Destino

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Josué  lia seu jornal enquanto sua esposa, Marieta, enxugava as roupas na área de serviço. Típico “sol-com-brisa” de domingo, cheirinho de comida dominando a casa, acordando Rafael, que acordou tarde por ter saído no sábado à noite. O rapaz levanta tendo a certeza de que sua mãe estava fazendo batata assada, arroz e bife de fígado. Há 22 anos que convivia com o suave aroma da comida de sua mãe, então o conhecia como poucos. Enquanto o rapaz de músculos robustos tirava seu pijama e começava a colocar as calças, sua mãe, como sempre, gritou:

– Filhote! O almoço está pronto!

Somente respondeu gritando um “Tá”, e saiu de seu quarto. Viu seu pai lendo seu jornal, ajeitando os óculos para corrigir sua hipermetropia, e com os cabelos grisalhos penteados com um corte quase militar. Cumprimentou-o com um beijo, informou que sua namorada viria para o almoço e puxou-o para fora do sofá, para que fossem juntos à mesa.

Como de costume, ligam a televisão e assistem, sem prestar muita atenção, aos tolos programas dominicais. Foi quando a programação foi interrompida por uma mensagem urgente: “Estamos aqui na Avenida Marechal Portela para noticiar um trágico acidente envolvendo três carros. Com as obras na avenida, um dos carros, um Corsa branco, derrapou e violentamente bateu na traseira do Uno preto que passava ao seu lado. O carro que vinha atrás, também um Uno, bateu em um poste na tentativa de desviar do acidente. A motorista desse último, Joana Borba, saiu ilesa. Jorge Pires, Inês Pires e Flávio Almeida  estão no hospital em estado regular, duas estão em estado grave: Ana Cláudia Cruz e Júlia…”

O queixo de Rafael desliza em espanto.

“…Andrade…”

Os olhos do rapaz se alargam e suas expressões são de dor.

“…dos Santos.”

Era sua namorada.

O rapaz rapidamente pegou a chave e ligou o carro. Engatou a primeira e subiu a lomba, indo ao portão da grande casa, rumando o hospital que havia aparecido no rodapé da reportagem.

O pulso de Júlia lutava. A cada segundo parecia mais fraco enquanto os médicos mexiam em seu corpo, querendo livrá-la dos pedaços de metal. Seu pulso precisava estar batendo pelo menos um terço do que batera no dia que conheceu Rafael. Naquele dia de chuva, voltando da faculdade, ela ofereceu carona no guarda-chuva a ele. Já haviam cruzado olhares na faculdade, mas ela tomou a iniciativa. Seu coração pulava pela boca, chegava quase a sentir-se mal, mas as batidas suavizavam ao ver o belo sorriso de Rafael. Como Júlia gostava de seus lábios. Seus beijos fazem falta agora, que seu pulso está caindo drasticamente.

O suor escorria pela testa de Rafael, misturando-se às lágrimas que corriam, incontroláveis.Como estaria Júlia? Qual seria a gravidade de seu estado? Pode já estar morta! “Não, não…temos nossos sonhos a alcançar…não pode nos acontecer isso logo agora”, pensava ele ao cogitar a morte de Júlia. Desde agora, sentia-se impotente, sabia que por mais que pudesse tentar chamá-la, sacudi-la, gritar em seu ouvido, sua amada estava em estado grave, e ele não dispunha de conhecimento nem ferramentas para ajudá-la. Somente poderia recorrer a algo que não se sabe que forma tem, não se sabe se nos ouve e nunca foi visto por ninguém. E foi pra Ele/Ela a quem Rafael recorreu em seu carro.

Os pulmões de Júlia estavam cheios de sangue, e os médicos sugavam vários mililitros para fora. Estava difícil manter uma situação como essa. Em seu inconsciente, a garota sonhava que estava nadando, como faz desde pequenina. Mas em seu sonho ela começava a se afogar. Sentia um aperto no peito,e sentia a água entrando em seus pulmões. E lutou. Lutou com todas suas forças contra a água. Foi o sorriso no rosto do médico, que sinalizou sua primeira vitória.

Os pais de Rafael ficaram preocupados com a pressa e o nervosismo que o rapaz demonstrou ao sair de casa. Tentaram ligar para seu celular, mas este nunca era atendido, justamente porque estava desligado. Como os pais de Júlia já haviam falecido há algum tempo, e não sabiam o telefone de nenhum outro familiar da moça, deixaram que Rafael ajudasse a menina com seu amor. E então, rezaram.

Ao chegar no hospital, saiu correndo do carro, com lágrimas tão incessantes que seus pulsos mal conseguiam conte-las enquanto o rapaz corria por entre os brancos corredores. A garota da mesa de informação é  confusa e lenta para o nervosismo de Rafael, porém mostra-se eficiente ao encontrar a localização de Júlia: Sala de cirurgia nº4. E para lá que Rafael se dirige, pensando em como a encontraria. Pensava nas piores coisas: mutilação, queimaduras, desfigurações e hemorragias internas. A dúvida de quão sério seria o estado de Júlia lhe fazia passar mal, pois sua mente é, assim como a de todos nós, mais “criativa” do que a realidade.

O pulmão de Júlia começara a responder positivamente, e ela agora conseguia respirar melhor. Uma melhora geral deu-se em seu quadro, principalmente quando sonhava e pressentia que seu amor vinha socorrê-la; tirá-la desse sofrimento e protegê-la de todo mal. E ele veio. Tentou passar despercebido por entre funcionários e médicos, como se fosse um deles, disfarçou o nervosismo, pois mais importante era ver como estava Júlia. Ela agora sonhava estar em uma sala de cirurgia, com os médicos sorridentes em estar conseguindo reverter seu caso. Vê-se como se estivesse grudada no teto, somente observando a si mesma. É quando observa, através da persiana da única janela (que dá ao núcleo cirúrgico), dedos tocarem o vidro…Um rosto conhecido, mas ainda não identificado. O que mais lhe chama atenção é a mão, repousando do outro lado do vidro, como se quisesse entrar…Pedindo algo. E Rafael pede por sua amada. Consegue vê-la por uma janela com persianas bege: de olhos fechados, estendida sobre uma maca, com os médicos ocupados com seu ventre. Tomado por tristeza, ele sussurra seu nome, e leva a mão ao vidro, querendo pegá-la, abraçá-la; tirá-la de todo o mal em que se encontra. Júlia vê que quem lhe espera é seu amado e seu coração bate com a emoção. Quer chamá-lo, pedir ajuda, estar envolvida em seus braços, ouvir sua voz reconfortante e chorar por sua tragédia. Consegue ver cada traço do rosto do rapaz, o que faz sua alma chorar ao reconhecê-lo.

Alguém aparece e cutuca Rafael: identificando-se como enfermeiro, tira-o do local e o encaminha à sala de espera. Foi no momento que ela vê  seu amor se afastando, que sente uma lancinante dor nas costas: Eram seus rins, que tiveram seu tecido rompido, e se esvaiam em sangue. Viu uma luz saindo do seu outro corpo, o que ela está vendo de onde está: no teto. A luz é muito clara, e sua origem parece ser de sua barriga, talvez onde estão seus rins. Ela vê uma mão por entre os fortes raios de luz, e em seguida vê um rosto familiar surgindo, cabelos castanhos claros como o dela, um homem com voz de criança, uma visão um pouco embaçada, mas lhe era familiar. Essa imagem lhe falou:

– Calma, calma…Eu estou aqui. Vai dar tudo certo, eu devo ainda lhe ajudar em vários momentos, e este é um deles. Vim para cá  lhe ajudar a viver, a ser feliz. Feche os olhos, por favor…

Ela fechou. Sentiu os dedos pequenos lhe tocando na testa. Então não sentiu mais dor.

Rafael, sentado na sala de espera, põe-se a chorar com as mãos cobrindo os olhos. Estava esperando há algumas horas. Seus pais, tios, vizinhos, amigos e muitos outros passaram pra dar-lhe forças, mas não poder sentir se o coração de Júlia ainda batia lhe rasgava a alma. Pensava o que faria se ela morresse… Ir a seu enterro e vê-la dura como um boneco…Ele tentando chacoalhar o corpo da garota para que acordasse. Chorando, levando o caixão mostrando o rosto que sempre lhe provocou sorrisos. Jogando terra por cima de quem o fez sentir o verdadeiro amor, e após alguns dias, sentar por sobre aquela grama que se formaria, e olhando para a lápide, com as pernas cruzadas, depositaria as flores sobre o túmulo, rindo com lágrimas dos olhos, contando a ela como eram felizes, e desabando ao revelar a ela como estavam sendo difíceis aqueles dias. Dias em que agarrava seu travesseiro pensando em seu corpo, e chorava. Olhava televisão e cada coisa que aparecia lembrava-lhe sua amada: as propagandas de xampu que ela sempre remendava, o Faustão que odiava, os documentários sobre o Egito que passavam no Discovery Channel e que ela não deixava ninguém interrompê-la… os filmes de comédia romântica, que sempre casam no final. Júlia queria um casamento hindu, com direito a roupas, maquiagem e tudo. Adorava o oriente, e teria morrido sem sequer pisar num avião.

Rafael soluçou e sentiu um aperto forte. Nesse momento, em que segurava o coração com a mão direita, o médico-chefe abriu a porta com o laudo médico nas mãos.

– Venha comigo, rapaz – solicitou o médico – preciso que você a veja.

Adormeceu. Acordou vomitando, pois a anestesia geral precisa ser expelida pelo organismo. Ouvia todos a sua volta gemendo, como se tivessem no limiar da vida. Não conseguia se mexer direito, pois cada movimento parecia sugar suas últimas forças. Doía um lado de suas costas. Preferiu dormir para fugir da dor. Acordou mais tarde, com uma enfermeira lhe dando um remédio amargo. E novamente os gemidos tétricos que todo CTI (“Centro de Tratamento Intensivo”, a antiga UTI) tem, lembrando-nos que sofremos muito nessa vida. E como sofremos.

Depois de aproximadamente 24 horas, se recuperou. Já sorria para as enfermeiras e perguntava quando sairia daquele inferno. Acordou sentindo sua maca sendo levada pelo corredor, e parando ao lado de outra maca, onde descansava uma linda moça.

– Olhe para o lado – disse-lhe uma enfermeira – aí está o seu amor. Graças ao rim que você doou a ela, conseguimos salvar sua vida.

O rapaz, ainda fraco, não conseguiu conter o choro quieto, franzindo o rosto, mesclando um sorriso de felicidade, com o desespero de quase ter perdido a garota. Tocou um rosto ainda deformado pela violência do acidente, mas era ela quem ele acariciava. E sentia com a ponta dos dedos cada parte do rosto. Que achou que não veria mais.

Foram meses para que Júlia se recuperasse, enquanto Rafael recebeu alta em cinco dias, e recuperou suas funções normais em dois meses. Todos os dias ele estava lá, amparando a mão, afagando os cabelos, enchendo a alma de Júlia de esperanças e felicidade. Por estar muito tempo na cama, os joelhos da garota começavam a “adormecer”, e Rafael lhe aplicava massagens nas pernas.

O tempo passou e Júlia se recuperou. Voltou a dirigir, a fazer suas compras, a sorrir com Rafael, a trocar beijos intermináveis, e amar como se o dia fosse o último. Noivaram. Casaram após alguns anos.

E, novamente o tempo passou. Reservou-lhes um lindo filho, que cresceu saudável e contente. Um dia Júlia estava com seu filho num parque. O garoto tinha cinco anos, mas era esperto como um de oito. Ele se balançava numa gangorra com um amiguinho, e sorriu para a mãe, e ela reconheceu aquele sorriso. Naquele rosto que um dia lhe pareceu enevoado.

originalmente escrito em jun/2006

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