Estrelo

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Nascido na década de trinta,

Um nome forte para um homem forte:

Napoleão não era imperador nem general,

Perdeu a mãe jovem, e cedo foi ao fronte.

Tentava governar sua vida em um tempo de miséria.

 

 

Já eu, nasci em tempos de abundância,

Na cidade já moderna e cosmopolita,

Travando lutas menos onerosas.

Como neto, sua trajetória me era distante;

Mas seu legado, muito próximo.

 

Quando vieram seus quatro filhos,

Abriu um armazém no bairro.

Para o traslado dos produtos, precisou de ajuda.

Um pequeno cavalo ele comprou.

De Estrelo, batizou.

 

Ao lado da nova e amada esposa,

Me acompanhou pela infância e juventude, até a vida adulta.

Sorria, brincava e me contava repetidas vezes

As histórias de uma vida difícil, mas bem vivida.

 

Um dia, sua saúde o atrelou à cama.

Sem conseguir distinguir lembrança de realidade,

Entre suas últimas palavras, uma última história.

A memória quebradiça lhe trouxera um nome:

Estrelo.

E então virou, no céu,

Estrela.

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Cova 799

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O lençol branco ressalta os contornos do homem, estirado no chão sob uma poça carmesim. Quando recém saído do corpo e espalhado por sobre os pedregulhos, o sangue é mais claro que o normal. Apesar dos transeuntes já estarem habituados, essa morte trouxe um pouco mais de frio na espinha dos que acompanharam a troca de tiros. A esposa precisou ser contida, e seus berros disputavam o ar com explosões e rajadas de bala à distância.

Nada mais parecia o que já fora. Por mais que um dia os escombros fossem retirados da avenida, os apartamentos reconstruídos e automóveis importados, a canção da guerra iria ressoar por um bom tempo no coração dos sobreviventes.

Quando havia a paz, antes de ter parte do seu peito cravejado com fogo e metal, o homem gostava de pescar com a esposa aos domingos em uma lagoa dos arredores. À época, a filha de nove anos gostava de desenhar as paisagens da região, tomada de montanhas e pinheiros. Tinha preferência para a geleia de damasco, mas seu pai conseguia comprar somente quando viajava a trabalho para a cidade portuária. O homem gostava de lidar com outras pessoas com a gentileza com que o tratavam, o que é bastante pertinente quando se é vendedor de lã.

No entanto, naquela manhã, seis dias antes de perder tudo em um bombardeio, havia saído para consertar o aquecedor do lado de fora do hospital, onde ajudava a carregar as macas improvisadas, cheirando a sangue e vísceras. Aguentou dias sem dormir, até que se prontificou trocar um cano que havia sido atingido por uma bala.

Por conta do alto número de cadáveres, os cemitérios mal tinham covas individuais. O homem recém assassinado acabou sendo enterrado sob o número 799. Não era o septigentésimo nonagésimo nono a morrer no conflito, mas o daquele cemitério improvisado, de um vilarejo que abrigava mil e quinhentas pessoas.

Black

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Cristiana chegou em casa esbaforida, pois o calor que fazia na rua beirava o insuportável. Bom é que automaticamente seu ar-condicionado havia ligado quando os sensores detectaram seu carro na garagem.

– Altair, alguma mensagem pra mim? – perguntou ao sistema operacional que gerenciava sua casa.

– Sim, senhora. Você recebeu dois e-mails de…Susana.. – a pausa era característica do sistema precisar ler uma informação letra a letra – e um de…Clóvis.

– Ótimo, muito obrigado… – fazia o reforço positivo quase que naturalmente, mesmo falando com uma máquina – alguma outra coisa?

– Sim, senhora, chegaram as tarifas de impostos: Cristianismo, liberalismo, saúde pública e minorias étnicas.

– Caramba, de novo minorias étnicas?! Eu vivo dizendo pra eles pararem de me enviar isso, não vou pagar meu imposto pra dar dinheiro pra um bando de índio. – tomou um gole do suco de uva, direto da caixinha.  – Por favor, Altair, pague o imposto para o Cristianismo e liberalismo. Saúde pública eu vou ler depois se alguma coisa mudou.

A voz digital anuiu e ficou em silêncio por alguns segundos, voltando a falar somente para anunciar o sucesso do pagamento. Então, a moça sentou-se no sofá, ligou a televisão e escolheu um filme para assistir. Sua profissão era extenuante, mas compensava com um ótimo salário. Relaxou e acabou adormecendo.

Acordou com dores fortes na barriga, e, por entre suas pernas, sangue escorria, manchando as almofadas de cor clara. Ergueu-se curvada e cambaleou em direção à porta.

– Altair!! Abra a porta e acione o hospital! Entendeu? – gritou.

– Sim, senhora. Alertando o hospital mais próximo… – respondeu o sistema operacional  – Deseja um público ou privado?

– Qualquer um!

– A senhora não pagou por “aborto”. Caso seja esse um de seus males, o hospital não realiz… – a interface foi interrompida pelo grito da usuária.

– Eu sei, caralho!! Abre essa porta logo!

A porta abriu e ela jogou-se para dentro do carro. Sentou-se e tentou dirigir ao hospital mais próximo que aceitasse o sistema privado para aborto, se fosse o caso. No entanto, a dor estava insuportável e acabou parando no primeiro posto de atendimento que viu. Saiu do carro resvalando os pés descalços no próprio sangue. Entrou na recepção e logo estava em uma maca. Três médicos a cercaram e fizeram um rápido exame de toque.

– A senhora fez algum procedimento abortivo? – perguntou um deles.

– Não, eu estava com…ai, ai… com a menstruação atrasada, mas nada de mais.

Os médicos pareceram não acreditar.

– Senhorita, precisamos que seja sincera conosco.

– Eu falando sério!! O que está acontecendo?! – Ela urrou, agarrando-se nas laterais da maca.

– No perfil público da senhora consta que não pagou atendimento popular para…”aborto”, então serei obrigado a lhe informar que o procedimento lhe custará trinta e sete mil créditos, ok?

– Só isso?! Pode debitar, rápido. – disse.

Nesse momento, a mulher estendeu o braço perto da máquina de débito e o dinheiro fora retirado de sua conta. Os médicos a levaram a um quarto e lá ela esperou por trinta minutos. Cada um desses minutos pareceram horas, pois sentia vontade de urinar, tentava trancar o fluxo mas ele vazava contra sua vontade, ardendo a uretra e liberando mais sangue. Essas urgências aconteciam a cada três minutos, mais ou menos, encharcando o lençol com um vermelho amarelado.

– Tem alguém nessa porra pra me atender?! – gritou a esmo. Logo chegou um enfermeiro.

– O que seria senhora? – perguntou o rapaz.

– Por que não fui atendida ainda?!

– Deixe-me ver se prontuário… – observou o tablet – Então, senhora você está no plano “Liberal-A3H4”, por conta do livre mercado você está numa fila de emergência. Caso a senhora disponha de mais recursos, é possível subir nessa lista para ser atendida na frente dos outros. Caso contrário, existem outros hospitais para a senhora escolher.

– Debita essa porra logo e me tira daqui!! – agarrou o rapaz pelo colarinho, estendeu a mão na máquina de cobrança mais próxima e foi debitada a enorme diferença.

Ela pularia na fila de sexto para terceiro lugar de atendimento emergencial. Quando finalmente fosse atendida, tudo correria perfeitamente: Médicos atenciosos, as melhores medicações, e os mais tolerantes enfermeiros cuidariam dela. Mas não. Não haviam créditos suficientes.

– Senhora, eu sinto muito, mas teremos que lhe repassar ao setor público ou outro hospital privado.

– Isso é um absurdo!! Pago todos os impostos para estar aqui e receber o melhor atendimento! – ela se contorcia de dor e raiva.

O enfermeiro mudou a expressão e sussurrou no ouvido dela:

– Que seu sangue seja a areia do tempo que lhe resta para se decidir.

Arregalou os olhos, espantada com a crueldade do rapaz, e, no momento em que tentou levantar-se, acordou em seu sofá. Confusa e suando frio, perguntou:

– Altair, o… quanto tempo eu dormi?

– Trinta minutos, senhora.

Ela levantou-se e colocou a mão sobre a barriga. Olhou pela janela e viu a cidade no horizonte: suas milhares de luzes indicando milhões de moradores. Pensou em cada um que estava passando pelo que acabara de vivenciar, e disse:

– Altair… – a máquina aguardou o comando – Sabe aquele imposto da Saúde Pública?

– Sim, senhora.

– Delete-o, e coloque qualquer que venha dessa mesma fonte para a caixa de spam. Compre ações em qualquer hospital.

Em seguida, ela segurou o ventre mais uma vez, e começou a rezar pelos pobres.

 

 

Xiukong

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Tudo poderia estar se movendo em câmera lenta, mas não está. O tempo corre, a vida segue e tudo continua.

As crianças se amontoam perto das poças, tentando enxergar o que aconteceu. No espaço entre um repórter e outro, vislumbram um pouco da situação: um braço estendido, junto ao corpo imóvel. Os cliques das máquinas fotográficas combinam com o barulho leve da chuva, e os flashes não incomodam os olhos daquele que está no centro das atenções, dentro cordão policial aguardando o lençol branco.

Para os policiais, mais um dia comum no subúrbio carioca. Para mim, o meu fim.

 

Ingredientes

Ele trabalhava por vinte e quatro horas seguidas no necrotério do Hospital Santa Ana, em Santos. Folgava dois dias, e gostava de usar esse tempo para cozinhar para a família. Os filhos chegavam perto das dezoito horas e a esposa geralmente às dezenove. Pela manhã ia ao supermercado comprar os temperos e salada para complementar os pratos. Fazia bastante para que a mulher levasse de marmita para o serviço, e sempre cozinhava pratos requintados.

No entanto, enquanto estava no trabalho, esquentava um cup noodles e comia observando os cadáveres, sugando vez ou outra o macarrão que boiava na água quente. Olhou para as coxas de um dos corpos, para a nádega de outro e para o braço gordo de uma senhora. Nenhum fedia, pois eram realmente frescos. Era quase três da manhã e estava praticamente sozinho no andar inteiro: era uma noite calma de terça-feira. Jogou fora o copo com o macarrão pela metade e pegou o bisturi.

No dia seguinte estava refogando vários vegetais, com um sorriso no rosto. A esposa chegou e sentiu o cheiro agradável no ar. A cenoura e o repolho crepitavam com o óleo e a cebola já dava sinais de estar quase transparente. Juntou tudo com molho barbecue e derramou sobre o bife mal passado que continha uma pequena casquinha crocante, empanada.

– Amor, o que é essa casquinha crocante? Está ótima! – perguntou a esposa.

– Pele. – respondeu, pensando que não compraria mais carne.

Limbo

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A figura rotunda, sentada em um banco de carvalho seco e carcomido, esperava não sabia direito o quê. Sentia-se compelida a ali permanecer, mesmo que fosse uma poderosa Entidade. Talvez fossem os tantos anos de árdua e cansativa jornada a pesarem em suas costas, ou então os diversos acordos e laços que tramou com criaturas vis e perniciosas que o mantinham ali. Estava se enganando: havia um só ser por detrás de sua tediosa tarefa, e ela não cederia liberdade tão cedo.

Ao longe, vindo das brumas e por entre mesas onde almas emulavam seus comportamentos sociais em vida, uma criatura esguia e envelhecida arrastava um laço pelo chão, carregando algo tão pequeno quanto uma caixa de fósforos. Sentou-se ao lado da Entidade ociosa e lhe sussurrou:

– Eu lhe enxergo, senhor… – a língua arranhava os dentes.

– O que você quer? O que é isso que traz consigo, uma caixa de fósforos? – de fato era muito parecido.

– Eu lhe digo… é uma caixa. – sussurrou.

– O que eu posso fazer para que você vá embora? – perguntou aquele que aguardava, irritadiço.

– Eu somente posso me esvanecer com uma… aposta. – os dedos esqueléticos trincavam quando o ser apertou o laço. – Valendo uma porção de sua vilessessência. 

Era um preço alto pois tal substância é angariada com o sofrimento de inúmeras almas. No entanto, para ver-se livre da criatura, coloca-a em jogo aceitando a aposta.

– Faço uma pergunta, e você a responde… caso esteja correto, você toma minha vilessência. Caso contrário, eu… -foi interrompido pelo rotundo.

– Eu sei, demônio. Apressa essa maldição que seu odor está me causando pústulas.

– Eu lhe pergunto: O que é de minha posse, mas é plena e vastamente utilizado por meus acólitos?

Diante do questionamento, a entidade pensou. Tentou fazer conexões com artefatos há muito esquecidos; a guerras infindáveis entre céu e inferno, onde era possível extrair as lamúrias e gritos de horror e embutir em pedras preciosas dadas aos mortais para invocar demônios, mas… nada que pudesse estar em posse de uma criatura tão baixa quanto a que estava a seu lado. Aquele apostador nada mais era do que um espírito ancestral perdido, equivalente aos mendigos e malucos do mundo terreno. No entanto, a Entidade estagnada desistiu.

A criatura sugou-lhe a porcentagem de vilessência e vagarosamente levantou-se. Antes que pudesse partir, foi questionado sobre a resposta.

– A resposta? – perguntou o espírito ancestral – É claro como a luz, meu Senhor. O que é de minha posse e quase não utilizo é meu próprio nome. Foste débil em seu julgamento, somente por crer que sou um louco.

A Entidade não conseguia levantar-se do banco por ora, mas tentou apanhar o pescoço do espírito, que sumiu por entre a névoa cinza, carregando seu laço envolvido em uma caixa.

Consternada, a entidade voltou-se para si mesmo, como se falasse para alguém o breve desabafo. Olhou ao seu redor – a paisagem assemelhava-se muito a uma praça – e falou consigo mesmo, lembrando de suas lembranças longínquas de uma vida que praticamente esquecera:

– Eu aqui…nesse meu velho e querido banco… por quê? – estendeu os braços, repetindo um movimento automático – A praça é nossa…. ela é muito nossa.

Visita

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– Oi! Cheguei numa hora ruim? – perguntou a garota esgueirando a cabeça pela fresta da porta.

– Nunca é uma boa hora, né. Mas entra aí… – Disse o rapaz enquanto continuava a ler o livro gigantesco, que relatava todas histórias de um mundo de fantasia.

Fechou o livro, girou a cadeira e viu a sua frente a garota. Jovem adulta, de cabelos longos e negros, olhos de mesma cor e pele escura. Sua roupa discreta contrastava com a maquiagem carregada no lápis de olho.

– Você sabe quem eu sou, não? – ela novamente.

– Acho que sei, sim. Já é a hora então?  – o rapaz estica as costas, notavelmente com uma dor na cervical, escondendo o nervosismo aterrador.

– Ainda não, mas vim aqui conversar contigo. Sair do “mundo dos sussurros”, sabe? Ainda mais por que a última vez que conversamos faz o quê? Doze anos? Dezesseis?

“Quase dezoito mês que vem”, ele corrigiu. E disse:

– Acho que por conta de tanto tempo com esses “sussurros”, que sempre tive tanto pânico em te encontrar. – sem ser grosseiro, mas ainda decidido a ir direto ao assunto, solicitou – O que você quer?

– Eu nunca quero nada, você sabe. Eu simplesmente existo. Vim aqui porque algo está acontecendo aí dentro de você. Eu sei disso e eu sei que é em relação à mim. – sorriu, parecendo simpática.

– É…é verdade. Não é fácil ficar assim tão próximo de você, mas… eu sei que essa conversa vai ser definitiva um dia. É hoje? – mais uma vez, ele extremamente nervoso.

– Não – ela sorriu; ele não -, mas eu preciso fazer as pazes com você, eu…

– Impossível. – ele interrompeu – Cada vez mais é impossível te entender e te aceitar na minha vida, mesmo que distante. Você parece estar sempre perto. Demais. E quando eu acho que está tudo bem, você está num quadro, na internet, na porta da minha casa, toda vez que eu fecho os olhos para dormir. Como fazer as pazes com algo que me perturba a todo momento, que me faz querer chorar e pensar que, invariavelmente do que eu fizer, uma hora eu vou… – a boca contorceu-se e os olhos ficaram úmidos.

– Me desculpe. Eu achei que eu era uma motivação para que tu aproveitasse tudo com mais intensidade, mais felicidade. Não é minha culpa se existo, mas precisamos conversar. Dessa forma, cada contato que tivermos vai ser, pelo menos, indiferente. É um passo, não? Quem sabe eu não consigo te tirar um sorriso um dia?

A conversa foi interrompida quando a mãe do rapaz entrou no quarto, percebendo o filho sozinho, aparentemente pensativo. Na realidade, ele estava observando a garota pela janela, distanciando-se. Mas nunca o suficiente.