Culpado

O estilete desliza suavemente pela garganta do gordo, jorrando sangue pra todo lado.  Finalmente havia acabado aquela palhaçada, pois Augusto finalmente se vingou. Henrique “o bola”, havia comido sua mulher inúmeras vezes. Ciúme, na verdade, ele não sentia porque nem se interessava mais por Sofia, mas acabou matando o rechonchudo sem querer, para se defender de seus socos.

Voltou pra casa e percebeu que não havia nenhum sangue respingado nele. Tinha um segredo e não se importava com as consequências. Dormiu ao lado de sua mulher, que dormia profundamente por causa da bebida.

No dia seguinte, a polícia bateu à sua porta, fazendo inúmeras perguntas para ele e sua mulher, separadamente. Algemaram-na e saíram dizendo que ela estava sob prisão preventiva. Augusto manteve seu rosto serenamente sério, com um traço de arrependimento na ruga do olho esquerdo.

Chamaram um advogado, Evaldo – que, apesar de bom advogado, era estrábico e fanho – para defender Sofia, e na primeira reunião, onde definiriam qual seria a estratégia da defesa, estavam os três em um impasse: O álibi de que Sofia estava em casa bêbada com o marido poderia pegar mal, como se fossem parceiros de crime. A afirmação da promotoria era forte, acusando-a de têr matado o gordo por causa de uma segunda amante que este estaria dando preferência. Enfim, estavam perdidos.

Foi então que Augusto revelou:

– Eu matei O Bola.

Evaldo hesitou, mas havia sacado as intenções de Augusto:

– Certo. Você o matou. Mas porque? Qual seria sua motivação? Como entraria na casa do cara se só sua mulher tinha a chave e você desconhecia a traição?!

– Mas eu sabi da tr… – disse Augusto, logo sendo interrompido por Evaldo.

– Não adianta, essa aí não vai colar para o Júri. Vamos pensar em uma maneira de expôr algum tipo de passado negativo do balofo… de repente algum pequeno delito ou maus tratos com a mulher ou…isso, insinuar que ele poderia estar molestando sua própria filha! Vou ver alguma brecha no histórico dele. – disse, empolgado, o advogado, que saiu às pressas.

Sofia olhou para Augusto, e entendeu que ele havia mesmo matado O Bola. Levantou-se e fora acompanhada a sua cela provisória.

Augusto puxou um cigarro do maço e o acendeu, segurando-o usando o polegar e o indicador.  Pensou. Ligou para o investigador que cuidava do caso.

– Inspetor Almeida? É Augusto, marido de Sofia.

– Sim, sim…O que deseja? – perguntou o Inspetor Almeida.

– Quero confessar que fui eu o assassino daquele gordo do Henrique. Descobri a traição e fui lá acertar as contas. Usei a chave na bolsa de minha  mulher para pegá-lo de surpresa e o matei. Quero me entr…

Augusto fora interrompido pelo Inspetor Almeida:

– Olha, rapaz, não adianta falar isso pra proteger a sua esposa. Ela fez o que fez e agora precisa pagar. Não me faça perder meu tempo com essas histórias de advogado, por favor. Boa Tarde. – E desligou.

Pelo visto, a aparência serena e pacífica de Augusto estava condenando sua esposa a uma dura e injusta pena. Dormira aquela noite, apesar de tudo, como se não houvessem preocupações, e acabou sonhando com a fatídica noite em que foi até o apartamento de Henrique, declarar sua paixão.

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Baseado em uma cena do filme  O homem que não estava Lá

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