreções. O ladrão sacou uma pequena lâmina, mas sequer conseguiu mantê-la em sua mão, e começou a subir na escrivaninha. Foi quando conseguiu enxergar, por cima da criatura grotesca, um homem com vestes de monge parado junto a porta: O homem que o havia contratado para roubar tal item.

Ele era o sacrifício. Os demônios haviam solicitado uma alma escrupulosa e furtiva. Um Pestis Cruento.

 

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Preferível ler ouvindo a http://www.youtube.com/watch?v=dbUw7ehGYK8, música que inspirou o conto.

 

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